Scoobydoozando em eventos ou minha experiência com o Crianças Enxeridas

Entrando no nosso décimo nível da nossa Torre do Destino vamos pausar nossas análises sobre regras e complementos do Dungeons and Dragons 5º edição e vamos voltar nosso foco para outros sistemas, nesse caso um sistema do Raphael Lima, companheiro aqui do Mundos Colidem responsável pela Caixa de Lima, o meu novo xodó: Crianças Enxeridas. O Crianças Enxeridas é um minijogo voltado pra narrativas de investigação com personagens jovens. Vamos conhecer mais sobre esse mundo de lendas e diversão?

Para começo do meu relato deixe-me apresentar um pouco o conceito do Crianças Enxeridas. Quantas produções você conhece que envolve crianças e investigações? Muitas? Poucas? Espero que alguma referência tenha aparecido na sua cabeça. Se nenhuma referência te veio à mente vou falar então das minhas principais respostas: Scooby Doo, Stranger Things e Clube do Terror.

As referências pro jogo

Atualmente Stranger Things lançou sua terceira temporada, diga-se de passagem, eu recomendo e muito essa série, com uma premissa que segue desde o começo do show: crianças começam a observar coisas que para os adultos são ignoráveis. Essa premissa continua não apenas em Stranger Things mas permeia toda uma categoria de animações, séries, contos, histórias e narrativas de modo geral. Crianças curiosas, que se perguntam e buscam respostas são a premissa inicial desse tipo de narração, e a proposta do Crianças Enxeridas.

Nessa ideia eu sou um fã autodeclarado de Scooby Doo, uma animação dos anos 70 que segue claramente essa ideia. A cada episódio um grupo de crianças, ou algo que deveriam ser crianças, junto de um cachorro, seguem investigando casos estranhos e sobrenaturais por cidades e vilarejos. Ao final da investigação eles se metem em “altas confusões” e acabam desvendando o que estava acontecendo, em geral revelando um plano mirabolante de algum adulto e destruindo a farsa sobrenatural, coisa que não seria possível se não fossem as “crianças enxeridas e o seu cachorro idiota”.

A aventura

Então chegamos ao nosso caso. Nós do Mundos Colidem tivemos a oportunidade de participar de uma oficina na 9ª Feira de Literatura e Quadrinhos (FLIQ) aqui na cidade de Natal/RN. Nessa oficina organizamos mesas de mini jogos que são produções do Mundos Colidem. A experiência toda foi relatada aqui pelo Lima. Me vi nessa situação, narrar algum minijogo aqui do grupo e sem muito rodeio resolvi ir ao Crianças Enxeridas (CE).

O CE é um minijogo que segue exatamente essa premissa que falei antes, crianças e investigação. Nesse caso escolhi não trabalhar com uma investigação longa, afinal iria narrar uma one shot curta. Lembrei então do Clube do Terror, uma série de televisão que a cada episódio pequenos contos de terror eram contados por personagens em volta de uma fogueira. Nessa pegada mais de suspense eu poderia tentar trabalhar algum tipo de investigação.

A ideia era simples: um novo garoto aparecia para jogar bola com as crianças, já no início da noite eles precisariam pegar a bola que teria adentrado numa pequena fazenda e ali após pegarem a bola e fugir de um cachorro, o novo garoto desapareceria.

As mecânicas do sistema

Com a ideia para aventura em mente faltava agora entender bem o sistema. Essa foi a parte mais simples, estamos falando de um minijogo e ser simples é essencial. O sistema consiste numa simplificação do D20 clássico. A mecânica principal continua sendo: role um D20, some um valor e compare com uma dificuldade.

Dentro do CE a ideia de simplificação da uma enxugada até nessa mecânica mais básica: a dificuldade padrão é 15. Assim, a necessidade de teste fica focada em momentos importantes para a narrativa evitando testes muito simples ou impossíveis.

Atributos e ações

Os atributos do sistema consistem numa tríplice “físico, mental, social” com o apoio de dois atributos: curiosidade e sobrevivência. Esses dois atributos bem mais marcantes para o tipo de jogo. Curiosidade é um atributo pensado para a parte de descoberta, busca e investigação. Já o atributo sobrevivência pode ser usado tanto como atributo de ação, na tentativa de realização de alguma ação no jogo, como pode ser gasto para gerar vantagem em testes. Vantagem em um teste é rolar dois D20 e ficar com o melhor valor. Desvantagem em um teste também é rolar 2d20 e ficar com o menor valor. Deixa eu explicar melhor.

O jogo funciona com dois testes, chamarei de teste de ação (ativo) e teste de saúde (defensivo). Quando um personagem deseja realizar uma ação ele pode utilizar algum atributo como fonte da ação, assim ao fazer o teste e rolar o D20 ele somará o atributo. Por outro lado, em situações complicadas pode ser necessário que um jogador reaja ou se defenda de algo no jogo, para isso ele também faz um teste mas dessa vez defensivo.

Por exemplo: para procurar num quarto abandonado por uma pista escondida o personagem pode rolar curiosidade, ao mesmo tempo que ao ouvi um barulho estranho do lado de fora do quarto ele pode jogar um teste de curiosidade defensivo.

Conflitos

Os embates no jogo também são simplificados. Ao falhar em um teste defensivo, o personagem sofre uma consequência. Uma consequência impõe desvantagem nos testes relacionados ao atributo dela. Assim, se nosso personagem do exemplo falhou no teste de saúde de curiosidade então ele poderia ficar tão aficionado com o barulho que não conseguiria ter atenção completa em sua atividade de investigação na sala.

Uma foto da sessão de jogo

Essa mesma situação pode ser utilizada com todos os atributos. O caso mais diferente está no atributo sobrevivência. Ao fazer um teste qualquer o jogador pode optar por pagar um ponto de sobrevivência, diminuindo seu valor, e rolando novamente o teste. O jogador pode fazer isso quantas vezes quiser, com o custo de seu próprio atributo. Um modo padrão de recuperação desse ponto é na sessão seguinte. Outro jeito é fazendo um teste diferente quando ocorre algo curioso por perto: o jogador rola um D20 e deve tirar um resultado menor que seu atributo curiosidade, caso falhe ele recupera um ponto de sobrevivência, mas irá atrás do rastro, da pista ou seja lá do que o atraiu.

Minha experiência com o jogo

Na experiência de narrativa pude perceber algumas características até próprias do minijogo. Rapidamente os atributos de curiosidade e sobrevivência podem ganhar foco durante o jogo, a implementação deles parece importante. Recomendo buscar converter alguns testes que inicialmente seriam físicos, como uma fuga, em testes de sobrevivência, não deixe o foco sair desses atributos.

Essas crianças enxeridas

A mecânica de dificuldade fechada acaba por facilitar e muito o trabalho do narrador, além da falta de rolagens feita por ele. O foco fica bem na ação dos jogadores e isso pode ser um pouco difícil no começo, com jogadores iniciantes, mas com o conceito de investigação bem explicado essa deve ser uma dificuldade facilmente superada.

Por fim recomendo uma leitura no material e quem sabe um teste na sua mesa quando quiser jogar uma one shot, serviu muito bem nesse dia. Ah, não podia perder de fazer aquela propaganda, o CE está para ser relançado numa segunda edição  o financiamento coletivo para esse novo lançamento está aqui. Dê uma olhada no jogo e se puder nos ajude com essa campanha.

Os finalmentes

Finalizo aqui com minhas perguntas rotineiras: já jogou algum jogo nesse estilo? Gosta de narrativas nesse tema? Já pensou em alguma adaptação para tal? Comente sobre essas experiências abaixo, comentários com exemplos são super bem-vindos. Vamos aproveitar o espaço para debate. Saudável e sem hates.

No geral se você já chegou até aqui aproveite os bônus de experiência por terminar o décimo nível da Torre do Destino. Voltaremos em breve a nossa programação normal sem mais atrasos e com mais análises e adaptações. Espero que aproveite seu descanso longo até chegarmos no próximo nível onde encontraremos algumas surpresas inóspitas. Nos vemos no próximo nível.

2 Comentários

  1. Gostei demais do relato João, as suas reflexões me fizeram até observar pontos que ainda não tinha visto no em todas as experiencias que tive desde o processo de construção e de testes do Crianças Enxeridas.

  2. Sou professor de Matemática de rede municipal, e hoje comecei a apresentar o Crianças Enxeridas para os meus alunos (8ºs e 9ºs anos). Expliquei rapidamente as regras, e entreguei fichas para eles criarem e desenharem os personagens.

    O Sistema é bem simples e elegante. Recomendo muito.

    Muitos alunos conhecem e gostam de Stranger Things, o que facilita a identificação.

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