Salvando Will Byers: O grupo de RPG acabou, e agora?

Olá, eu sou o Lima, Raphael Lima.

Saudações cultistas desta coluna inquieta! Neste episódio de retorno da Caixa do Lima após o hiato do meio do ano do Mundos Colidem, vamos falar sobre um “problema social” que aflige a maioria dos grupos de RPG, e foi retratado na terceira temporada de Stranger Things: o sofrimento do nosso querido Will Byers, interpretado pelo talentosíssimo Noah Schanpp.

Enquanto Lucas e Mike estavam envoltos nos problemas da adolescência e seus relacionamentos amorosos, e o Dustin seguindo os “malvadões” russos, o nosso querido Will, só queria rolar dados e bater no Devorador de Mentes. E quem começou a jogar RPG na infância/adolescência e não passou por isso, atire a primeira pedra. 

Estágios de um grupo

Muitos dos que começaram a jogar na fase adulta, devem achar que o problema do Will seja de fácil solução, mas não é. A maioria dos grupos da pré adolescência passar por um ciclo que eu atrevidamente dividi em quatro partes:

1) entusiasmo do descobrimento (sessões todos os dias após as aulas);

2) chegada de novos membros e a partida daqueles que não curtiram a dinâmica do jogo (as sessões começam a ficar regulares, duas ou três vezes por semana);

3) consolidação do grupo (um número fixo de jogadores, e sessões semanais, e campanhas longas e um sistema/cenário favorito);

4) desmanche do grupo (mudanças de bairro, cidade, relacionamentos e outros interesses acabam por desmanchar o grupo).

Muitos grupos se mantêm por longos períodos no estágio três, mas são raras exceções. O que normalmente ocorre, é que os jogadores que passam pelo estágio quatro, acabam por se fechar em uma bolha de nostalgia, tentando reviver aquele momento perfeito das sessões de sua adolescência com o seu sistema favorito.

Um comportamento que acaba por atrapalhar a sua diversão com o RPG e a interação com novos grupos. Pois os mesmos se tornam rpgistas tóxicos que acreditam que existe um modo certo de se jogar RPG. Esse tipo de comportamento, só leva dor e caos aos novos grupos que cruzam os seus caminhos, que são “obrigados” a aprender a sua maneira certa de jogar.

Minha experiência

Muitos dos que abandonam os dados no estágio quatro, um dia voltam, sejam por nostalgia, ou pelo desejo de aventuras, e esse é o meu caso. Encontrei o RPG (ou ele me encontrou, como já relatei anteriormente em outras postagens) em 1995, com o First Quest.

O grupo a qual fazia parte chegou ao estágio quatro em 1999. Eu fui um dos que debandei, para depois retornar em 2003, e começar justamente de onde parei. Encontrei meu antigo grupo, que estava mudado. Eu queria reviver aquela experiência de quatro anos atrás, mas não era possível… Então me fechei na minha ideia de RPG e assim passei onze anos dentro de uma bolha que me impedia de ser feliz rolando dados (mas eu acreditava que o problema eram os outros). 

Mas porque eu não era feliz? Não conseguia manter jogos regulares, grupos me abandonaram, e eu acreditando que o problema eram eles que não sabiam jogar. Após onze anos jogando o mesmo sistema, com vários jogadores… E algo estava errado: A minha idealização de RPG não me fazia feliz. Então decidi arrumar meu kit de aventureiro e saí em busca de aventuras e respostas, e como fiz isso? Seguindo os passos abaixo:

Furando a bolha

Colocar a mochila nas costas e cair na estrada para uma nova aventura não é fácil. Um dos primeiros passos é abrir-se para a interação, conhecer novas pessoas e novos sistemas. Mas qual seria o primeiro passo? Acompanhar sites e grupos na comunidade, ler os blogs, comentar, interagir nas enquetes, e durante todo esse processo, lembrar de não ser babaca (isso é muito importante).

Só siga nessa estrada se você tiver certeza que precisa de novas experiências. Se o seu desejo é sair para julgar os grupos que vão aparecer o no seu caminho, é melhor ficar um pouco mais na sua bolha refletindo. Se uma resenha de um sistema/cenário te chamou atenção, comenta na postagem, chama a/o autora/o para um bate papo, faça amizades e estreite laços. 

Organize seu tempo

Se você é uma pessoa atarefada com as atividades da vida adulta, organize um horário com a/o sua/seu companheira/o você precisa de um momento para a sua diversão, e se ambos gostarem de jogar RPG, podem ser organizar e participar dos jogos. Nesse ponto, é importante você respeitar os seus limites, e não assumir compromissos que não podem cumprir, pois a frustração pode ser dupla, para você, e o grupo a qual se comprometeu a jogar. Você pode ser organizar para jogar: semanalmente, quinzenalmente ou mensal. Independente da periodicidade que você escolheu, se mantenha regular.

Participe de eventos

Não tenho tempo para participar de uma mesa regular, mas gostaria de jogar esporadicamente. Então a melhor solução para você é os eventos, onde você pode participar de one shots de sistemas/cenários variados e com diversos narradores. Este também é um bom exercício de interação. Navegue pelas comunidades virtuais da sua cidade e região, verifique quais eventos estão ocorrendo e as datas, e confirme presença nos eventos. 

Jogue em mesas online

Não pode sair de casa, seja por tempo ou logística (mora em uma região distante dos grupos e dos eventos), mas deseja jogar, a solução é uma mesa online. Existem diversos canais de RPG na comunidade brasileira que estão fazendo streamings semanais, sejam de mesas fixas ou one shots, e estão sempre recebendo novos jogadores. Não faltam opções de jogos onlines, seja para assistir/ouvir ou jogar. Recomendo a audição dos canais para poder ver se a proposta encaixa com a sua procura. 

Conclusão

Aventurar-se em busca de novas experiências não é fácil em nenhum meio, e no RPG quando se tem ideias pré concebidas do jogo, idealizada pela nostalgia da sua adolescência, torna tudo muito mais difícil. Pois nós seres humanos somos muito apegados às nossas experiências que foram prazerosas, o que dificulta experimentar o novo.

Escrever sobre esse tema é bem mais fácil do que fazer. Eu mesmo me mantive em minha bolha por mais de dez anos, até sair em busca de novas paragens devido ao abandono do grupo (hoje eu tenho consciência que o problema era eu e a minha idealização de RPG jogado da forma correta).

O momento da reflexão, e o notar que precisa de ajuda é algo muito difícil na maioria das experiências sociais… Mas quando o sujeito tem a consciência que precisa dessa ajuda (interação) temos um largo primeiro passo dado. Espero que essas singelas dicas sirvam para ajudar vocês a salvar o Will Byers que mora em você. 

Então vamos as novidades da Caixa do Lima!

1) Uma versão maior do Crianças Enxeridas voltada para iniciantes está na fase de diagramação, pelas mãos do Grand Papa Petras Furtado.

2) Nas próximas semanas eu e Jokita vamos começar o playtest do Espada & Magia (clique aqui), e estamos estudando fazer uma transmissão ao vivo do jogo nos canais do Mundos Colidem.

3) E finalizando as novidades, estou estudando fazer uma versão mínima do Nova Ifé inspirada nas regras do Savage Worlds

Até breve! 😉

5 Comentários

  1. Diego Filgueirasays:

    Maravilha esse Caixa do Lima. Já compartilhei com amigos jogadores de datas. Vamos salvar alguns jogadores perdidos no tempo.

  2. Luiz Billssays:

    E ainda existe outras alternativa como o infame “rpg solo” e livros-jogos.

  3. Opa, por favor nos fale sobre esses salvamentos mais tarde. 😉

  4. Olá Luiz, espero que tenhas gostado da postagem.

  5. André Corrêasays:

    Muito bom! Resumiu bem a realidade que muita gente que começou a jogar nos anos 90 viveu!Parabéns pela matéria!

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