#Rentpunk: a precarização como a nova masmorra

Olá, eu sou Gabriel e estou de volta ao Mecanismo Obscuro. Hoje vou comentar um pouco sobre rentpunk, um tema ou uma tendência que tem atravessado diversos jogos que chamaram a minha atenção recentemente.

A precariedade da vida nas cidades e temas relacionados estão fornecendo material para pensar o RPG em diversos níveis, desde fantasias urbanas mobilizadas pelo débito até jogos estruturados em crônicas e narrativas cotidianas. Esses jogos parecem convergir para o rentpunk, um conjunto temático que explora as crescentes incertezas profissionais e econômicas do nosso tempo. De que forma isso está sendo desenvolvido em alguns RPGs?

A popularização dos jogos de interpretação, e a sua apropriação por pessoas de diferentes perfis ampliaram as perspectivas do que uma partida pode oferecer. A variedade temática dos jogos se diversificou em várias frentes, inclusive em novas formas de expressar reflexões críticas em relação às questões do presente, os temas relacionados ao rentpunk não estão separados desse movimento. É claro que o desgastado sufixo “punk” não foi deixado de lado, muitos não gostam, mas essa batalha contra o “-punk” já está perdida faz algum tempo, como ironicamente declarou um criador de jogos hopepunk. Dentre os “-punks” que surgiram recentemente, além do já suficientemente comentado hopepunk, foi o rentpunk e a sua influência em temas de RPGs recentes, o que mais me chamou atenção.

 

O meu primeiro contato com o rentpunk deve ter sido em 2016, quando eu descobri a iniciativa para estimular jogos nessa temática e a compartilhei com Petras Furtado aqui do Mundos Colidem. Na época, encontrei a página da Rentpunk Game Jam que definiu a proposta em uma frase: o rentpunk é “uma ideia nascida da ansiedade e da precariedade financeira”. Em linhas gerais, esse termo está em sintonia com o que usualmente chamamos de precarização ou de uberização. São sinais contemporâneos de uma perspectiva de vida sem estabilidade financeira e de ter que lidar com a pressão dos boletos, sem saber como pagá-los, até que surja o próximo freela: é ter que vender o almoço para comprar a janta.

Até onde eu pude conferir, esse termo foi impulsionado pela oficina de jogos Rentpunk Game Jam. No Twitter, a hashtag #rentpunk avançou como proposta para os jogos a partir do início de 2015. Curiosamente essa hashtag tem sido muito pouco utilizada e comentada nos últimos dois ou três anos.

O rent no rentpunk vem de aluguel, e representa a luta para pagá-lo sem saber como, vivendo de bicos, o que consequentemente leva ao medo do despejo, e de ter que morar nas ruas – uma aflição constante que atravessa os cenários de vários jogos rentpunk. Eu não imaginava que a iniciativa do Rentpunk Game Jam poderia estimular tantos jogos que estão surgindo nos últimos anos e que a temática da precarização do trabalho e do endividamento crescente poderia ser explorada de maneira tão diversa nos RPGs. Em muitos jogos, os antagonistas são os cobradores, e o sistema facilita para que se torne quase impossível se livrar do endividamento.

Podemos considerar os jogos inspirados na proposta rentpunk como distopias. Mas seriam distopias para quem? É importante retomar aqui o comentário de William Gibson em uma entrevista: “a distopia de um homem é o paraíso do outro”

Um jogo declaradamente rentpunk é o Precariat, escrito na época do Rentpunk RPG Jam em janeiro de 2015. Com mecânicas mais próximas de um storygame, o Precariat se define como “um jogo de narrativa de improviso” no qual os jogadores devem interpretar um grupo de pessoas que vivem juntas de forma precária, tentando não apenas sobreviver e suportar as adversidades, mas também construir um sentido em suas vidas. Os Precariats [precarizados] “vivem em uma sociedade na qual a vida é imprevisível e insegura: eles não possuem trabalhos estáveis, não possuem casa própria e comumente estão em estado de vulnerabilidade”, o jogo é estruturado em temporadas que representam três meses cada. A principal divisão de dias é entre a semana e o final de semana: durante a semana o personagem deve trabalhar duro, esse período é resolvido com uma mecânica de rolagem de dados. O final de semana é o período em que o sentido dos relacionamentos é desenvolvido, bem como os momentos de lazer e realização pessoal. O Precariat pode ser baixado gratuitamente aqui.

 

Talvez o jogo mais comentado associado à uma proposta rentpunk, seja o #iHunt, baseado em FATE. Esse jogo, desde o seu lançamento, está sendo bastante discutido na Comunidade FATE Brasil no Telegram com reflexões bastante pertinentes feitas por Fábio Costa, o moderador da comunidade.

Olivia Hill, autora de #iHunt, que já escreveu para linhas de jogos como Shadowrun, World of Darkness entre outros, apontou que mesmo sendo um jogo sobre as ansiedades da insegurança financeira, procurou manter um tom leve. Em uma entrevista recente descreveu o jogo como um encontro de Buffy com Uber .
  Os protagonistas usam um aplicativo para conseguirem empreitadas de caça aos monstros. O jogo é baseado em romances escritos por Hill, nos quais não há glamour nas caçadas: caçar monstros por aplicativo de celular é algo que você faz para evitar ser despejada da sua casa. O sucesso desse jogo e as discussões sobre essa temática, retomaram o meu interesse sobre o rentpunk em diferentes perspectivas.

 

O minijogo Entregadores Precarizados de Anchieta (EPA) de Jorge Valpaços é “um jogo sobre a precarização das relações de trabalho, sobre a vida enquanto espetáculo, sobre a ênfase da racionalidade técnica em prol dos afetos”. Bem alinhado ao tema, esse jogo é apresentado com um vocabulário inspirado pelo pensamento deleuzeano e parece ser um rentpunk sob efeito de alucinógenos. O jogo aposta na dicotomia entre afeto e racionalidade técnica de forma experimental e possui uma arte bastante evocativa. Já o Sarjeta, Solidão e Sereno, do mesmo autor, poderia ser considerado um jogo para além dos limites do rentpunk,  pois conforme a sua apresentação: “[…] todos sabem que são reles excluídos e as sessões girarão em torno do existir em um mundo sem recursos no qual sua ausência não será sentida por muitos, provavelmente.” No rentpunk, os personagens ainda vivem com alguma dignidade, e mesmo sem muito dinheiro, ainda são rodeadas de pessoas que se importam, nem que seja apenas nos finais de semana. A temática da precariedade parece ser levada quase ao limite em Sarjeta, Solidão e Sereno, ultrapassando a uberização e alcançando a miséria.

Em Electric Bastionland, não importa quem você é, “suas dívidas o forçaram a se tornar um caçador de tesouros”. Esse jogo, ambientado na fantástica cidade de Bastionland em plena era elétrica, usa as regras do Into the Odd. Electric Bastionland é um jogo diferente e muito bonito, com tipos de personagens exóticos, que se definem por terem falhado em suas carreiras, o que é fundamental para a criação do personagem, pois define as suas habilidades. O grupo tem uma dívida coletiva e o objetivo é caçar tesouros como a única forma de salvação. Electric Bastionland parece ser a mistura ideal da onda weird do OSR com uma refinada fantasia rentpunk. Uma amostra desse jogo pode ser baixada aqui

Essa foi uma breve exploração sobre o rentpunk em alguns poucos jogos. Mesmo com aproximações diferentes, esses RPGs colocam o desafio da precariedade de uma forma que estimula reflexões sobre o nosso tempo. Nem todos os jogos citados aqui são declaradamente rentpunk, mas é possível estabelecer algumas convergências para esse termo. O tema da precariedade da vida na cidade é antigo, mas o rentpunk parece fazer uma bom apanhado de  algumas questões contemporâneas de maneira original. Temos desde jogos de fantasia urbana em uma releitura da caça ao tesouro como forma de quitar as dívidas, até jogos estruturados para enfatizar a importância da solidariedade em tempos de precarização profissional. Vários outros jogos estão disponíveis para serem explorados na página da Rentpunk Game Jam.

 

Rentpunk não é igual a  ficar sem créditos em um jogo de ficção científica, ou perder moedas de cobre em um jogo de fantasia. A instabilidade não é algo passageiro, ela é o cotidiano, a insegurança financeira e profissional é a masmorra, ou seja, ela é o cenário e o clima dos jogos. A combinação high tech/ low life vislumbrada no cyberpunk está no rentpunk em sua versão mais atualizada.

Ainda há muito a ser descoberto. Consegui encontrar pouca coisa sobre a origem do termo e pude conferir apenas alguns jogos. Vocês conhecem RPGs que seguem a linha rentpunk? Já tinham lido algo sobre essa proposta antes? O que mais podemos falar sobre isso?

Eu aguardo vocês nos comentários aqui no Mecanismo Obscuro, é um prazer estar de volta. Joguem juntos!

FAE Fate Fate Acelerado Gabriel Mundos Colidem Rentpunk RPG

Gabriel

Conheci a maior parte dos seus amigos na mesa de jogo. Gosto de explorar jogos novos e de revisitar os antigos, sejam eles rápidos e despretensiosos como RISUS, experimentais como Sweet Agatha, flexíveis como GURPS ou simples e engenhosos como Knave. Nos últimos anos tenho me aplicado em trabalhos acadêmicos sobre história das ciências e cultivado um gosto musical impopular.

8 Comentários

  1. Nicholas Ataide Minorasays:

    Uma excelente matéria como sempre. Temas como esse são difíceis de por em mesas para alguns e um exercício extenuante pra outros, mas é uma maneira interessante de falar sobre o tema e compreender como as pessoas se sentem com relação a esse medo latente que todos.

  2. Bem interessante!
    Prof. Gilson

  3. Edu Guimarãessays:

    Artigo excelente!

  4. Bruno Prosaikosays:

    Muito bacana, Gabriel!

    Primeira vez que leio algo sobre rentpunk e fiquei fascinado. Obrigado por me apresentar isso.

    De fato, além de ser algo muito palpável na contemporaneidade, a precariedade financeira pode trazer uma boa dose de realidade para muitos gêneros já batidos de RPG. Consigo levar muito mais a sério um aventureiro que entra num ambiente perigoso como uma dungeon por desespero financeiro do que um que entra ali por simples ganância ou curiosidade.

    Todos os jogos citados parecem interessantes, especialmente o #iHunt. Excelente ideia associar a caça aos montros com aplicativos de celular. Muito legal ver esse tipo de diálogo entre ficção e realidade.

    Enfim, vou pesquisar mais a respeito e aguardo futuras matérias suas a respeito. 😉

  5. Gabrielsays:

    Fala Nicholas! Obrigado e fico feliz que você tenha gostado. Não é uma temática fácil. Eu estava conversando com Petras, quando ele me mostrou o Electric Bastionland, o quanto pode ser desafiador jogar com alguns tipos de personagens desse jogo, exatamente por retratarem questões da nosso tempo.

  6. Gabrielsays:

    Obrigado Prof. Gilson.

  7. Gabrielsays:

    Valeu Edu. Obrigado pela força de sempre.

  8. Gabrielsays:

    Fala Bruno. Que bom que você também voltou a marcar presença aqui no Mecanismo Obscuro. Fico muito feliz em ter apresentado um tema que você considere inspirador. Isso conta ainda mais, pois sou um fã do seu trabalho. Sensacional a sua percepção de como a precariedade pode trazer um tom mais grave às atividades do aventureiro e, de certa forma, ajudar a (re)atualizar o certas temáticas. Depois se puder aparece lá na Comunidade Fate Brasil no Telegram. Tem muitos comentários rolando sobre o #iHunt.

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