Player Skill

Olá Aventureir@s !
Eu sou o DM Quiral, e este é nosso espaço de experimentos, o Laboratório do Alquimista, no Mundos Colidem. No capítulo de hoje, eu resolvi trazer uma discussão que percebi ter sido distorcida, e até se perdido ao longo dos anos: Player Skill.

1. O QUE É PLAYER SKILL?

A tradução livre seria habilidade do jogador. O conceito básico envolve o jogador buscar soluções de forma criativa, sem necessariamente precisar ativar mecânicas de ficha de seu personagem (character sheet). Isso tem uma forte relação com o próprio desing de jogos que possuem poucos recursos em fichas, como lista de perícias ou feats e derivados. Naturalmente força os jogadores a buscarem soluções fora da ficha do personagem, na própria cena, de forma criativa. Como exemplo ilustrativo, segue a imagem de uma ficha nessa pegada:

2. O QUE É CHARACTER SKILL?

Com a evolução dos sistemas de RPG, foram surgindo uma série de regras mais complexas e completas, e com isso eles passaram a possuir mecânicas específicas para solução de problemas, uma forma que foi planejada para moldar melhor o jogo, parametrizá-lo melhor, o que poderia deixá-lo mais “justo” dentro de sua engrenagem. Veja como exemplo a imagem da ficha do personagem do D&D3e:
Repare a diferença na quantidade de informação, inclusive com uma grande série de perícias específicas, como “usar cordas”. Fortalece-se assim, o conceito da solução por recursos e mecânicas descritas na ficha, um tipo de “crocância” (um termo bem usado no inglês: crunch), que gerou um novo estilo de jogo, muito direcionado para as habilidades dos personagens (character sheet). Boa parte do jogo começou a ser fortemente pautado então sobre montar uma boa ficha e usá-la adequadamente. Os jogadores naturalmente têm o gatilho de buscar as soluções a partir da ficha, das habilidades de seus personagens, de magias, de itens mágicos. Acredito que isso foi visto como uma solução para “corrigir” diversos “defeitos”, como o famoso ladrão galanteador de Carisma 5, ou aquele guerreiro estrategista de Inteligência 4. No geral a proposta envolvia estrutura melhor o que o personagem era capaz de fazer.

3. ISSO TEM EFEITO COLATERAL?

No meu modo de ver, sim !
Um dos grandes efeitos colaterais que eu vejo disso é que essa “evolução” deixou ofuscada uma das essências do estilo de D&D old school, que é o estímulo à soluções para além da ficha.

Com a ficha complexa, cheia de poderes e anotações, naturalmente diante deu um problema o jogador busca alguma habilidade. O mais grave disso é que toda essa complexidade é, de certa forma, limitadora, pois a própria solução criativa é desestimulada, e gatilhos de ficha passam a ser a estrutura padrão.

Isso não é grave, veja bem, mas considero importante compreendermos que trata-se de um estilo de jogo. No D&D clássico uma das estruturas principais se baseia em uma dialética entre jogador & Dungeon Master. Isso faz parte de seu design. Já os jogos mais crunch, têm uma proposta de planejamento prévio, sustentada por uma boa montagem de ficha e seu bom uso. São propostas diferentes, e cada uma tem o seu espaço.

4. SERIA POSSÍVEL APLICAR A PLAYER SKILL EM DIFERENTES SISTEMAS?

No meu modo de pensar, hoje, em 2019, com certeza! Nós temos uma infinidade de possibilidades de reinterpretar a forma como usaremos e recompensaremos a Player Skill. Isso vai depender muito das mecânicas e dinâmicas do sistema de RPG. No D&D clássico é interessante a sensação de que o lance de dado é pesado, é perigoso, então parte do estilo de jogo é dar muito espaço narrativo e interativo aos jogadores com as cenas de possível conflito, antes de acionar as mecânicas. Mas há jogos que precisam do lance de dado para fluírem, como o 7º Mar ou Shotgun Diaries, dessa forma o gatilho é a partir dessas mecânicas que a dinâmica da narrativa surge. Cabe ao DM avaliar bem como é a mecânica central de seu jogo, para não feri-la, e deixar espaço para que a Player skill funcione.

5. A PLAYER SKILL plena.

O D&D clássico e seus respectivos retro-clones são as melhores ferramentas que eu conheço para aplicação genuída da player skill, pois ela não vem de conhecimento do jogo, mas de sentimento, de decisões pessoais, da imersão genuína. Muitos jogos do movimento OSR buscaram resgatar esse estilo, os chamados “retro-clones do D&D”. Uma forma cristaliza de se compreender essa proposta vem do incrível manifesto publicado por Matt Finch em 2008, “A Quick Primer for Old School Gaming“, que em um de seus momentos Zen propostos está muito claro isso:
player skill over character sheet“, ou deja, criatividade do jogador sobre a ficha de personagem.

 

6. COMO PODEMOS USAR A PLAYER SKILL EM D&D5e?

Eu adoro a filosofia da Player Skill, e sempre busco aplicá-la nos jogo, quando para o D&D5e eu chamei isso de “espaço 1-2”, onde acredito que, sem ferir a engrenagem original do sistema, é possível explorar muito bem esse conceito.

Resumidamente o espaço 1 é o momento narrativo, sem mecânica alguma, onde o jogo flui. O espaço é o gatilho mecânico em que o DM pede um teste de atributo ou uma salvaguarda, um gatilho mecânico.

Mas nesse “espaço 1-2” existe um momento excelente para o jogador explorar, por questionamentos, perguntas, boas ideias, que podem afastar a situação narrativa do risco ou conferir boas vantagens antes de o gatilho mecânico. Nesse espaço, o DM pode conferir ponto de inspiração, flexibilizar dificuldade ou quem sabe conferir efeitos de cobertura. A narrativa vai informar a melhor forma de julgamento.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

No geral eu penso que é importante a reflexão sobre o jogo, se realmente sistemas que se vendem por “rodarem sozinhos” são bons para uma experiência de RPG, e se faz diferença as próprias escolhas e abordagens dos jogadores.

Por fim, deixo aqui uma série de referências complementares:

1. Vídeo no canal sobre “Player Skill“, link aqui.

2. Vídeo no canal sobre “mecânicas & dinâmicas”, link aqui.

3. Vídeo sobre “A Quick Primer for Old School Gaming”, link aqui.

4. Artigo “É possível ter uma experiência old school com D&D5e?” , link aqui.

5. Série no canal sobre D&D-OSR, link aqui.

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Caso você queria acompanhar mais do conteúdo que produzo, segue aqui minha árvore de links. Será um prazer receber o seu feedback !

TUDO É XP

0 Comentários

  1. Olá, salve Dm, blz?

    Segue um pequeno comentário. Conheço a discussão sobre skill player por escutar muito o “Café com DG”. A partir disso comecei a segui-lo no youtube e venho acompanhando os vídeos sobre DCC e achando divertido.

    Sobre o texto, acho que se a proposta é escrever um texto, seria interessante explicar o que está nos vídeos, pois senti que a proposta não foi atingida, devido as referencias aos vídeos. Tudo bem cita-los, mas ficou exagerado, eu que prefiro ler fiquei confuso. Talvez explicar mais ajudaria. Ainda não assisti os vídeos… então essa reflexão é somente sobre o que está escrito.

    Abraços

    • Olá ! DM Quiral aqui 🙂

      Muito obrigado pelo feedback. Quanto ao conteúdo aqui da coluna, a nossa intenção é complementar aqui o conteúdo dos vídeos, mas acredito que o seu ponto tem muito fundamento. Vou repensar uma forma de trazer mais texto para os próximos, ilustrando melhor a discussão ! Um abraço, e marque um pontinho de XP aí pelo debate aqui, eu já anotei o meu 🙂

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