Nova Ifé: um minijogo Pós-apocalíptico Afrofuturista para o Dia Nacional da Consciência Negra

Olá, eu sou o Lima, Raphael Lima.

Saudações, 3d4-2 cultistas desta coluna inquieta, conhecida na comunidade como a Caixa do Lima. Estamos em novembro, mês em que comemoramos a consciência negra, e eu, como professor e negro, nascido em periferia, acredito que a história é a cultura afro brasileira e que a história da África e suas contribuições devem ser abordadas durante todo o ano nas escolas de todo o Brasil.

E mais uma vez, pretendo abordar pelo segundo ano, com os discentes da instituição onde leciono, a literatura afrofuturista. Para isso, transformei o Nova Ifé, um cenário afrofuturista pós apocalíptico em um minijogo, que pretendo apresentar a vocês na nossa conversa de hoje.

Vamos lá?

Apesar de passar anos sendo negligenciada, a contribuição dos povos de origem africana na história do Brasil passou a ser obrigatória, com o advento da lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africana nas instituições de ensino públicas e privadas do Brasil. Mesmo assim, ainda temos um longo caminho a percorrer, pelo menos quase dois séculos de informações omitidas e uma invisibilidade social planejada da cultura de origem africana, fazendo com que muitos desconheçam a produção literária africana.

Sim, eu novamente venho falar sobre afrofuturismo.

Pantera Negra - Wakanda

Mas o que é afrofuturismo?

Há um ano atrás, eu escrevi um texto chamado Consciência Negra, Representatividade e Literatura Africana (Afrofuturismo) aqui no Mundos Colidem. Sou negro, mas em minha formação educacional quase não encontrei textos, literaturas e docentes que me guiassem para estudar os povos de origem africana no Brasil. Às vezes, em determinados momentos da vida, você acha que seu povo não tem história. Mas tudo começa a mudar em 2018, primeiro com o lançamento do filme do Pantera Negra e depois com a tradução de algumas obras afrofuturistas ou de literatura de origem africana para o português. Também conheci autores brasileiros, como a Lu Ain-Zaila, Fábio Kabral, Caena Rodrigues e Fernando Gonzaga, entre outros.

Mas o que é Afrofuturismo? É uma narrativa fantástica que ao invés de se basear na evolução histórica seguindo a cultura e tecnologia europeia, como parâmetros evolutivos, tem seu alicerce na cultura africana, seus mitos, cosmologia, tecnologia e ciência, e imbuídas de crítica social. O movimento do Afrofuturismo surgiu na década de 1960, tendo como pioneiro o compositor de jazz, poeta e filósofo Sun-Rá. E na década de 1970, com as obras literárias de Octavia Butler (como a recém-lançada no Brasil, Kindred). Mas se consolidou como movimento e cultura na década de 1990, com a obra Black the Future de Mark Dery, transcendendo literatura, música e abrangendo outros segmentos artísticos.

Como afirmei anteriormente, não sou um grande especialista na literatura afrofuturista, e mesmo após um ano de leituras e pesquisas, sinto que ainda estou engatinhando no gênero, mas neste ano de 2019 li algumas obras que vou deixar como dicas aqui para os interessados. E após as dicas, deixo mais um minijogo usando o Lima System, o Nova Ifé, que é um cenário pós apocalíptico afrofuturista, que ficou em 5º lugar no Concurso Alphaversos em 2018.

Quem Teme a Morte: uma das grandes influências de Nova Ifé, este é o primeiro livro de Nnedi Okorafor que tive contato e foi amor à primeira vista. O cenário é uma terra devastada por uma hecatombe nuclear, onde uma jovem descobre que tem superpoderes místicos e que é a escolhida para salvar a humanidade. Esse livro é muito lindo.

Bruxa Akata: olha a Nnedi Okorafor novamente na lista! Nesse livro maravilhoso sobre bruxos adolescentes em um cenário repleto de magia e mistério, uma jovem albina de 12 anos chamada Sunny, descobre que é uma pessoa-leopardo em mundo de ovelhas, com habilidades mágicas que começam a ser despertadas. Sempre considerei o Tolkien meu autor favorito (tem muitas incoerências na minha fala) mas após conhecer a Nnedi, ela rapidamente se tornou minha nova paixão literária.

Caçador Cibernético da Rua 13: João Arolê, negro, caçador de espíritos malignos, vive na cidade da Ketu 3. Nessa obra, Fábio Kabral constrói um cenário de ficção científica repleto de elementos da mitologia iorubá em um mundo futurista repleto de tecnologias avançadas, onde vive o povo melaninado. Neste ano, Kabral também lançou o livro A Cientista Guerreira do Facão Furioso.

Sankofia: uma coletânea de Lu Ain-Zaila, com 12 contos de inspiração afrofuturista que passeiam por várias possibilidades literárias, mesclando, por exemplo, empregadas domésticas e terror social; Maracatu e Sword & Soul; patrimônio histórico e mistério; fantasia, poderes e representatividade; ficção científica e o que nos faz humanos; e cultura e mitologia africana. Sankofia abriga dois contos que particularmente me impressionaram: Ode a Laudelina e Crianças Vermelhas. Recomendo demais a leitura desta obra. E em 16/11/2019, a Lu Ain-Zaila lança Ìségún, vale a pena demais conferir o trabalho.

Coletânea Afrofuturismo: topei com essa obra na Amazon durante as pesquisas sobre Afrofuturismo. É uma coletânea escrita por oito autores, todos negros, que dão voz às suas experiencias em contos que mesclam alertas, apelos de situações do presente e do futuro, através das visões de mundo dos seus autores.

Filhos de Sangue e Osso: nesta obra, Tomy Adeyemi apresenta o cenário de Orisha e saga de Zé Lie, Amari, Tzain e Inan para resgatar a magia, que desapareceu há alguns anos. Junto com esse desaparecimento, uma investida do rei contra os maji (conjuradores de magia) quase os extingue por completo. Filhos de Sangue e Osso é um cenário de fantasia usando elementos da mitologia iorubá.

REGRAS DO NOVA IFÉ (minijogo)

Este jogo usa as regras do Lima System, desenvolvido por Raphael Lima e Mundos Colidem

História

Em meados do Século XXII, em plena Guerra das Grandes Nações, os Iorubás ouviram uma antiga profecia e migraram da cidade de Markudi, na Nigéria, para o Planalto de Dafur, no Sudão, em busca de uma milenar cidade de pedra.

A profecia estava correta. Logo, um cataclísmico ataque nuclear devastou e modificou toda a vida na superfície do planeta, restando apenas os Iorubás em sua cidade de pedra. Após alguns anos, sete em cada dez crianças nasciam com mutações, tornando-se essenciais para a sobrevivência da cidade de Nova Ifé, pois eles formam as equipes de exploração, responsáveis por vasculhar os arredores da cidade em busca de recursos para a sua manutenção.

Apesar de dominarem toda a tecnologia do Século XXII, os Iorubás têm que lidar com uma Inteligência Artificial conhecida como o Golem, que vive em um complexo militar ao leste de Nova Ifé e que planeja destruir a comunidade no planalto de Darfur.

Objetivo: formar um grupo de exploração e recolher recursos para o desenvolvimento de Nova Ifé.

A Personagem

Para construir uma personagem, a jogadora deve responder às questões a seguir:

Nome: Qual o nome da sua personagem? Núbia, Zola, Kênia, Zaki, Iana, Zaci, Amara, Taú e Diore (escolha um).

Profissões: Mensageira, Mecânica, Guerreira e Batedora (escolha uma).

Antecedente: Escreva uma frase que represente o seu histórico, como Filha de uma ex-exploradora, Órfã de nascença ou Minha mãe é membro do conselho. O antecedente pode ser usado para definições de habilidades do personagem.

Atributos: Como estão distribuídos os valores de atributos da sua personagem? Os atributos são seis: Corpo, Mente, Carisma, Exploração, Sobrevivência e Axé, cada um com valores que vão de um a cinco. No momento da criação do personagem, o jogador pode distribuir 18 pontos como desejar entre eles. Dois atributos são especiais:

Sobrevivência, que reflete a capacidade do jogador mudar a história. Cada ponto de Sobrevivência gasto durante o jogo permite refazer uma rolagem ou inserir um elemento narrativo na história.

Axé, que reflete a capacidade de sentir, resistir e convocar as forças espirituais. Apenas as personagens femininas podem usar o axé para realizar pequenas mágicas: Curas (1 ponto), Adivinhações (2 pontos) e Convocar espíritos da natureza (3 pontos). Os pontos de Sobrevivência e Axé são renovados na próxima sessão de jogo.

Mutação: a sua personagem nasceu com uma mutação, escolha entre: Velocidade Felina, Rastreador, Olhos de Abutre, Ouvidos Apurados, Força dos Grandes Primatas, Asas de Inseto, Respirar na Água, Telepatia, Pele de Camaleão e Língua de Sapo. Quando sua personagem fizer um teste usando sua mutação, ela recebe Vantagem no atributo em que a mutação está relacionada.

Medo: o que a sua personagem mais teme? O escuro? Os animais da zona? O Golem? Escreva uma frase descrevendo algo de que a sua personagem tem medo. Quando ela fizer um teste onde o Medo seja relevante, ela recebe Desvantagem.

O Que Preciso Para Jogar?

Uma cópia destas regras, lápis, borracha e algumas folhas de papel para as anotações da ficha de personagem, além de dois dados de seis lados (2d6).

Rolando Dados

Sempre que for fazer uma rolagem de dados, a primeira coisa a se observar é se a ação é comum ou de conhecimento.

Ações Comuns são aquelas que a maioria das pessoas faz (abaixar-se, andar sem chamar atenção ou empurrar alguém) e não precisa de nenhum pré-requisito.

Ações de Conhecimento (encontrar trilhas, usar uma arma, consertar um equipamento ou rastrear um presa) necessitam que a personagem tenha a profissão adequada (mensageira, guerreira, mecânica ou batedora).

Se a ação for algo muito simples ou a personagem tiver a profissão adequado a uma ação de conhecimento, poderá fazer a rolagem de dados para testar a ação. Para isso, verifique qual atributo é mais adequado à ação e role um dado de seis lados. Se o resultado do dado for igual ou menor que o valor do atributo, a personagem obteve sucesso.

Vantagem/Desvantagem: quando a personagem rolar uma ação com vantagem, ela rola dois dados de seis lados (2d6) e ficar com o menor resultado. Quando a personagem rolar uma ação com desvantagem, ela rola dois dados de seis lados (2d6) e fica com o maior resultado.

Saúde e Ferimentos

As personagens começam o jogo com quatro condições: machucada, ferida, incapacitada e morrendo. Sempre que a personagem sofrer um tipo de dano, a narradora solicita que sua jogadora marque uma caixa de condição. As três primeiras caixas representam Desvantagem nas rolagens dos atributos primários (Corpo, Mente e Carisma). Quando a personagem chega à condição morrendo, ela está em Desvantagem em todas as ações.

Se a personagem sofrer mais um dano após ter marcado a condição morrendo, a narradora ganha o poder narrativo da ação e a personagem fica à mercê da narrativa, podendo ser considerada morta, inconsciente, capturada ou qualquer resultado que a narradora ache adequado.

A Narradora

A narradora não rola dados, deixando essa função apenas para as personagens jogadoras, que devem superar os testes utilizando sua criatividade, esperteza e a sorte com os dados nas rolagens de teste de seus atributos, vantagens e desvantagens.

Gerador de Eventos

 

Role 1d6 em cada coluna
1d6LocalProblemaAdversário
1Nova IféDoençaZumbis
2Oeste (cidades desertas)Buscar EncomendaQuimeras
3Sul (Florestas e Montanhas)Ataque DiretoGrupos Perdidos
4Leste (A Fábrica)Falta de comida/águaDrones
5Norte (Deserto)Missão de ExploraçãoVermes de Areia
6Nave caídaRadiaçãoAlienígenas

Mais jogos

Se você gostou do minijogo do Nova Ifé e gostaria de jogar neste cenário usando outro sistema, então temos a solução dos seus problemas (uma vez ouvi um cara dizer: “para quase tudo o Mundos Colidem tem uma postagem”), pois temos adaptações para 3D&T, Savage Worlds e FATE/FAE. E se estás procurando algo mais “tradicional” para trabalhar história e cultura afro brasileira, temos a sugestão do Jornada ao Quilombo, anteriormente apresentado nesta coluna, onde você pode encontrar em duas partes Jornada ao Quilombo: construção de personagens e regras básicas e Jornada ao quilombo: a aventura. E aproveita a passagem por aqui para conhecer as lojas virtuais do Mundos Colidem no Dungeonist e no DriveThru RPG, as dicas mais quentes são o Heróis de Electrum, Isekai RPG e o segundo playtest do Nova Amsterdã: O cão dos van Bocks.

Até Breve!

😉

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