Lendas e Heróis – Construindo uma tragédia épica para D&D 5e – Parte 3: o mundo

Bem-vindes de volta a Torre do Destino, a cada quinzena um andar a cada andar um tema. Não tão diferente do nosso andar anterior vamos continuar falando do Lendas e Heróis, um cenário de fantasia heroica/épica/trágica para jogos na antiguidade. Eu sou João D. e nessa continuação falarei mais sobre a construção do cenário em si ao invés de regras. Vamos ao boss final.

Voltando ao começo

Em um cenário como o proposto para o Lendas e Heróis duas coisas são bem importantes: a cosmologia, que seria a narrativa da criação do mundo, junto a religião, que seriam os seres superiores os deuses e os titãs. Numa ideia de agregar diversas culturas e civilizações dentro do jogo eu me vi na necessidade de alinhar crenças que fossem comuns para todas as civilizações, sem descaracterizá-las.

Meu primeiro passo foi então renomear as classificações de algumas das divindades de cada mitologia. Separar bem deuses de titãs era muito essencial. Lembrando como comentado na parte 1, jogos como God of War e Shadow of the colossos são ótimas referências. Nesse sentido, e aproveitando do próprio DnD, eu tinha claro na cabeça que o jogo estaria focado em heróis contra monstros. Aqui uma primeira escolha minha, focar na disputa contra criaturas e não contra outras pessoas.

Clareando as ideias

Essa é uma escolha que deixa claro o foco da narrativa do jogo, além de conseguir integrar um objetivo em comum para todas as civilizações e religiões distintas. Um inimigo em comum, no caso os monstros. Assim, essa seria a grande diferença entre deuses e titãs, deuses criaram as pessoas, enquanto os titãs criaram os monstros.

É bom deixar claro que, mesmo aproveitando uma nomenclatura bem clássica de deuses e titãs, a definição do que é um deus e do que é um titã está levemente alterada.

Com isso em mente precisamos de uma intriga, um motivo pelo qual pessoas e criaturas batalham, um motivo pelo o qual deuses e titãs travam sua guerra. Para isso pensei em colocar mais um grupo de entidades, os primordiais. Os primordiais seriam os primeiros a existir, aqueles que são o mundo em essência, a natureza como um todo. A disputa pela natureza, pelo território, pelo mundo, seria nosso embate.

O Horizonte

Unindo os diferentes

Para acrescentar um pouco mais nessa cosmologia e criar algo que trouxesse mais da minha personalidade. Junto a isso criar conceitos que pudessem ser entendidos por todas as civilizações, conceitos que fossem únicos. Mesmo com divindades para representar o líder em todas as civilizações há uma grande diferença entre a ideia principal do Zeus, do Odin e do Osíris. Essa era minha necessidade, um conceito comum para todas as culturas.

Duas características são comuns nas narrativas trágicas épicas, a ideia de livre arbítrio e a ideia de destino. “Você pode escolher suas ações, mas será cobrado pelo resultado delas” ou ainda “Fugir do seu destino é uma batalha perdida” são citações bem típicas de jogos com profecias e deuses. Como eu sou matemático, para quem não sabe, eu dei uma leve mudança nessas ideias. O livre arbítrio eu chamei de Horizonte, aquele que representa as infinitas possibilidades, enquanto o destino continuou como Destino, aquele que representa o resultado fixo. De um lado o Horizonte representa o todo, o infinito, o possível, enquanto o Destino representa o ser, o um e o fixo.

O Destino

Depois de explicar um pouco como eu mentalmente fui fazendo essa construção vou colocar abaixo como ficou tudo junto e escrito sobre a cosmologia nova.

Minhas versão da cosmologia

“Antes do tempo havia apenas o Horizonte, o infinito, e o Destino, o ser. Em vários horizontes os destinos se fizeram vivos, assim nasceram os Primordiais, seres que incorporam os conceitos mais primitivos nas culturas e povos. Os Primordiais criaram as formas e as coisas. Definiram a partir de si a realidade e estabeleceram as regras do universo. A Era dos Primordiais foi silenciosa.

Depois vieram os Titãs, com corpos fixos e personalidades tão fortes quanto seus poderes. Criaturas tão formidáveis povoaram o universo criado pelos Primordiais. Mas as diferenças entre eles trouxeram desavenças infindáveis. Os Titãs criaram os movimentos, as mudanças, a criação e a destruição. A Era dos Titãs foi disruptiva.

Por fim nasceram os Deuses, com vontades, desejos, perdão e pecados. Dos Deuses vieram os primeiros dons e dádivas, um poder que não apenas estava neles mas podia ser entregue. Os Deuses criaram as sociedades, os costumes e as leis, trazendo ordem ao mundo de caos e derrubando os Titãs. A era dos Deuses foi de ordem. Mas a Era dos Deuses não duraria.

Em embates contínuos os Titãs tentavam reocupar as terras Primordiais e finalizar a Era dos Deuses. Infindáveis guerras foram travadas, as entidades enfrentavam-se no auge de seus poderes. Mas tais entidades eram imortais e ao invés de se destruírem estavam destruindo ao próprio solo que viviam. Os Primordiais estavam perdendo uma guerra que não participavam.

O Destino e o Horizonte então interviram e juntos separaram os seus descendentes que tanto causaram conflitos. O Horizonte criou a prisão dos céus, onde os Deuses seriam colocados. O Destino criou a prisão do centro, onde os Titãs estariam enclausurados. Depois de tanto tempo de conflitos os Primordiais se encontravam sozinhos, presos em suas próprias feridas.

Mesmo em suas prisões, entidades superiores ainda podiam projetar seus poderes. Em suas prisões celestes cada Panteão criou seu povo, a humanidade. Deixaram jorrar suas dádivas, seus poderes e seus costumes, assim os Deuses perpetuaram suas crenças e suas ideias. Os Titãs em seus núcleos criaram os monstros e criaturas, separando partes de si mesmos e libertando-os de seus limites.

E assim o mundo se tornou repovoado, com seres culturais e seres caóticos, com humanos e monstros, disputando uma guerra mais antiga que eles.”

Se você leu a parte 2 pode perceber que já aproveitei para incorporar na descrição da criação do universo alguns dos detalhes dos poderes divinos que são dados pelos deuses aos seus Escolhidos. Mesmo a ideia de ponto heroico, como uma dádiva do horizonte, e ponto de destino, como uma cobrança do destino, já se encontram de certo modo colocados aí em cima.

Crie e divirta-se

Coloquei apenas essa descrição da criação do universo e dos seres, escrevi mais coisas sobre o cenário com mais detalhes e características menos genéricas. Aqui estou trazendo a construção que penso ser bem útil para todos que queiram construir um cenário similar, mas com bastante espaço para que você possa dar mais cores e texturas que melhorem seu jogo do seu jeito.

Um exemplo, é que mudei completamente a ideia das Esfinges. Como criaturas meio monstruosas e meio humanas tornei as Esfinges as “Crias dos Primordiais”, ou as “Escolhidas dos Primordiais”. Em termos mais DnDzísticos as Esfinges são os “dragões” são antigas, poderosas e raras. Em regra, tudo que se assimila a dragões nos livros, como o feiticeiro dracônico, no cenário está relacionado as Esfinges.

Concluo por aqui com as partes mais importantes dessa construção toda, as regras, os personagens e o mundo. Não precisa utilizar exatamente a minha construção, dê sua cara e seus detalhes ao mundo. Mesmo que não construir um cenário similar quem sabe minha narrativa de como fui construindo esse mundo não te ajuda a construir um próprio.

E você, já criou cosmologias e divindades próprias? Já se pegou alterando um pouco ideias conhecidas e dando novos detalhes a elas para seu cenário? Se divertiu tanto construindo um mundo que teve que compartilhar a história de criação com outros? Hahaha esse é meu atual estado.

No fim se você já chegou até aqui faça um bom descanso curto ou longo. Finalizo as postagens sobre o LeH mas devo continuar falando sobre adaptar cenários, mesmo que não tão aprofundado como fiz por aqui. Te vejo no próximo andar, na próxima quinzena e no próximo nível.

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