Lendas e Heróis – Construindo uma tragédia épica para D&D 5e – Parte 2: personagens

Bem-vindos de volta a Torre do Destino, essa semana seguimos nossa construção de um cenário heroico, épico e levemente trágico usando Dungeons and Dragons 5ª edição. Eu sou João D. e para seguirmos bem nesse nível irei apresentar pra vocês um pouco do que me empolgou a criar esse cenário, vamos falar de Mythic Odyssey of Theros e como construir personagens que extrapolam o básico do Player’s Handbook entendendo o que surge das mudanças.

Relembrando

Para adentramos nesse nível vamos relembrar um pouco da Parte 1 da construção do Lendas e Heróis(LeH). O conceito principal do cenário está em criar narrativas na antiguidade, na Era dos Heróis, com monstros que assombram as civilizações, Titãs que corrompem o mundo e Deuses que ajudam, ou atrapalham. Referências desse cenário existem aos montes nas mídias, de Odisseia a Hércules passando por Fúria de Titãs não faltam histórias nesse estilo.

Heróis se destacam

Continuando a buildar esse jogo precisamos entender como diferenciar um herói de um cidadão qualquer (nos termos gregos), afinal nossos protagonistas são heróis. Existem algumas formas de fazer isso: em cenário, definindo que ter “nível” é o equivalente a ser herói, assim tornando heróis raros e bem poderosos dentro do mundo quando comparados a exércitos até, ou em sistema, trazendo mais poderes aos heróis que outros personagens.

Eu resolvi usar as duas formas. Eu queria que ser herói fosse algo realmente impactante e único.

A primeira forma parece mais simples, está ligada diretamente a narrativa e é fácil de implementar. Tome cuidado, só a use se estiver confortável com a grande maioria dos NPCs serem muito mais fracos que os jogadores, pois essa é a ideia principal, os heróis são mais poderosos que reis e comandantes. Nada de vendedor super poderoso ou líder da guarda com CR 8. Deixe que os jogadores sejam poderosos e possam usar isso.

Para a segunda eu recomendo usar o mais recente livro lançado pela WotC:  Mythic Odyssey of Theros(MOT). O livro fala de um cenário bastante similar a esse que estamos construindo, mas com um foco específico em Theros, um dos planos do multiverso do Magic: The Gathering. Theros tem a mesma ideia do LeH e as mesmas bases, mas tem deuses, personagens e histórias internas próprias. Eu adoro o plano de Theros (Elspeth rainha). Quando ele surgiu a primeira vez eu estava jogando ativamente Magic, mas nem todos os jogadores de RPG conhecem o plano. Achei mais fácil criar uma versão similar que usasse como base deuses e histórias que os jogadores já conheciam.

Entrando em Theros

No livro de Theros podemos encontrar duas alterações ótimas para a criação de personagens heróis divinos. No capítulo 1, que fala sobre criação de personagens, temos os Supernatural Gifts e no Capítulo 2, que fala sobre os deuses de Theros temos a mecânica de Piety.

Dons

Os dons sobrenaturais são definidos já na construção das fichas de personagens. Dar acesso aos dons é acrescentar um bom nível de poder nas capacidades dos heróis. Vários deles são muito impactantes, diria mesmo que todos são melhores que qualquer feat do livro do jogador. Personagens com dons contam facilmente como um nível acima para cálculo de CR.

Não vou me aprofundar muito nas possibilidades de criação de personagens com dons, mas fique atento que muitos combos se tornam possíveis com eles, tipo um bárbaro totêmico que também é resistente a dano psíquico. Em termos narrativos, todos os dons estão ligados a origem do personagem, fazendo com que os heróis estejam ainda mais intricados no mundo de deuses e monstros.

Devoção

Uma opção para ser acrescentada que impacta mais a evolução dos personagens do que a construção em si é adicionar a mecânica de Piety (usarei Devoção como tradução por achar que se encaixa melhor no contexto). A Devoção de um personagem está vinculada a alguma divindade que rege, protege ou abençoa aquele personagem. Durante o jogo quando o personagem faz ações que agradam aquela divindade ele avança na trilha de Devoção ganhando acesso a habilidades únicas com isso.

Esse é outro método que traz uma diferença para os personagens de LeH em comparação a construção padrão do PHB. Essa é uma mecânica que eu acho imprescindível para ter dentro do jogo, principalmente para incentivar e recompensar jogadores que estão seguindo sua vertente heroica. Como o Theros prevê apenas os deuses do próprio plano, e esses deuses podem se assemelhar a deuses conhecidos, mas não são idênticos de fato, eu resolvi fazer um pequeno acréscimo. Para cada personagem adicionei duas trilhas de devoção que se aproximassem do deus escolhido por eles. Acada nova habilidade recebida eles podem escolher de qual das duas trilhas eles recebem a habilidade.

Confuso? Imagina que algum personagem é um escolhido de Thor. No mundo de Theros existem dois deuses que se assemelham a Thor: Iroas, deus da vitória e Keranos, deus das tempestades. O jogador teria uma trilha de devoção apenas, a de Thor, mas a cada habilidade de devoção ele poderia escolher entre a habilidade que está na trilha do Iroas ou do Keranos. Foi o mais próximo que consegui de simular algum deus fora de Theros sem precisar criar todas as trilhas de deuses de várias culturas.

De volta ao LeH

Por fim algumas coisas podem ser interessantes de pensar. No caso das Raças apenas usei-as mais como regra que como identidade do personagem. Assim, você ser um elfo significa que você é um humano com arquétipos que se assemelham aos dos elfos. Algumas coisas mais impactantes, como asas de um aarakroca eu mantive. Isso ajuda a descrição do personagem e no impacto que ele causa nos outros sem precisar acrescentar uma gama de raças e civilizações dentro do cenário.

Línguas e civilizações

Como as raças não representam aspectos culturais, não existem cidades élficas por exemplo, então as línguas também mudariam. As línguas estariam ligadas as culturas e regiões e não as raças. Assim comum, élfico, anão, dracônico se foram e deram lugar a grego, egípcio, nórdico e persa por exemplo.

Um detalhe, não associei raças com civilizações, então para a escolha das línguas os personagens somaram todas as línguas que teriam inicialmente e depois escolhiam quais seriam elas no mundo de LeH. Como usei apenas 8 civilizações(estarão na próxima postagem) e o PHB prevê 16 línguas dividi o total de línguas dos personagens por 2(arredondando pra cima). Isso gerou situações ótimas de jogo com personagens que não falavam línguas em comum.

Finalizando

Por hoje é isso, não me aprofundei muito no livro de Theros apenas trouxe o que achei relevante para a construção do LeH mas quem sabe posso falar mais sobre alguns planos de MtG.

E você, quais regras de criação de personagens divinos você conhece e utilizaria? Conhece outra possibilidade para a mecânica de Piety (Devoção)? Já passou por problemas com línguas num grupo? Gostou do Mythic Odyssey of Theros? Aproveite o espaço para comentários e compartilhe suas ideias.

No fim se você já chegou até aqui faça um bom descanso curto enquanto pensa na sua trilha de devoção. Próxima semana continuarei falando do Lendas e Heróis, dessa vez trazendo um pouco como uni as regras que já falei ao cenário em si. Próxima semana é sobre cultura do cenário, monstros e NPCs, finalizando o LeH. Te vejo no próximo nível.

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