Krewes em Geist: Os Devoradores de Pecado

Olá leitoras e leitores!

Meu nome é Rosamante e nesta postagem continuaremos falando sobre a segunda edição Geist: os Devoradores de Pecado. Neste texto, eu irei abordar um tema extremamente importante nesta segunda edição: comunidade.

Afinal de contas, o impulso por formar comunidades entre pessoas é um instinto primitivo e comum na humanidade, e considerando que sobrevivência e aceitação são necessidades vitais tanto em vida quanto em morte. Eu abordei como é existir como um fantasma no meu texto anterior (que você pode ler clicando aqui), caso vocês queiram saber mais sobre porque sobrevivência não deixa de ser uma necessidade vital para os mortos.

Nós Devoradores de Pecado, naturalmente, sentimos as mesmas necessidades, e consequentemente, formamos os mesmos grupos. Porém, da mesma forma que nós somos criaturas de natureza dupla, mortos metafisicamente, mas vivos em qualquer outra maneira, nossas comunidades são igualmente dúplices. Afinal de contas, nós fazemos parte de dois povos: os vivos e os mortos, e nada seria mais justo senão contemplar nossos dois mundos nos grupos que formamos.

É também em razão de termos uma dupla natureza que nós Devoradores de Pecado somos capazes de compreender e sentir empatia pelos dilemas enfrentados tanto pelos vivos quanto pelos mortos; nossa capacidade de comunicação com ambos estes povos e nossa vivência das dificuldades enfrentadas por ambos tende a nos levar a uma posição de liderança nestes grupos.

Entretanto, eu acho importante explicar que assumir este papel de liderança nestas comunidades é mais que uma simples consequência natural das nossas habilidades, se fosse apenas por isso, haveriam muitos de nós que seriam relutantes em assumir estas posições, mas a realidade mostra que mesmo os mais egoístas, sádicos e cruéis entre os Devoradores de Pecado tendem a se tornar líderes de comunidades compostas por pessoas vivas e mortas.

O que explica isso é fato de que liderar estas comunidades é uma oportunidade para nós, mais especificamente, é uma oportunidade de modificar a forma como os vivos e os mortos se relacionam, de propagar uma mensagem e de sermos ouvidos, e mais importante ainda, é uma oportunidade de mudar os mundos dos vivos e dos mortos.

Nós somos agitadores por definição, cada um de nós fez a Barganha porque se recusou a deixar nosso negócios inacabados para trás, nós literalmente olhamos na cara da morte e a rejeitamos para voltar a viver. Considerando isso, é apenas natural que nós também nos recusemos a deixar o mundo do mesmo jeito que nós conhecemos antes de termos poderes sobrenaturais fantasmagóricos.

Nós temos poderes sobrenaturais, nós temos uma comunidade, e temos em nós uma essência de inquietude e propósito que a maioria das pessoas desconhece, por que não usá-los para mudar o mundo?

É daí que surgem os boatos populares de que Devoradores de Pecado lideram cultos mortais ou cultos de morte, o que tecnicamente é verdade, nós nos organizamos em grupos de pessoas vivas e pessoas mortas que acreditam numa mesma Doutrina e trabalham para atingir um objetivo em comum.

Porém, o termo “culto de morte” carrega um significado pejorativo, pois geralmente as pessoas que fazem uso deste termo o utilizam para descrever cultos destrutivos que matam ou machucam pessoas em razão da sua fé, o que nem de longe reflete a realidade do que as comunidades que lideramos faz.

Para nos afastar deste estereótipo criado por pessoas que não compreendem o que de fato fazemos, nós adotamos diversos nomes ao longo da nossa história fragmentada para descrever nossas comunidades, dependendo da época em que existimos e da cultura que estávamos inseridos. No entanto, existe um termo específico que se tornou bastante popular entre comunidades lideradas por Devoradores de Pecado ao redor do mundo.

Este termo é Krewe, uma palavra surgida no contexto do carnaval de Nova Orleans para descrever os blocos que participavam dos desfiles nas ruas. Com a modernização da comunicação mundial através da internet, tornando a Rede Crepuscular que utilizamos para nos comunicar com outros Devoradores de Pecado mais sofisticada e mais ampla, muitos de nós passamos a nos deparar com essa palavra específica e aos poucos, percebemos que era mais fácil nos referir a nossas comunidades através deste termo para vencer barreiras linguísticas e culturais.

Contudo, é importante notar que a utilização deste termo pode parecer problemática para alguns de nós, especialmente para aqueles não falantes da língua inglesa que consideram a utilização do termo Krewe como uma demonstração de um projeto de colonização por meio da cultura encabeçado por países desenvolvidos, sobretudo os Estados Unidos, e não há como negar que há um certo mérito neste argumento. Por isso, alguns de nós usamos termos que evoquem a mesma ideia de pessoas juntas no carnaval, no caso Blocos, ou mesmo Tripulação, uma tradução literal do termo “Crew” que remete ao termo “Krewe”.

Feita esta consideração, eu utilizarei ao longo deste meu relato o termo Krewe para descrever as comunidades de pessoas vivas e de pessoas mortas que lideramos, e espero que possa convencer você da dignidade e importância dos nossos objetivos ao longo deste texto.

Os Arquétipos

Nossas Krewes são bastante diversas, podendo assumir formas extremamente variadas. Elas podem ser pequenas e intimistas como uma mesa de RPG em que os jogadores são vivos e mortos ou uma banda de rock que se encontra pra ensaiar diariamente. Da mesma forma, Krewes podem crescer e recrutar dezenas de pessoas vivas e mortas para efetivar sua doutrina no mundo numa escala muito maior e mais organizada, como um ambicioso projeto de pesquisa na universidade, ou mesmo uma religião nova não alinhada com nenhuma seita religiosa já estabelecida.

Entretanto, apesar de assumirem diversas formas de Doutrinas diferentes, todas as Krewes possuem pontos de convergência como serem formadas por pessoas vivas, mortas e Devoradores de Pecado; seguirem uma Doutrina que ensina algo a respeito do Submundo e da Morte e conclama a Krewe a tomar alguma atitude a respeito desses ensinamentos, e, recaírem em um dos cinco Arquétipos.

Neste tópico, focaremos em Arquétipos os modelos-gerais de crenças nos quais irão se encaixar as Doutrinas de cada Krewe. Existem cinco Arquétipo nos quais podemos encaixar as Doutrinas de uma Krewe: Fúrias, Carpideiras, Necropolitanos, Peregrinos e Funerários (ou Papa-Defuntos), e eu irei descrever brevemente o que cada um desses Arquétipos sinifica.

Começando pelas Fúrias, este Arquétipo abriga todas as Krewes cuja Doutrina descreve objetivos e crenças focadas em resolver injustiças. Não estamos falando aqui de vingança, qualquer um pode fazer isso, e muito raramente o ato de se vingar resolve algum problema. Muito pelo contrário, vingança geralmente cria outros problemas, perpetuando um ciclo de brutalidade, violência e injustiças.

Fúrias não estão interessadas na pura vingança pessoal, mas sim na correção das injustiças que criam a necessidade de vingança em primeiro lugar. Uma Fúria que tem o seu telefone roubado não iria simplesmente atrás da pessoa que a roubou para fazê-la desejar seus caminhos que nunca houvesse se cruzado.

Não, uma Fúria iria atrás desta pessoa para entender o que aconteceu na vida dela para que ela sentisse que roubar celulares era uma alternativa viável ou justificável, e compreendendo isso, a Fúria provavelmente convocaria sua Krewe para mudar a vida daquela pessoa e do contexto social na qual ela está inserida. Mas claro, Fúrias não são trouxas e se a pessoa que a roubou não estivesse disposta a conversar, a Fúria tomaria o celular de volta, chutaria bundas e faria a pessoa que a roubou conversar, querendo ou não.

E essa é toda a ideia de Krewes do arquétipo das Fúrias, identificar injustiças e corrigi-las, quebrando o ciclo de violência que gera cada dia mais fantasmas no mundo. Às vezes esta correção pode envolver retribuição, mas na maioria das vezes é um pouco mais difícil que isso. Quais injustiças essas Krewes procuram resolver e de quais formas é o objeto da Doutrina individual de cada uma delas.

Quando estão no seu melhor, as Krewes de Fúrias são as maiores forças modificadoras entre Devoradores de Pecado, preferindo ação direta ao invés de introspecção e mudanças materiais do que metafísicas. Uma Krewe de Fúrias bem intencionadas, com Doutrinas benéficas e um grande número de celebrantes pode mudar qualquer sociedade para melhor.

Quando estão no seu pior, as Krewes de Fúrias tendem a ser extremamente destrutivas e voláteis, contribuindo para a mesma espiral de violência que juraram destruir. Não há espaço para convivência com Krewes de Fúrias corruptas, você é amigou ou inimigo delas.

Krewes das Carpideiras por sua vez, dedicam seus esforços a resgatar das garras do Submundo, a memória, o legado e o trabalho de pessoas que foram perdidos no decorrer do tempo. Livros de autores famosos que nunca foram publicados, novas músicas de artistas que apesar de mortos continuam a compor, tecnologias com potencial enorme que nunca foram testadas pela morte prematura de seus idealizadores, qualquer potencial ou legado clamado pela morte e esquecido pelo mundo é o objeto de resgate de Krewes Carpideiras.

Estas Krewes descem até as profundezas mais escuras do Submundo, investigam cada rua tortuosa e labiríntica das cidades ribeiras e falam com fantasmas anciões que morreram séculos atrás para recuperar conhecimentos e tesouros que foram destruídos ou esquecidos pelo tempo.

É importante frisar que esta Krewes no entanto, não são meras colecionadoras mesquinhas. Uma vez que eles conseguem obter preciosidades e obras inestimáveis dos mortos, elas fazem questão de encontrar uma forma de torná-la relevante e conhecida, se certificando que a memória do seu criador permaneça viva através do seu legado.

Estas Krewes se dedicam com tanto afinco a seu objetivo, na esperança de construir um mundo em que a morte não tenha o poder de apagar a existência de uma pessoa ou sua contribuição para o mundo. Carpideiras desejam construir um mundo em que ninguém, vivo ou morto, tenha que se sentir sozinho ou perdido, proporcionando aos vivos a oportunidade de aprender e de saber sobre os mortos e seus trabalhos imortais, e, aos mortos, a chance de serem lembrados e de desfrutarem dos frutos de seu trabalho póstumamente.

No seu melhor, Krewes Carpiderias impedem o Submundo de consumir a existência dos mortos resgatando os seus trabalhos e através deles, mantendo suas memórias vivas e imortalizando seu Legado, ao mesmo tempo que proporcionam conhecimento e inspiração aos vivos, garantindo a eles o acesso a conhecimentos e objetos que eles jamais poderiam ter de outra forma.

No seu pior, estas Krewes Carpideiras corruptas tornam-se colecionadoras mesquinhas e mercenárias, que enxergam os conhecimentos que resgatam como tesouro ou propriedade, fetichizando-os para o seu próprio deleite como se fossem artigos de luxo, ao invés de disponibilizá-los para a comunidade.

As Krewes de Necropolitanos, também desejam um mundo em que pessoa alguma, viva ou morta, tenha que se sentir sozinha, mas a forma que eles pretendem construir este mundo é muito diferente do que é proposto pelas Carpideiras.

Para Krewes Necropolitanas, a morte assusta os vivos porque ela supostamente termina tudo que há de mais alegre, prazeroso e gratificante sobre a vida. Ao mesmo tempo, a morte assusta os próprios mortos porque os prende numa existência miserável, tirando deles a capacidade de interagir com o mundo. Os Necropolitanos reconhecem esses temores e trabalham para desconstruí-los, fazendo com que os vivos e os mortos se conheçam e interajam entre si. Isso quer dizer que o principal foco de Krewes Necropolitanas é criar redes de contato imensas e complexas entre pessoas vivas e pessoas mortas, se certificando que estes dois povos interajam da forma mais harmônica e produtiva possível.

Tendo isso em mente, os Necropolitanos são especialistas em organizar contextos e espaços seguros em que os fantasmas e os vivos conseguem ter contato de uma forma que confortável e prazerosa, como festas, bailes, grupos de apoio, terapias coletivas, retiros espirituais, palestras, e assim por diante.

O fato deles organizarem estes espaços e eventos onde as interações entre os vivos e os mortos podem se dar de uma forma mais agradável e produtiva, frequentemente faz com que eles sejam rotulados como borboletas sociais ou como fanfarrões que não se levam a sério. No entanto, por mais criticados que seus métodos sejam, é inegável que são eficazes, na medida em que Krewes Necropolitanas geralmente são muito bem relacionadas com fantasmas, mortais e com outras Krewes de Devoradores de Pecado, cultivando relações de aliança e camaradagem com diversas criaturas sobrenaturais e grupos sociais, assim como conhecendo intimamente estes contatos.

Um mundo em que as pessoas vivas e as pessoas mortas jamais se sentirão solitárias e no qual a existência em morte pode ser tão prazerosa quanto a existência em vida, só pode ser construído por uma base de empatia, estima e respeito, e estas bases só podem ser construídas num mundo em que a existência dos mortos não é um tabu, em que a sua existência é reconhecida e respeitada pelos vivos, e no qual os fantasmas são vistos como iguais. Necropolitanos trabalham para estabelecer reações amigáveis e afetivas entre os vivos e os mortos para construir esse mundo.

No seu melhor, Krewes Necropolitanas são comunidades que promovem a compreensão e a empatia, fazendo com que vivos e mortos vejam uns aos outros como iguais, criando vastas redes de contato para proteção mútua.

No seu pior, são comunidades ingênuas que insistem em tentar compreender e acolher alguém que claramente possui interesse em abusar e manipular a comunidade. Estas Krewes Necropolitanas corruptas são coniventes com o comportamento tóxico de seus integrantes, insistindo numa filosofia de perdão e compreensão absolutos, mesmo que signifique o prejuízo do grupo.

As Krewes de Peregrinos possuem umas das visões mais peculiares a respeito da morte e do Submundo. Para eles, o fato da existência como um fantasma ser tão deprimente e miserável é resultado direto da tendência humana de se apegar obsessivamente a determinados aspectos da sua vida, e a mera ideia de perder ou desapegar-se de suas obsessões provoca ansiedade, medo, violência e egoísmo. O Submundo é o resultado direto desses sentimentos, tornando-se essa monstruosidade imensa, deprimente e perigosa após milênios consumindo o sofrimento humano.

Para os Peregrinos, se o Submundo é o reflexo do sofrimento humano, ele não é uma ameaça, mas sim um desafio. Ao contrário da maioria dos outros Arquétipos, os Peregrinos não olham para o Submundo de uma ótica completamente antagônica, vislumbrando nele uma ferramenta para fazer com que os mortos compreendam o fim que os aguarda se eles continuarem apegando-se desesperadamente ás suas âncoras, ao invés de simplesmente libertar-se.

Com isso em mente, os Peregrinos estão entre os tipos de Krewe que mais exploram o Submundo, mapeando-o e identificando temas e símbolos representados em suas paredes cthônicas. Eles aplicam este conhecimento criando rotas especiais de peregrinação, jornadas customizadas para cada fantasma para que ele confronte uma manifestação material de seus negócios inacabados e, com a supervisão e proteção dos Peregrinos, prospere sobre eles, compreendendo que o Submundo e os seus negócios inacabados são meros obstáculos em seu caminho, e que ele pode ser livre deles.

Algumas Krewes de Peregrinos aplicam a mesma metodologia aos seus celebrantes vivos, preparando-os em sua doutrina da mesma forma que eles preparam os mortos, para que o mortal seja capaz de interpretar o Submundo como o resultado de seu apego ao mundo material e suas obsessões. Após esta preparação, os Peregrinos guiam seus celebrantes mortais através das Grandes Profundezas, ilustrando para o vivo, o resultado de seu sofrimento e medo em vida, na esperança de que esta lição faça com que o seu celebrante vivo não deixe negócios inacabados ao morrer, e sequer deixe um fantasma para trás, seguindo adiante para o que quer que seja o seu destino final.

Os Peregrinos em sua maioria não desejam a destruição absoluta do Submundo. Ao invés disso, eles trabalham para moldar o Submundo, transformando-o num grande palco seguro, racional e prestativo, que ao invés de consumir e devorar os mortos, os auxilie na tarefa de desapegarem-se de suas Âncoras e seguirem adiante.

No seu melhor, Krewes de Peregrinos ensinam fantasmas a tomarem controle de suas próprias condições, ao invés de deixar o Submundo ou outros Devoradores de Pecado o fazerem. Estas Krewes guiam de uma forma segura e pedagógica seus vivos e seus mortos através do Submundo, ensinando-os a não temê-lo e como conquistá-lo.

No seu pior, Krewes de Peregrinos corruptas não preparam adequadamente os vivos e mortos que pretendem guiar pelo Submundo, expondo-os a situações que irão traumatizá-los gratuitamente sem que eles consigam extrair qualquer ensinamento da situação. Algumas destas Krewes também tornam-se exageradamente obcecadas com o Submundo, passando a enxergar seu estado atual com uma naturalidade preocupante.

Por fim, as Krewes de Funerários ou Papa-Defuntos, da mesma forma que os Peregrinos, sabem que o Submundo é construído a partir de sofrimento e dor, porém, para eles a fonte desse sofrimento é encontrada no próprio medo da morte, o que significa que modificar o temor que as pessoas sentem de morrer é a chave para mudar ou acabar com o Submundo.

As pessoas temem morrer, evitando pensar a respeito da própria morte até que ela acontece de todo jeito. Essa pessoa deixa um fantasma para trás, que ao perder sua Âncora ficará preso no Submundo, cedendo sua Essência para as Grandes Profundezas e sua Agenda misteriosa. Mas o que aconteceria se esta mesma pessoa não tivesse medo de morrer e soubesse o que a espera após a morte?

Os Funerários acreditam que se as pessoas soubessem como a morte funciona, não apenas elas teriam como planejar-se para isso, tomando as devidas precauções para que não deixassem negócios inacabados, ou pelo menos, teriam noção das regras que precisam seguir para sobreviver caso termine deixando um fantasma de qualquer forma.

Tendo este objetivo em mente, os Funerários adentram na própria mitologia sobre a Morte, estudando e pesquisando a cultura dos vivos e dos mortos para extrair qualquer mito, doutrina, lenda e histórias sobre a morte, e usando estas histórias para tentar transmitir aos vivos, o que realmente acontece quando se morre. Krewes de Funerários manipulam o mito e a cultura de uma comunidade a respeito da morte, mudando a forma dos vivos pensarem a respeito da morte e consequentemente, fornecendo-os as informações necessárias para planejarem a sua própria morte da forma mais segura possível

Por mais abstrato que seu objetivo pareça ser, Krewes de Funerários são bastante práticas, frequentemente buscando por formas de aumentar a propagação de suas mensagens, e adaptando a verdade sobre a morte para diversas culturas, crenças e mitologias. O mundo que Krewes de Funerários pretendem construir é um mundo em que as pessoas são cientes do que as aguarda após a morte, e o Submundo não será mais capaz de se beneficiar da confusão e desespero dos fantasmas, modificando toda a metafísica de como a morte funciona.

Os Arquétipos Inimigos

Agora que você sabe identificar quais são os arquétipos confiáveis de Devoradores de Pecado, eu preciso te ensinar a identificar também os arquétipos de Vinculados que você deve evitar a todo custo.

Repare, leitor, que eu não utilizei o termo “Devorador de Pecados” para me referir às Krewes formadas por estes Vinculados. A razão para isso é que, embora todos nós tenhamos uma Barganha com um Geist e portanto, sejamos considerados Vinculados, alguns de nós simplesmente decidem lavar as mãos para os mortos e para o Submundo, interpretando a Barganha que fizeram não como uma segunda chance de vir ao mundo e se fazer melhor, mas sim como um privilégio que lhes era devido pelo universo.

Estes Vinculados não são chamados de Devoradores de Pecado porque eles não se importam com os mortos. Na verdade, a maioria deles enxerga os fantasmas como ferramentas ou servos para seus caprichos ou estudos, preferndo abusar deles para quaisquer que sejam suas agendas ao invés de ajudá-los, o que por definição faz destes Vinculados, nossos inimigos.

Assim como nós, eles se organizam em Krewes, mas ao contrário de nossas Krewes que tem prioridades bem definidas em auxiliar os mortos e peitar o Submundo, as Krewes formadas por estes Vinculados tem preocupação somente com seus próprios desejos e anseios. Muitas destas Krewes possuem grandes chances de tender para o abuso de seus celebrantes, bem como também tendem a ser coniventes com o Submundo e seus agentes. Essas tendências egoístas e abusivas se expressam nas Doutrinas destas Krewes, que assim como as nossas, podem ser encaixadas em diversos Arquétipos.

Os Elísios são Krewes lideradas por Vinculados que acreditam ter direito a uma vida após a morte privilegiada. Para eles a morte e o Submundo são realidades que afetam apenas as “pessoas humildes”, mas que não se aplicam eles, e o fato que ao morrer estes Vinculados fizeram uma Barganha para voltar à vida apenas reforça essa ideia de privilégio em suas cabeças.

Vinculados Elísios não encaram a Barganha que fizeram com seus Geists como um acordo de mútuo respeito e empatia, a maioria deles deseja estar superior ao seu Geist, tratando-o como um servo. Por esta razão, muitos Vinculados Elísios substituem a sua Sinergia com seu Geist (a força do seu vínculo com o Geist, desenvolvida através de empatia, respeito e compreensão mútua) por Tirania, forçando o seu Geist a beber dos Rios do Submundo contra a vontade dele para enfraquecê-lo ao ponto de que ele seja incapaz de resistir, como um ganso tendo seu fígado explodido para fazer foies gras.

Os Catadores de Ossos são Krewes lideradas por Vinculados mercenários dispostos a negociar qualquer coisa para qualquer um, desde que seja uma troca lucrativa. Vinculados de Krewes deste arquétipo negociam conhecimento oculto com abusadores de fantasmas como Cerimônias para cultos de Necromantes, Gastronomias para Devoradores dos Mortos, ou até mesmo informações acerca de Âncoras de fantasmas para Ceifadores.

Eles apenas se importam em ganhar e lucrar, utilizando a sua natureza de criatura limiar para maximizar estes lucros. Eles podem até fingir ser úteis ou te ajudarem ocasionalmente, mas irão entregar todas as informações que tiverem a seu respeito para qualquer um que os pague para isso.

Os Tanatologistas são Krewes formadas por Vinculados que se encontram num estado patológico de negação, e se recusam a aceitar que morreram, voltaram dos mortos e que fizeram uma Barganha com um Geist, preferindo agarrar-se agressivamente ao pensamento lógico e científico para explicar a existência dos mortos, do Submundo e do seu próprio Geist.

A princípio, podemos até sentir alguma pena deles, afinal, uma pessoa que prefere acreditar que está constantemente passando por um colapso nervoso ou desenvolveu esquizofrenia ao invés de aceitar que fez uma Barganha com um pequeno Deus da Morte, me parece preocupante mas inofensiva. No entanto, o fato de que eles se recusam a abraçar genuinamente a sua nova vida os torna incapazes de sentir empatia de verdade pelos mortos, frequentemente os vendo como meros objetos de estudo, e quando essa tendência a desumanizar os fantasmas se combina com a obsessão dos Tanatologistas em compreender a experiência de ser Vinculado cientificamente, eles se tornam extremamente perigosos e precisam ser impedidos.

Por fim, os Guardiões dos Portões são Krewes lideradas por Vinculados que pervertem completamente o que significa ser um Devorador de Pecados. Estes Vinculados passam a ver a existência do Submundo como algo completamente natural, tornando-se uma espécie colaboradores com as Grandes Profundezas, vestindo a carapuça de defensores do status quo.

A maioria destas Krewes começa suas atividades sutilmente, espalhando discursos perturbadoramente similares ao que um Ceifador diria, argumentando que o universo é uma máquina e que o Submundo é parte do sistema, e que pelo bem comum não deve ser modificado nem destruído. Obviamente, essa conversa não cola para a grande maioria de nós, e quando isso acontece, eles tendem a partir para táticas de sabotagem ou conflito aberto com nossas Krewes.

Catabase

Estamos chegando ao final do meu relato leitor, mas antes de ir-me gostaria de terminar esse relato com um pouco de esperança para você.

Você deve estar se perguntando o porque que nós darmos tanta importância a Krewes e Doutrinas. Claro, como eu já expliquei, é importante ter uma comunidade de pessoas que gostam e respeitam você, e ter muitas pessoas nesta comunidade lhe permite fazer projetos maiores, mas, será que o trabalho de administrar tudo isso vale tanto a pena assim? Não seria mais fácl simplesmente aproveitar ao máximo nossas segundas chances e ajudar os fantasmas que cruzassem nosso caminho?

E a resposta meu caro leitor é que sim, seria mais fácil, mas quando nós resolvêssemos nosso Fardo e a Relembrança do nosso Geist, e pudéssemos os dois seguirmos em frente, quem cuidaria dos mortos para nós?

Muitos Devoradores de Pecado decidem realmente resolver seus negócios inacabados, ajudar o máximo de fantasmas que puder no caminho, e ter alguma espécie de descanso ao resolver seus Fardos. Porém, muitos de nós não desejamos isso, muitos Devoradores de Pecado escolhem não deixar o mundo para trás ao resolver seus Fardos porque sabem que embora eles pudessem partir e descansar em paz, há um número incontável de fantasmas que não poderá fazer o mesmo.

Esses Devoradores de Pecado que decidem ficar precisam de suas Krewes, não apenas para educar seus celebrantes em sua Doutrina par que eles possam espalhar essa mensagem pelo mundo, mas também porque a medida que uma Krewe desenvolve a sua doutrina e seus rituais, e a sua Esoteria vai se tornando mais forte, esta Krewe começa a criar uma mudança nas próprias metafísicas da morte.

Lembra que eu falei que cada um dos Arquétipos de Krewes de Devoradores de Pecado deseja viver num mundo em que os vivos os mortos existam de uma forma mais justas e confortáveis? Pois bem, e se eu te dissesse que isso não é só um objetivo filosófico e utópico? Se eu te dissesse que a medida que uma Krewe desenvolve Esoteria e aplica sua Doutrina no mundo, o mundo começa a reagir a essa Doutrina?

Isso é um fenômeno que você pode chamar de Catabase, meu caro leitor, quando a mitologia de uma Krewe começa a se impor no Submundo e a alterar fundamentalmente a metafísica da Morte, confrontando diretamente o Submundo e seus Deuses Cthônicos. Isso é possível, e é o que muitos de nós desejamos.

Não se empolgue tanto, querido leitor, por mais que seja uma possibilidade real, uma Catabase é um fenômeno muito difícil de acontecer, não se sabe de nenhuma Krewe que conseguiu ser bem-sucedida numa Catabase até hoje. Rolam inclusive, alguns boatos de que cada um dos Domínios Mortos no Submundo são os restos mortais das mitologias dessas Krewes que morreram ao desafiar os Deuses Cthônicos.

Tentar mudar o mundo é difícil e possui uma grande chance de terminar em morte, ruína e tragédia, mas como eu sempre digo nestes textos que tenho publicado, Devoradores de Pecado podem mudar o mundo, e ninguém mais está tão disposto a olhar fundo no olho do oblívio e cuspir nele quanto nós.

Longos dias e belas noites!

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