Isekai e sua relação com o RPG

Olá pessoas!

Aqui é o Tio Lipe e bem-vindos novamente ao Santuário do Mestre. Eu conheço e assisto animes desde a minha infância, mas foi somente em 2015 que resolvi assisti-los com maior frequência, acompanhando sempre que possível aqueles que estão sendo lançados nas temporadas. Foi assim que acabei conhecendo Overlord, uma adaptação da light novel de mesmo nome que me surpreendeu e até hoje sou fã. A fim de descobrir mais sobre a obra, acabei me deparando com outras do mesmo gênero e logo percebi uma tendência em minhas leituras: os Isekai.

Mas afinal, o que é Isekai e como ele se relaciona com o RPG?

O que é Isekai?

Isekai (tradução: “outro mundo”) é um subgênero usado por diversas mídias japonesas (romances, mangás, animes e jogos) que gira em torno de pessoas normais do nosso mundo sendo transportadas de alguma forma para um universo paralelo, podendo ou não haver uma maneira delas retornarem. Trata-se de um subgênero mais antigo do que se imagina, tendo nascido na literatura clássica com obras como Alice no País das Maravilhas (1865), O Mágico de Oz (1900), Peter Pan (1902) e As Crônicas de Narnia (1950). No Japão, as primeiras obras Isekai que receberam maior destaque datam da década de 1990, sendo algumas delas a light novel Juuni Kokuki (“Os Doze Reinos”, 1991) e o mangá Fushigi Yuugi (“Jogo Misterioso”, 1992). Contudo, as mais conhecidas aqui no Brasil sem dúvida foram Tenkuu no Escaflowne (“A Visão de Escaflowne”, 1994), El-Hazard (1995) e Magic Knight Rayearth (“Guerreiras Mágicas de Rayearth”, 1993), sendo esta última considerada um dos pilares do subgênero.

O Isekai teve uma desaquecida no final da mesma década e praticamente desapareceu ao longo dos anos 2000, mas recebeu uma sobrevida com o lançamento do filme A Viagem de Chihiro (2001). Tendo ganho o Oscar de melhor animação em 2003, o filme ficou conhecido no mundo inteiro, sendo um marco na indústria e ajudou a solidificar mundialmente a competência e qualidade do estúdio Ghibli. Na mesma época, também foram lançadas as franquias Digimon (1999) e .hack (2002), responsáveis por estabelecer o conceito de “mundo virtual” em obras deste subgênero, algo que influenciaria aquela que seria a mais famosa e influente delas: Sword Art Online (SAO).

Publicada originalmente entre 2002 e 2008 como uma webnovel (romances lançados online e gratuitamente), e posteriormente em 2009, no formato de light novel, Sword Art Online é um ponto fora da curva em todos os sentidos. O seu sucesso e influência foi tamanha que a partir de 2012, ano do lançamento da sua primeira adaptação para anime, houve uma explosão de obras Isekai, algo que vem ocorrendo até hoje. Eu poderia ficar aqui falando da importância de SAO para as mais diversas mídias, dentro e fora do Japão, mas este não é o foco da postagem. Contudo, não posso deixar de citar que meu amigo Leishmaniose da coluna Lugar Nenhum fez uma adaptação da obra para D&D 5ª Edição.

Hoje, o mercado está saturado de obras Isekai com os mais diversos gêneros e histórias, sendo algumas das mais famosas e influentes GATE (2010), Log Horizon (2011), Overlord (2012), No Game No Life (2012), World Trigger (2013), Tate no Yuusha no Nariagari (2013), KonoSuba (2013), Re:Zero (2014), e Tensei Shitara Slime Datta Ken (2014). A maioria destas obras possui uma origem similar a SAO, tendo sido publicadas inicialmente no formato de webnovel e posteriormente em light novel e mangá, adquirindo reconhecimento e se tornando verdadeiros sucessos com suas adaptações para anime.

Finalmente, o subgênero ainda foi responsável pela criação de outro subgênero: o Isekai reverso. Nele, as protagonistas não saem da Terra, mas sim de outros mundos, planos e até mesmo linhas temporais para ela. Entre algumas das obras mais famosas deste “subgênero spin-off” estão Gash Bell (2001), To Love-Ru (2006), Hataraku Maou-sama (2011), Kobayashi-san Chi no Maid Dragon (2013), Re:Creators (2017), e toda a franquia Fate (2004).

guerreiras mágicas de rayearth

Características de um Isekai

A principal premissa das obras Isekai é o fator “visitante de outro mundo”. As protagonistas sempre serão pessoas de fora do mundo aonde se passa a história, geralmente não tendo qualquer conhecimento prévio sobre ele, podendo estar situado no mesmo universo, em outro plano dimensional ou ser uma realidade alternativa. Existe uma tendência de sua ambientação ser de fantasia medieval, similar a encontrada em diversos games, trazendo certa familiaridade e empolgação para as protagonistas mais otaku e gamers, mas há suas exceções. Além disso, o nível tecnológico pode variar bastante num mesmo mundo, com direito a naves espaciais e mechas convivendo com monstros e castelos medievais construídos no meio de um lago de cristal.

A forma como as protagonistas chegam a este novo mundo varia imensamente. Elas podem estar fazendo uma excursão escolar e “puff, olá outro mundo”, ou podem estar fazendo compras na quitanda da esquina e ao sair “novo mundo estranho, aqui vou eu”. Elas podem ter sido invocadas através de um ritual para trazer os heróis que salvarão a humanidade da destruição, ou ter sido eleitas pelos deuses a fim de cumprir com um dever sagrado. Elas podem estar jogando seu jogo preferido e, do nada, adeus botão de log off. Ou elas podem simplesmente ter morrido no seu mundo original, surgindo ou reencarnando como um habitante daquele mundo. Mesmo as situações de morte costumam variar bastante, desde ser atropelado, assassinado, afogado devido um naufrágio, esmagado por uma prateleira de livros, por exaustão após trabalhar excessivamente ou de um ataque cardíaco achando que ia ser atropelado por um trator que está indo na sua direção a 10 km/h após você salvar uma pessoa do “iminente atropelamento” e que nem estava destinada a morrer naquela hora.

Ao chegarem no novo mundo, as protagonistas geralmente recebem poderes únicos, sendo uma forma de se destacarem das demais pessoas ou simplesmente serem mais poderosas que todos. Muitas vezes serão os poderes delas que definirão o tipo de história que está sendo contada, girando em torno de suas capacidades únicas. Contudo, há vezes em que estes poderes são mais pegadinhas que de fato coisas boas, como a capacidade de reviver a partir de um determinado ponto caso tenha sido morto (não importa quão cruelmente esta morte tenha sido), ou simplesmente não existem, cabendo a protagonista a se fortalecer como qualquer pessoa daquele mundo e/ou apenas sobreviver. Em outras ocasiões, as protagonistas já serão incrivelmente poderosas logo de início, onde o foco da história estará mais nas suas relações sociais que de fato na sua força. Em algumas obras, a protagonista é apenas inteligente, devido ter sido educada na Terra no século 21, promovendo transformações culturais em diversas áreas usando do seu conhecimento.

Desta forma, a “força” das protagonistas definirão a sua posição naquele mundo e como ele interage com ele. Algumas nascerão em berços nobres, outras serão eleitas heroínas de um reino ou de todo o mundo, outras serão invocadas para propósitos nefastos, outras apenas surgirão no meio do nada e começarão a caçar monstros, “evoluindo” e vivendo as suas novas vidas como aventureiras. A maioria das protagonistas buscará uma forma de retornar para a Terra, mas muitas desejarão ficar neste novo mundo, independentemente do motivo, mas principalmente por acreditarem que não há nada de importante na vida que levavam antes. E, com todas estas variáveis, diversas histórias Isekai vêm sendo contadas.

 

kirito e asuna

E o RPG?

Inspirados pelos livros clássicos e mais recentemente, pelas próprias obras japonesas, o subgênero também pode ser encontrado em vários RPGs, seja em maior ou menor grau. Indo para o passado, um dos mais famigerados cenários Isekai é Ravenloft, cuja premissa inicial era de que as personagens eram levadas para o plano sem saber, ficando presas lá e buscando uma forma de retornar. Outro cenário no mesmo estilo é GURPS Banestorm, sendo uma atualização para a quarta edição do antigo GURPS Fantasy e seus suplementos. O Banestorm é uma tempestade mágica que literalmente “pega” pessoas e até vilas inteiras de diversos mundos, inclusive a Terra, e as colocam em Yrth, o mundo do jogo. Desta forma, Yrth possui um emaranhado de culturas e níveis tecnológicos, todos influenciados pelos seus “novos e inesperados moradores”, permitindo a criação de todo tipo de campanhas, dependendo da região do mundo em que as personagens estão.

Entre os jogos mais recentes, cito o famoso The Strange. Criado pelo renomado Monte Cook e lançado aqui pela editora New Order, trata-se de um jogo que possui algumas características do subgênero, onde as personagens podem viajar entre planos dimensionais com versões alternativas do nosso mundo ou outros completamente diferentes, vivendo todo tipo de aventuras e mistérios enquanto estão neles. Com uma proposta ligeiramente similar, há também o Dreamraiders, da Nosolorol, em que as personagens entram no mundo dos sonhos a fim de explorar o plano onírico e evitar que coisas terríveis ocorram nele, impedindo assim que o inconsciente coletivo da humanidade afete e transforme a realidade. Ainda seguindo a proposta de viagens entre planos, há também o antigo e igualmente famoso Planescape, que envolvia quase todos os demais cenários da TSR e uma série de outros planos. Saiba mais sobre Ravenloft, Planescape e outros cenários de D&D nesta postagem-guia escrita por Leishmaniose.

Um jogo Isekai que resenhei há pouco tempo é o The Magical Land of Yeld, possuindo diversas referências em literaturas antigas e atuais, bem como a games japoneses. Outro que promete sair ainda este ano é Virtual Hearts, onde os jogadores controlam duas personagens diferentes: uma versão sua no mundo real e outra no mundo virtual no melhor estilo Accel World (2009), obra do mesmo autor que Sword Art Online. Existe também um RPG oficial lançado apenas no Japão baseado na light novel de Log Horizon, apresentando todos os elementos de MMORPG mostrado na série.

Por fim e como um extra, cito Changeling Os Perdidos, publicado pela White Wolf lançado em português pela Devir. Nele, as personagens se tornam as criaturas sobrenaturais após serem sequestradas pelas fadas verdadeiras e transformadas para os mais diversos fins, fugindo de seu cativeiro de alguma forma e retornando para o mundo, devendo encontrar uma nova forma de viverem após o trauma. Em Changeling, o Isekai está mais presente no seu background que no jogo em si, sendo mais correto afirmar que se trata de um Isekai reverso.

 

log horizon

E por hoje é isso, pessoal! O intuito desta postagem era apresentar este subgênero enorme, suas influências e alguns RPG que possuem mais ou menos elementos dele. Espero que tenham gostado e aguardem por mais novidades da coluna e do meu sistema, o Gaia RPG, em breve!

Até and Bye…

2 Comentários

  1. Leishmaniosesays:

    Olá,

    Muito bom o artigo, Tio. Mas acho que, mesmo sendo óbvio que são Isekais, faltou um Tron e um Caverna do Dragão ali. 😛 E, talvez uma menção aos mitos e lendas, já que ser levado pro mundo das fadas ou viajar ao mundo dos mortos ou dos deuses era algo bem comum em certos mitos.

    Bonanças.

    Atenciosamente,
    Leishmaniose

    • Olá @Leishmaniose!
      Rapaz, bem lembrado de Tron e Caverna do Dragão. Quanto a lendas e mitos, não fui tão longe assim na pesquisa, mas valeu pela lembrança.

      Até and Bye…

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