Sobre Morte e Heróis

Olá leitores e leitoras!

Não gosto de apresentações muito longas, então tentarei manter isso breve. Meu nome é Joris e esta é minha postagem de estréia na Taverna no Fim do Multiverso. Feitas as apresentações, vamos começar a falar sobre o assunto desta coluna. Você já parou pra pensar em o que significa ser um herói?

Além dos poderes grandiosos e batalhas épicas, eu diria que a essência das histórias de heróis tem a ver com sacrifício. O quanto você está disposto a sacrificar de sua própria vida em nome dos outros; o quão significativo este sacrifício é; o peso da responsabilidade de ser uma pessoa que decidiu tomar alguma atitude são todas perguntas feitas no núcleo das histórias de heróis.

As melhores dentre estas histórias criam personagens que não apenas assumem a responsabilidade por agir, mas que também possuem muito a perder por assumir esta responsabilidade. Personagens que colocam na linha de fogo algo importante para elas porque é o certo a se fazer, e não por que esperam qualquer recompensa.

Há um jogo da franquia das Crônicas das Trevas, publicado pela Onyx Path, que retrata bem esse dilema, chamado de Geist: os Devoradores de Pecado.

Heróis que morreram, mas voltaram

Em Geist, o seu personagem era uma pessoa comum vivendo nos tempos atuais, porém, em determinado momento, esse personagem morreu. É no momento de sua morte que sua história começa.

Antes do seu fantasma largar a carne morta do seu cadáver, algo fala com ele, uma presença que te fala “você não precisa ir agora. Eu posso te trazer de volta, mas tem uma condição: eu quero voltar com você”.

Essa presença é um Geist, um sombra misteriosa que representa uma face da morte, um arquétipo, como um pequeno deus da Morte. Ao aceitar a Barganha dele, você retorna dos mortos ao mundo dos vivos, mas ao invés de uma alma, no lugar onde esta costumava ficar, há apenas uma bola de Plasma turva onde seu fantasma e seu Geist agora vivem juntos.

A Barganha não apenas te traz de volta dos mortos, mas também te concede poderes mórbidos e sobrenaturais. Usando o Plasma em seu corpo, você pode fazer o impossível real, controlando os vivos com cordões de plasma com a Marionete; cantar canções assombrosas e hipnóticas com a Endecha; atormentar seus inimigos fazendo-os sentir o sofrimento e desprazer dos mortos com a Maldição e vários outros poderes.

Fazer a Barganha parece ser um ganho de cem por cento, não é? Afinal, você volta dos mortos, ganha poderes incríveis e tudo que você precisa fazer é aprender a conviver com a entidade misteriosa e perigosa dentro de você, correto? Bom, não. É justamente aí onde entra o aspecto de heróis na história dos Devoradores de Pecado.

Ao experimentar brevemente o que é a morte e voltar, um véu sobre seus olhos foi desfeito, e você viu o que significa realmente morrer. Não há céu e não há inferno. Não importa se você foi uma pessoa boa ou má em vida, pois o destino que nos aguarda é o mesmo.

O mundo está repleto de fantasmas das pessoas que morreram, mas eles são invisíveis, inaudíveis e intangíveis para os vivos. Eles continuam aqui, ao nosso lado, presas aos negócios inacabados que deixaram em vida. Eles gritam, imploram para que os vivos os escutem, os enxerguem e os ajudem.

Mas de nada adianta, todos os fantasmas permanecem esquecidos e ignorados, assombrando suas âncoras. Entretanto, mesmo estas âncoras eventualmente são destruídas, e quando isso acontece eles são arrastados para longe do mundo dos vivos, e sendo engolidos pelos portões avernianos, que os empurram para as Grandes Profundezas do Submundo.

O Submundo é uma dimensão onde residem todos os fantasmas que perderam suas âncoras. Mais cedo ou mais tarde todos os fantasmas terminam aqui, não importando quem eles foram em vida. Afinal, nenhuma âncora existe pra sempre e todos fantasmas terminam no Submundo, perdidos e assustados.

Dentro do Submundo, o fantasma é drenado diariamente de sua essência, e deve descobrir alguma forma de encontrar mais para sobreviver. Se ele não conseguir, e sua essência for totalmente drenada pelo Submundo, as paredes e o chão se abrem e aprisionam o fantasma, prendendo-o em seu interior e digerindo a pobre sombra para saciar sua fome interminável. Eventualmente, o fantasma deixa de existir e torna-se literalmente uma parte do Submundo.

Os mortos possuem um destino cruel, e ninguém pode ajudá-los, exceto você. Seu Devorador de Pecados paga um preço pela sua posição privilegiada entre os vivos e os mortos, e este preço é sua responsabilidade com os próprios mortos que lhe concederam os seus poderes.

Só você pode vê-los, ouvi-los e tocá-los. Só você consegue entrar e sair do Submundo para resgatá-los. Só você tem o poder de resolver seus negócios inacabados e quebrar o ciclo de degradação e destruição ao qual estão presos todos os fantasmas.

Este é o dilema do Herói dos Devoradores de Pecado. Você voltou dos mortos, ganhou uma segunda chance na vida, uma segunda chance privilegiada com poderes sobrenaturais que a maioria das pessoas apenas pode sonhar em ter. Mas você tem um dever, uma responsabilidade com aqueles que não tiveram a mesma sorte que você, e que estão sofrendo o tempo todo, sem ninguém pra sequer reconhecer o seu tormento.

Você sabe que comprar uma briga com o Submundo e os seres que nele habitam pode significar a destruição da sua preciosa segunda chance, mas você também não consegue ignorar os pedidos de ajuda das vítimas do Mundo Subterrâneo.

Você arriscaria tudo para fazer a coisa certa?

Ninguém nasce herói, às vezes você precisa morrer pra isso

Para finalizar a coluna hoje, eu vou trazer um cenário para você, leitor intrigado, que ficou interessado nesse jogo cheio de morbidez e a esperança, que Geist é.

O cenário baseia-se no romance “Ninguém Nasce Herói” de Eric Novello, cuja história descreve um Brasil tomado por um regime fundamentalista religioso, liderado pelo messiânico Escolhido. Milícias urbanas tomam as ruas, perseguindo minorias e pessoas socialmente vulneráveis com o endosso do governo e o mero ato de distribuir livros ou discos na rua é tido como subversivo.

A história se passará no estado do Rio Grande do Norte, e os jogadores interpretarão personagens que tiveram a sua vida ceifada direta ou indiretamente pelo Regime do Escolhido e os seus apoiadores.

Cada um dos cinco personagens fez uma Barganha com um Geist diferente, mas se juntaram para formar um grupo chamado de Krewe.

A Krewe dos Jogadores, é uma espécie de culto, composto por pessoas vivas, pessoas mortas e os Devoradores de Pecado, todos reunidos em torno de uma crença sobre o próprio sentido da morte, e, sobre uma forma de enfrentar o Submundo.

A Krewe formada pelos jogadores chama-se Santa Muerte, e pertence ao Arquétipo das Fúrias, pessoas que se preocupam inicialmente com a justiça. Não se trata de vingança, mas sim de justiça, de identificar a raiz do problema e agir para resolvê-la.

Especificamente pra Doutrina da Krewe da Santa Muerte, isso significa duas coisas: revelar a verdade sem maquiagem do que de fato está acontecendo no regime do Escolhido, expondo os alicerces de sangue e medo no qual esse se sustenta, e, não se deixar paralisar pelo medo.

Para isso, os Jogadores e sua Krewe utilizarão uma rede de mídias alternativas para disseminar este conteúdo considerado “subversivo” para que as pessoas não apenas saibam dos horrores promovidos por este Regime, mas também lembrem dos mortos e desaparecidos todos os dias na rua, não esquecendo da dor daqueles que foram vitimados pelo Regime. Assim, acreditam que podem enfrentar não apenas o regime do Escolhido, mas também o próprio Submundo, se certificando que fantasma algum seja esquecido e engolido pelas Grandes Profundezas.

A aventura curta deste cenário envolverá os Jogadores interpretando cinco Devoradores de Pecado diferentes e sua Krewe, durante uma investigação a respeito do Presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte: Álvaro Lobato (político fictício que não existe de fato).

A Krewe desconfia que ele está sendo responsável por financiar uma milícia particularmente violenta em Natal, e está tentando encontrar provas desta conexão para expor o referido político. Porém, durante a investigação, os jogadores irão se deparar com um segredo necromântico inesperado envolvendo o Presidente da Assembleia.

A aventura, assim como mais informações e as fichas de personagem você pode baixar clicando aqui:

Geist – Segredos Necróticos

Belas Noites e se Cuidem!

1 Comentários

  1. Gostei muito, queria ver mais textos assim, sobre os demais cenários “não convencionais” do Cronicles of Darkness.

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