A Ferro e Fogo: Fate Quest Revisado (Quarta Parte: Dolovia)

Olá, 2d8 leitores! Eu sou o Leishmaniose e nesta semana na Lugar Nenhum, trago o último capítulo da série A Ferro e Fogo, dando continuidade à revisão e ampliação do Fate Quest, um hack para jogos de fantasia medieval usando a engine do Fate! No capítulo de hoje, o microcenário Dolovia!

Parte 1 – Revisão do Fate Quest: Mecânicas.

Parte 2 – Revisão do Fate Quest: Personagem.

Parte 3 – Revisão do Fate Quest: Antagonistas.

Parte 4 – Revisão do Fate Quest: Microcenário.

Dolovia

Dolovia é um reino predominantemente florestal. Suas florestas antigas e densas cobrem toda a região e são habitadas por animais selvagens e monstros, dificultando viagens, incursões e até a fundação de novas cidades.

Algumas histórias falam sobre homens que derrubaram árvores para abrir uma estrada e, no dia seguinte, encontraram a área toda retomada pela floresta. Dependendo de quem conta a história, mortes macabras ocorrem a eles durante a noite e apenas seus parentes presenciam o retorno da floresta. Outras histórias falam sobre povoados que foram fundados e cujos habitantes desapareceram após alguns dias, sem deixar rastros.

Apenas as grandes muralhas das Cidadelas garantem a segurança das pessoas que desejam viver longe dos perigos da floresta e do mundo selvagem. Alguns habitantes temem mais a expulsão da Cidadela do que a pena de morte pelo machado do executor.

Porém, isso não significa que a vida nas Cidadelas seja fácil… Devido ao modelo feudal, os moradores de uma Cidadela são servos, propriedades, do regente dela, o Lorde da Cidadela. Ele tem total e pleno poder sobre a vida de um morador e sua única responsabilidade é manter a cidadela segura das ameaças externas.

Essa política, aliada à dificuldade de viagem pela floresta, resultou em um isolamento social entre as cidades. Temendo possíveis ataques de outros Lordes ou até mesmo que as ideias sobre o estilo de vida em outra cidadela possa corromper os seus servos e incitar ideias proibidas como as de revolução, alguns Lordes possuem agentes que servem diretamente a eles e são responsáveis pelo controle e manipulação de informações na Cidadela.

A paranoia de alguns chega a ser tamanha que um bairro especial da Cidadela é reservado para mercadores e aos raros viajantes, evitando que tenham muito contato com os moradores. Em alguns desses casos, somente pessoas que tenham recebido a punição de expulsão da cidade recebem uma segunda chance, atuando como mercadores e caçadores pra cidadela, mas não podendo sair do bairro destinado aos estrangeiros.

Esse isolamento acarretou no desenvolvimento cultural de cada cidadela sem grande influência das demais. A maioria das tradições comuns vem de épocas anteriores à criação das cidadelas, quando toda Dolovia era parte de um Império, do qual só sobraram algumas poucas ruínas em meio à floresta…

Geografia

Dolovia tem como fronteira a Cordilheira Spertene, que segue do sudoeste até o norte, o Mar Deloro a nordeste e o Rio Egites, que nasce na cordilheira e segue em direção ao mar, delimitando todo o sul e leste do domínio. Ela é atravessada pelo Rio Flettegeno, que atua como fronteira entre as três maiores florestas do reino.

A cordilheira atua como uma barreira natural bloqueando os gélidos ventos vindos do Monte Gellacia. É devido a ela que Dolovia possui clima temperado na maior parte do domínio. A região noroeste, por estar mais próxima geograficamente do monte, possui um clima subártico, com presença de neve até durante o verão. E, por fim, a região norte possui um clima mais quente, subtropical, devido à presença de vulcões no Vale Vilnuca.

A vegetação do domínio se adaptou bem às variações climáticas: a Floresta Cecoti, no noroeste do domínio, é formada por coníferas como o pinheiro; a Floresta Malobelge, por sua vez, já é formada por árvores caducifólias, cujas folhas caem durante o inverno, como carvalhos e bordos; a Floresta Corbere, a maior de Dolovia, é formada por árvores perenifólias, que não perdem a folhagem, mesmo em invernos temperados, como abetos e cedros; o Bosque Termo, por estar próximo do Vale Vilnuca, é um bosque de árvores mortas devido aos gases da região; Por fim, a Selva Potacce está em uma região aquecida pelos vulcões, sem ser afetada pelos gases, e onde o inverno é chuvoso, rica em árvores tropicais, como jacarandás e bromélias.

Por ter um clima predominantemente temperado, mesmo ao noroeste e ao norte, as estações são bem definidas, porém não possuem o mesmo tempo de duração: a primavera tem duração de dois meses, o verão tem duração de um mês, o outono tem duração de três meses e o inverno tem duração de seis meses.

A umidade é elevada e há uma alta incidência de chuvas durante a primavera, o verão e metade do outono. Na região da selva, o inverno é predominantemente chuvoso, enquanto nas demais regiões, as chuvas são substituídas por neve. Nevoeiros não são incomuns, principalmente nos dias sem precipitações.

Os períodos de um dia em Dolovia também não possuem a mesma duração. Durante a primavera e o outono, o período diurno tem seis horas, indo das 9h às 15h. No verão, essa quantidade de horas sobe pra oito, indo das 8h às 16h. Já no inverno, ela diminui para quatro horas, indo das 10h às 14h.

É comum o céu estar nublado e nos poucos dias que o sol está à mostra, ele possui uma irradiação mais fraca. Em algumas regiões mais densas das florestas de Dolovia, sua luz não atravessa a copa das árvores, deixando o solo na escuridão.

Durante a noite é possível contemplar cinco luas no céu, cada uma com seu próprio ritmo de fase, que auxiliam a orientar na passagem do tempo. As estrelas giram toda noite um grau pra direita, dando uma volta completa após um ano.

Pela tradição antiga, as estrelas são brilhantes espíritos das árvores. As maiores e principais constelações são de florestas cuja formação representa o tipo de árvore daquela mata, destacando-se as constelações do bordo, do baobá, da mangueira, da sequoia e da cerejeira.

Cultura

Dolovia tem um nível cultural predominantemente medieval, embora algumas cidadelas possam apresentar traços de uma cultura da Antiguidade. Fortalezas, catedrais e castelos pertencem ao estilo gótico de arquitetura, com vitrais e janelas de vidro. O campo bélico é dominado pelo arco longo, espada longa e as armaduras feitas de cotas de malha. E a roda de fiar facilita as produções de roupas.

As moradias são construções amplas e maciças de tijolos cimentados e caiados, com telhados em cumeeira forrados com telhas finas de madeira. As ruas de pedra polida são estreitas, encobertas pelos andares superiores das casas. Um sistema de aquedutos distribui a água pela cidade, embora ainda haja alguns poços artesanais em cada bairro.

Em algumas cidadelas, o estudo da ótica aliado ao artesanato de soprar vidro quente já possibilita a existência de óculos, espelhos e vidros dos mais variados tipos. Máquinas de impressão substituem os escribas, embora a manufatura dos blocos ainda seja trabalhosa. Os relógios mecânicos começam a surgir em seus mais variados formatos. E há o registro de nascimentos, casamentos e mortes, assim como um serviço postal interno.

Segundo a tradição antiga, o ano é calculado através de um calendário lunar, tendo 360 dias. O início do ano ocorre na chegada da primavera, quando as cinco luas encontram-se cheias, na chamada “Noite das Fogueiras”. É durante a primavera que ocorrem os festivais de plantio e os ritos matrimoniais. Durante o verão ocorrem torneios, onde são nomeados os novos portadores de títulos. Durante o outono ocorre o período de colheitas e festivais celebrando as melhores colheitas. No último mês do outono ocorre a “Noite das Sombras”, quando as cinco luas entram em fase nova e ocorre o festival em homenagem e respeito aos mortos. O inverno é marcado por uma diminuição do ritmo nas ruas das cidadelas, devido às nevascas e queda da temperatura mesmo durante o dia.

Regência

Qualquer habitante de uma cidadela sabe que o modelo de governo em Dolovia é o despotismo, em que um regente absoluto reina arrebatando tudo sob a sua vontade. Ele é a lei e as regras de uma cidadela são criadas a partir de seus caprichos.

O que a grande maioria não sabe, sendo um conhecimento restrito aos Lordes das Cidadelas e alguns poucos conselheiros e estudiosos, é que Dolovia tem um rei a quem os Lordes das Cidadelas juram lealdade ao assumir o trono da cidadela.

O ritual é simbólico, já que o rei nunca aparece nessas cerimônias e não se sabe a identidade dele. A lenda fala que ele habita a Torre de Lucefiro, no extremo noroeste do reino, após a Árvore da Morte, uma árvore gigante morta, cujas ranhuras lembram uma expressão de horror e que pode ser vista a quilômetros de distância. Diz a lenda que a árvore é formada pelo corpo daqueles que ousam desafiar o rei de Dolovia.

Lordes das Cidadelas que ignorem o juramento desaparecem ou são mortos em alguma situação muito dolorosa e macabra. Porém, feito o juramento, o Lorde da Cidade pode até dizer que não existe rei ou que ele é o único regente pois, aparentemente, o misterioso rei não se importa com isso. Assim como ele também não costuma aparecer ou intervir nas cidadelas, independente do que estiver acontecendo.

Um Lorde da Cidadela é um déspota na Cidadela em que é regente. Formalmente, todos os moradores da cidadela são propriedades suas enquanto morarem nela. Porém, ao contrário do misterioso rei, ele não tem como garantir a lealdade total de seus servos, nem como saber quem está sendo desleal pelas suas costas. Aqueles lordes que não possuem poder para sobrepor-se aos demais na cidadela adotam subterfúgios em sua regência.

Alguns Lordes concedem títulos de nobreza a pessoas importantes e influentes. Geralmente o título é ilusório, pois o nobre apenas terá permissão para morar em um bairro luxuoso e passará a trabalhar diretamente para o Lorde em uma atividade burocrática.

Lordes que tenham um viés militarista estruturam o exército local, fornecendo condições melhores aos militares, além de equipamentos de qualidade e treinamento adequado, para que respondam de imediato às necessidades do Lorde.

Os Lordes mais paranoicos criam uma rede de espiões e assassinos, para obter informações sobre possíveis ameaças e eliminá-las antes que se tornem ameaças. Em alguns casos, eles conseguem ter agentes atuando até mesmo em outras cidadelas…

No geral, um Lorde da Cidadela possui poder suficiente para estar no cargo que ocupa. Se não o tiver, ele logo é substituído — algumas vezes por pessoas próximas a eles, como nobres, militares e/ou espiões que decidiram que era hora de sua regência chegar ao fim.

Economia

Devido ao isolamento entre as cidadelas, seja por paranoia do Lorde da Cidadela e/ou pelos perigos encontrados nos ambientes selvagens, o comércio praticado entre elas é raro. Alguns corajosos mercadores viajam de cidadela em cidadela, comprando produtos locais e vendendo os produtos de outras cidadelas.

A maioria das cidadelas possui um bairro só para mercadores estrangeiros se hospedarem e realizarem comércios, geralmente com pessoas autorizadas da nobreza que trabalham para o Lorde da Cidadela. O comércio utiliza moeda própria, cunhada na época do Império: Garra, uma moeda de cobre; Presa, uma moeda de prata que tem valor de 10 garras; e Chifre, uma moeda de ouro que tem valor de 10 presas.

Dentro da cidadela, o escasso comércio realizado é em escambos porque tudo é propriedade do Lorde. Os plebeus não tem acesso a moedas, seu pagamento pelos serviços prestados são alimentação e moradia dentro dos muros da cidadela.

Os artigos mais produzidos em Dolovia são: Algodão, Amoras, Avelãs, Batatas, Cânhamo, Centeio, Cerejas, Chá, Damasco, Maçãs, Milho, Nozes, Peras, Uvas e Trigo; Bovinos, Galináceos, Mel, Ovinos e Suínos; Âmbar, Chumbo, Cobre, Ferro, Gesso, Giz, Madeira, Mármore e Sal; Alvenaria, Cerveja, Mobílias, Música, Pintura, Produtos de Couro, Vestimentas e Vinho.

População

Dolovia tem uma população com cerca de 150.000 habitantes nas cidadelas, sendo 120.000 humanos e 30.000 pertencentes a outras ancestralidades, como anões, elfos, pequeninos, entre outras.

Embora a população de outras ancestralidades seja considerável, eles não são bem vistos nas cidadelas. São alvos de suspeitas e superstições devido às suas diferenças, embora não sejam tratados de forma radical, afinal, também são propriedades do Lorde da Cidadela. Na grande maioria das vezes serão ignorados pelas pessoas, como se não existissem, e caso ocorra alguma abordagem ou contato, podem ser tratados de forma seca ou rude.

Um habitante típico de Dolovia possui um temperamento sério, muitas vezes transparecendo os aspectos do cotidiano da pessoa, uma consequência da arbitrariedade, caprichos e crueldades do Lorde da Cidadela. Uma vida em opressão deteriora atitudes mais expansivas e calorosas, criando um povo sem esperança que vive os dias à base de um fatalismo resignado. Não é incomum que haja um aspecto cansado e atormentado em suas feições.

As mulheres de Dolovia possuem cabelos longos, geralmente adornados com algum laço fino ou pentes feitos de casco de tartaruga ou madeira. Os homens deixam os cabelos ondulados crescerem até um comprimento médio, de forma irregular e descuidada.

Os plebeus trajam indumentárias simples no seu cotidiano. Os homens vestem camisas e calças largas de algodão, enquanto as mulheres usam blusas e saias dos mais variados tamanhos. Tons escuros, como marrom, são bem comuns. As roupas são presas com faixas de tecido no lugar de cintos ou prendedores. Uma boa parte dos plebeus anda descalça, mas alguns, geralmente beneficiados por algum nobre ou devido ao seu trabalho, usam botas.

Os nobres se vestem de forma mais elaborada. Os homens vestem camisas de gola, calças, botas e coletes, optando por cachecóis ou chapéus como complemento. As mulheres preferem vestidos de lã, com golas altas, e botas, também optando por cachecóis ou chapéus de complemento. Os tons usados são branco, cinza ou pretos. Entre os nobres, cintos ou prendedores são comuns de serem usados.

Tanto os plebeus quantos os nobres reservam as indumentárias coloridas e adereços, como joias, exclusivamente para festivais.

Idiomas

O idioma oficial de Dolovia é o litano, o antigo idioma imperial. Ele é complexo e altamente estruturado, sendo muito apreciado por eruditos por apresentar definições precisas. As únicas variações encontradas entre as cidadelas são os sotaques e as gírias.

Crenças

Dolovia não tem uma religião oficial. Entre algumas famílias ainda sobrevivem as tradições orais relacionadas às divindades do antigo Império, mas até elas possuem um tom mais folclórico do que religioso.

A tradição mais conhecida é a do Dantesezioni, conhecido como o Senhor do Destino. Segundo essa tradição, a providência divina está por trás de todos os acontecimentos e realizações, não acontecendo nada que não tenha a bênção e consentimento do Dantesezioni.

Por essa crença, o Lorde da Cidadela merece governar por ser o regente, enquanto os demais merecem apenas o que conseguirem através do serviço leal a ele. Ela reforça o despotismo nas cidadelas, restando apenas aceitação e obediência aos desígnios da entidade.

Porém, há uma vertente da tradição menos conhecida: ela fala que se qualquer acontecimento ocorrido faz parte da providência de Dantesezioni, então a luta por mudanças que tiver sucesso teve a aprovação dele e não pode ser recriminada. Mas, isso não é dito em alta voz…

Fim da Quarta Parte da Revisão

E chegamos ao fim da revisão do Fate Quest. Eu fiquei muito em dúvida sobre usar ou não este microcenário que eu criei pra um projeto com uma amiga minha, mas como não tive tempo de desenvolver outro, aí está ele.

Com a revisão finalizada, os próximos passos, serão: Trabalhar um texto com mais exemplos e com maior clareza para as regras; Trabalhar um capítulo que atue como guia para o jogador e para o mestre; Fazer os ajustes que ainda faltam como inserir mais criaturas no bestiário e desenvolver mais o microcenário.

Feito isso, eu envio o material pro senpai pra ele poder começar a diagramação. Dependendo do ritmo das etapas acima, é possível que eu acabe apenas reunindo o que já foi feito e libere em um formato SRD, mais rústico, para consulta e uso enquanto o final não é terminado.

Mas é isso por hoje. Até daqui a 15 dias, 2d8 leitores!

Parte 1 – Revisão do Fate Quest: Mecânicas.

Parte 2 – Revisão do Fate Quest: Personagem.

Parte 3 – Revisão do Fate Quest: Antagonistas.

Parte 4 – Revisão do Fate Quest: Microcenário.

Bonanças.

Atenciosamente,

Leishmaniose

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