Fantasmas em Geist

Olá leitoras e leitores!

Meu nome é Rosamante e nesta postagem nós faremos um retorno a Geist: os Devoradores de Pecado para falar de pessoas. Especificamente, pessoas que morreram: os fantasmas.

Fantasmas não são novidade para outras criaturas das trevas, eles aparecem no livro básico do Cronicas das Trevas, assim como em outras linhas como Mago: o Despertar e Caçador: a Vigília, além de diversos outros jogos de formas menos diretas.

Em Geist, no entanto, os fantasmas são colocados como elemento central da narrativa e das mecânicas do jogo, deixando de ser uma mera categoria de criatura efêmera e adquirindo uma relevância narrativa nunca explorada em outras linhas.

Mais que isso, Geist se diferencia de outros jogos das Crônicas das Trevas por também lançar um olhar diferenciado sobre o tema. Por mais que fantasmas estejam presentes em outros jogos das Crônicas das Trevas, sua participação nestas histórias em regra limita-se a serem antagonistas ou ferramentas no arsenal sobrenatural destas criaturas.

Por mais que personagens individuais possam ter um tratamento mais humanitário ou compreensivo com fantasmas, não há grandes considerações a respeito da verdadeira natureza dos fantasmas ou como compreender as suas questões em outros jogos.

Em Geist, contudo, os personagens Mortos desempenham um papel tão fundamental quanto os Vivos, sendo ambos tratados igualmente como pessoas. Aqui, fantasmas são pessoas como qualquer outra, a única diferença é que são pessoas mortas, forçadas a viver numa nova realidade injusta e opressora para a qual nenhuma religião no mundo os preparou para enfrentar.

Devoradores de Pecado como eu, são os únicos que conseguem compreender esta problemática. Não existem muitas pessoas que podem se comunicar com os mortos como nós. Fantasmas são tão sólidos e visíveis para um Devorador de Pecados como qualquer outra pessoa, e isso não é um poder sobrenatural que podemos ativar ou desativar quando isso se torna desagradável ou inconveniente, enxergar e interagir com os mortos é inerente e inevitável para a nossa natureza.

Mais importante que perceber fantasmas com mais facilidade, nós Devoradores de Pecado estamos dispostos a se comunicar genuinamente com os mortos. Muitas criaturas conseguem interagir com fantasmas usando poderes peculiares, mas poucas delas estão realmente interessadas no que os mortos tem a dizer e em suas necessidades. Nós Vinculados, por outro lado, não conseguimos evitar sentir a empatia pelas pessoas mortas, afinal, nós e os fantasmas dividimos o trauma em comum de morrer, mas nós fomos mais sortudos que eles.

Assim como qualquer fantasma, nós Vinculados experimentamos a morte pessoalmente, mas a nossa própria experiência de morte diferencia-se por ao invés de ser marcada pelo nascimento de um fantasma acorrentado a uma Âncora, nós estamos vinculados através da Barganha ao nosso Geist.

Este vínculo é o que permite ao Geist nos trazer de volta das mãos gélidas da morte de volta ao mundo dos vivos. Claro, metafisicamente ainda estamos mortos e no lugar da nossa alma, só há uma bola de plasma turva onde habita o nosso fantasma vinculado ao nosso Geist, mas, nós vivemos novamente.

Nós voltamos dos mortos e habitamos nossos corpos, sentindo e vivendo de uma forma ainda mais intensa e satisfatória, pois nós morremos e sabemos que o que nos espera não é nem de longe tão bom quanto simplesmente viver.

Essa Barganha e a nossa capacidade de voltar à vida, contudo, são cintilantes e chamativas para os mortos, nós somos como fontes de luz e de esperança para eles, pois além de sermos capazes de percebê-los e compreendê-los, nós gozamos de poderes necróticos capazes de resolver o que for necessário para que eles tenham algum descanso.

Fantasmas reconhecem o privilégio do qual usufruímos: a vida para a qual retornamos após morrer através da Barganha com o nosso Geist. Eles pedem nossa ajuda, insistentemente, e nós somos os únicos que podemos de fato ajudá-los.

Geist é um jogo centrado nos temas de Empatia e de Comunidade. Quando um fantasma raivoso provoca destruição e caos num local ou na vida de uma pessoa, s Devoradores de Pecados sabemos que este fantasma é justamente um dos mais desesperados e assustados, um dos que mais precisa de nossa ajuda. Nós estendemos a mão para esse fantasma, quando a maioria das outras criaturas se satisfariam apenas em bani-lo pro Submundo.

E é por esta lente de empatia e compreensão, meu caro leitor, que eu desejo conversar com você sobre os Mortos, desmistificando esse véu de mentiras e más impressões criadas pelo medo e interesse daquelas pessoas que abusariam dos fantasmas.

Nasce um Fantasma

Morrer é um momento de ruptura. Você sente cada uma das suas ligações criadas em vida se partindo, sem nada para lhe sustentar neste mundo, você cai mergulhando em direção ao oblívio, e num último momento de desespero, você estende o seu alcance e agarra a última coisa que pode lhe manter ancorado no mundo, e segura esta sua Âncora com firmeza.

Ao fazer isso no entanto, você rasga alguma coisa dentro de você, como uma membrana se descolando de um tecido. Seu fantasma então se separa do seu corpo, agarrado à Âncora (geralmente, mas não necessariamente, o seu próprio corpo) para evitar que a pressão da realidade o empurre através do Portão Averniano mais próximo.

Fantasmas recém-nascidos então, observam a deprimente situação de suas novas existências, na medida em que sons são abafados e distorcidos como se estivesse embaixo d’água, cheiros são fracos e esmaecidos, sensações como calor ou umidade são fracas e dormentes.

A situação apenas piora quando ele tenta interagir com algo ou alguém. Seu corpus simplesmente atravessa ou sobrepõe o objeto ou pessoa material. O fantasma grita em choque, ou implora por ajuda, apenas para descobrir que a pessoa viva simplesmente não o escuta nem o vê.

Muitos podem ter o impulso imediato de correr para longe em desespero, mas logo descobrem que nem isso podem fazer. A medida que eles se afastam da sua Âncora, eles sentem a realidade começar a pesar sobre o seu corpus, que é gradativamente desfeito, a sua Essência diluindo e sublimando em nada em todos os momentos em que está distante de sua Âncora.

Resignado, o fantasma retorna a assombrar a sua Âncora e seus arredores, só podendo realmente conhecer novos lugares e novas pessoas conforme a sua Âncora se desloca no mundo dos vivos. Alguns fantasmas que assombram seu próprio corpo são sortudos ao serem sepultados num cemitério com vários outros fantasmas, o que torna a sua existência menos insuportável, mas muitas pessoas que morrem não possuem esta sorte.

Fantasmas cujos corpos nunca foram encontrados, enterrados em locais ermos e solitários ou escondidos deliberadamente bem debaixo dos narizes das pessoas; fantasmas cuja Âncora é sua velha casa, hoje caindo aos pedaços com o descaso e abandono; fantasmas cuja Âncora é um objeto de estimação que jaz esquecido no cofre de algum banco, todos estes não possuem sequer o privilégio da companhia de outros fantasmas, estão condenados a permanecer no Crepúsculo em total isolamento.

Alguns destes fantasmas, sobretudo os de pessoas que em vida foram mais virtuosas, e que gozavam de salubridade mental e de uma personalidade bem consolidada, conseguem conservar após sua morte, as faculdades mentais e capacidade de raciocínio que gozavam em vida, o que pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição, dependendo das circunstâncias em que a Âncora do fantasma existe.

Outros, no entanto, especialmente os fantasmas daqueles que em vida, não puderam ou não quiseram agir de forma mais humana, ou ainda, que não tinham uma saúde mental e uma percepção do mundo muito bem estabelecidas, sequer conseguem ter o privilégio sobre as próprias percepções. Estes fantasmas muitas vezes não percebem que estão mortos, ou repetem incessantemente a sequência de eventos que levou à sua morte, em completa dissociação com a passagem do tempo, com o local onde se encontram e com a sua própria condição.

E assim, as primeiras horas do fantasma logo tornam-se semanas em que o fantasma permanece sem contato algum com o mundo além do Crepúsculo circundando a sua Âncora; invisível, inaudível e intangível para todo o mundo. Sua solidão começa a se transformar em desespero, em raiva ou ressentimento, e essas emoções poderosas fazem algo com a sua Essência.

A substância até então inerte que sustenta sua existência e vaza de sua Âncora para mantê-lo ativo começa a se transmutar em Plasma, e com este Plasma, o fantasma consegue interagir de alguma forma com o mundo.

Geralmente é uma forma indireta, através de Possessão ou de Agrilhoamento. Outras vezes o fantasma ainda consegue projetar uma imagem intangível de si mesmo no mundo dos vivos ou fazer objetos flutuarem, deixar mensagens fantasmagóricas em superfícies, liberar ondas de energia plásmica destrutiva ou descarregar ondas emocionais devastadoras. Algumas raras vezes, o fantasma consegue até mesmo materializar-se por completo diante dos vivos.

Esses momentos nas primeiras vezes são sempre marcados por fortes emoções do Fantasma, sentimentos intensos de raiva, amor, frustração, cuidado, desespero, e assim por diante. Um fantasma que por semanas permaneceu praticamente inexistente para os vivos, e que apenas se tornou relevante através de uma emoção tão intensa que transfigurou sua própria Essência, dificilmente terá um primeiro contato com os vivos de forma pacífica ou racional. Na maioria das vezes, os vivos apenas fogem ao ver o fantasma, ou continuam negando a sua existência.

Após as primeiras vezes que o fantasma usa seus Numes e Manifestações para interagir com o mundo, ele vai aprendendo a utilizar os poderes do Plasma de uma forma mais racional e estratégica, tornando seu contato com o mundo dos vivos igualmente mais frequente, e este contato pode ser bom e construtivo ou não.

Quando este contato não é seguro ou desejado pelos vivos, na melhor das hipóteses, eles chamam uma Krewe de Devoradores de Pecado para lidar com o fantasma, mas, na pior das hipóteses, eles chamam exorcistas, caçadores de fantasmas e necromantes para banir o fantasma, o que apenas acirra a agressividade do espectro que tende a se tornar ainda mais violento e destrutivo.

Em qualquer que seja cenário, seja pela intervenção de um terceiro que destrói a Âncora do fantasma, ou pela própria ação do tempo, a tendência é que Âncoras sejam destruídas. O fantasma de um advogado cuja Âncora é seu marido não consegue impedir o acidente de carro que clama a vida do seu marido; Uma fantasma que assombra a sua antiga casa não consegue impedir a demolição dela para a construção de um shopping; O fantasma de uma idosa cuja Âncora são as cinzas em sua urna, não consegue impedir a sua neta de atirar as cinzas no mar, num gesto que ela acredita ser de liberação, mas é na verdade um de condenação.

Quando isso acontece, a situação miserável que o fantasma se encontrava torna-se ainda pior, pois os Portões Avernianos estão sempre lá, e quando o fantasma perde sua Âncora, eles se abrem, e a velha gravidade que o fantasma sentiu no momento de sua morte, finalmente o empurra portão adentro, arrastando-o como uma onda no mar arrasta um banhista que não sabe nadar.

Sobrevivendo ao Submundo

Se existir como um fantasma no Mundo dos Vivos é péssimo, o Submundo consegue ser ainda pior.

No Mundo dos Vivos, enquanto o fantasma permanece perto de sua Âncora, ele recebe uma quantidade suficiente de Essência diariamente para sobreviver e permanecer ativo, mas não no Submundo.

Aqui o fantasma deve gastar parte de sua Essência diariamente para impedir o Submundo de literalmente devorá-lo. Fantasmas que não pagam o custo de existir nas Grandes Profundezas, são aprisionados nas paredes, teto e chão do Submundo; os arredores literalmente avançam sobre o fantasma e o aprisiona em suas paredes, onde ele é lentamente digerido até não sobrar mais nada do seu Corpus, que passa a fazer parte da paisagem cavernosa do Submundo.

Fantasmas recém-chegados no Submundo devem aprender a lidar com sua nova realidade o mais rápido possível ou enfrentar a obliteração nas suas paredes. Isso significa que eles devem aprender a coletar Essência o mais rápido possível.

Fantasmas presos no Submundo ainda recuperam Essência quando alguém no mundo dos vivos lembra dele, mas isso não é um método confiável para sustentar um fantasma pela eternidade.

Assim, muitos fantasmas descobrem no Submundo, que não são apenas pessoas que morrem, mas objetos quebrados, restos de propriedades estimadas e até mesmo fantasmas de animais queridos podem ser encontrados pelo Submundo, e um fantasma pode tentar sobreviver consumindo a Essência contida nestes. Fantasmas mais inescrupulosos e desesperados podem até mesmo tentar canibalizar outros fantasmas nos corredores dos Alcances Superiores para consumir sua Essência.

Um fantasma pode sobreviver por algumas semanas desta forma, catando os restos de Essência arrastadas pelos córregos que correm pelos Alcances Superiores, sempre descendo em seus túneis cthônicos, mas os corredores do Submundo são locais perigosos, onde outros monstros se escondem e onde a maioria dos fantasmas vive em isolamento, e com o tempo, a necessidade por proteção ou convivência eventualmente leva a maioria dos fantasmas a descer mais fundo, saindo dos Alcances Superiores e descendo até as Cidades Ribeiras.

Como já contei a você num dos meus primeiros relatos, leitor, a vida nas Cidades Ribeiras é difícil. Claro, a segurança relativa e as oportunidades que podem ser encontradas nestas necrópoles, mas em compensação, ter que lidar com a tirania de fantasmas mais velhos e poderosos e com a competição desenfreada por recursos pode ser demais para muitos fantasmas.

Por este motivo, muitos deles terminam mergulhando mais fundo ainda no Submundo, buscando abrigo da fome das Grandes Profundezas e de outros fantasmas mais agressivos. Eventualmente, eles chegam aos Domínios Mortos, encontrando imunidade à constante drenagem de Essência que o Submundo toma de seu Corpus, porém, submetendo-se a um Kerberos que governa aquele Domínio Morto e às Leis Antigas que ele defende, e muitas vezes, essas Leis não prescrevem uma existência mais agradável ou confortável para o fantasma.

A miséria de existir no Submundo é inevitável, um fantasma não possui muitas opções para escolher, e todas elas possuem desvantagens consideráveis e perigosas. Não importa aonde o fantasma vá, sempre haverá alguém para abusar dele. Por este motivo, ao ver um Devorador de Pecados que pode não apenas ajudá-lo a escapar do Submundo, mas também ajudá-lo a resolver seus negócios inacabados e pendências no mundo dos vivos, fantasmas imploram pela nossa ajuda, e muitos de nós atendem seus apelos.

Porém, nossa existência não é constante. Considerando que para um Geist selar uma Barganha com um mortal a beira da morte, criando um Vinculado, é necessária uma quantidade considerável de ressonância da morte, pode se dizer que a nossa existência é temporária, nós surgimos nos períodos de maior mortalidade da humanidade, e desaparecemos a medida que a velhice clama cada um de nós e a situação que causou nosso surgimento termina.

Isso significa que às vezes, fantasmas passam por longos períodos de tempo sem encontrar Devoradores de Pecado para ajudá-los, e a única alternativa é sobreviver no Submundo ou ser obliterado por ele. Assim, muitos fantasmas procuram por formas de escapar da miséria de sua condição sem ajuda de Devoradores de Pecado, e alguns deles encontram duas formas de fazer isso.

Uma destas formas é quando um fantasma decide beber das águas dos Rios do Submundo. Como já te expliquei anteriormente, caro leitor, as águas dos Rios do Submundo são tóxicas para fantasmas, mergulhar nelas dissolve a Essência preciosa do Corpus de um fantasma, porém, beber destas águas pode subir o Posto Sobrenatural de um fantasma, concedendo-lhe poder se ele puder sobreviver ao toque dissolvente das águas necróticas.

Alguns fantasmas, contudo, bebem mais fundo ainda destas águas. Na busca por um poder que vai permitir a eles sobreviver ao Submundo e retornar ao mundo dos vivos. Alguns fantasmas bebem tão fundo dos Rios, que não é apenas os seus Corpus que começam a se dissolver nas águas, mas a sua própria identidade começa a ser lavada.

Memórias, desejos, personalidade, tudo é levado e dissolvido pelo Submundo, e no lugar delas, o Submundo preenche o fantasma com a sua Essência Cthônica, soterrando os vestígios de uma pessoa debaixo de litros e litros de veneno das Grandes Profundezas. Ele não é mais apenas um fantasma, ele é um Geist agora.

Perdendo sua conexão com a própria humanidade, o Corpus do Geist muda e se deforma, abandonando a forma que lembrava a sua vida e como ela terminou, e assumindo uma nova forma pesadelar e monstruosa que apesar de ser vagamente humanoide, reflete mais o arquétipo de um tipo de morte do que uma pessoa.

Isso significa dizer que Geists são criaturas arquetípicas, e a sua natureza tem forte ligação com um aspecto da morte do que um ser humano, por exemplo, Geists representam a Morte pro Asfixia, a Solidão da Morte, a Decadência dos Enfermos e assim por diante. Este arquétipo que o Geist assume é literalmente parte da sua natureza, influenciando grande parte das suas interações com o Devorador de Pecados, os vivos e com outros fantasmas.

Ao mesmo tempo, a pessoa que o Geist costumava ser não é totalmente obliterada pela transformação, ainda existindo sufocada pela ressonância corrupta do Submundo em algum lugar. A medida que o tempo passa, e a Sinergia da relação entre o Devorador de Pecados e o Geist se desenvolve, os vestígios de humanidade do Geist começam a ressurgir, e ele começa a recobrar algum senso de identidade e compreensão a respeito do mundo.

O motivo de alguns fantasmas virarem Geists é que eles transcendem grande parte das limitações impostas a fantasmas comuns. Eles também tornam-se mais poderosos que o fantasma normal sendo capazes de portar Chaves, utilizar Influências esotéricas, utilizar Assombrações e manifestar-se sem a necessidade de Condições.

Mas o poder mais impressionante de um Geist é o de selar Barganhas com mortais na beira da morte para criar Devoradores de Pecado. Ao fazer isso, o Geist retorna ao Mundo dos Vivos mais uma vez, habitando o corpo destes Vinculados no lugar que a alma deles ocupava antes da sua morte, experimentando e vivenciando cada sensação sentida pelo Devorador de Pecados como se o Geist também houvesse voltado à vida.

Mas virar Geist não é a única alternativa que o Submundo fornece a fantasmas que desejam mudar a sua condição. Às vezes, um fantasma começa a sentir alguma afinidade pela malícia que exala do próprio Submundo. Alguns acham que se o Submundo existe, deve haver alguma razão superior para isso, ou que os vivos e mortos devem realmente se manter separados para que haja alguma espécie de equilíbrio, ou ainda, que os mortos merecem o Submundo.

As Grandes Profundezas e seus Deuses Cthonianos olham de volta para estes fantasmas simpáticos à sua malícia. Aos poucos, fantasmas que repetem a doutrina dos Deuses Cthonianos e do Submundo, ganhando seguidores entre os mortos, são recompensados. Talvez algum detrito com uma quantidade absurda de Essência chegue aos braços de um fantasma doutrinador, ou ele aprenda algum Nume estranho e poderoso que ninguém mais conhece e assim por diante.

Mas a recompensa final, que permite a fuga destes fantasmas que se aliam ao Submundo vem na forma de uma Máscara da Morte, um Memento poderoso de extrema raridade. O fantasma pode apenas encontrar uma destas Máscaras meio soterrada na areia nas beiras de um dos Rios da Morte, ou descobrir que um dos seus seguidores a deixou como oferenda no seu altar, mas ele sempre a encontra de alguma forma.

Ao colocar a Máscara da Morte em seu rosto, no entanto, algo amedrontador, e ao mesmo tempo, empoderador, acontece com o fantasma. No momento que a Máscara toca o seu rosto, toda a sua personalidade é lavada pelo Submundo, similar ao que acontece com o Geist. O núcleo de sua identidade, o seu sentido de individualidade e de humanidade, tudo isso é varrido pelo poder da Máscara da Morte, sendo preenchido por um único axioma: “O Mortos pertencem ao Inferior”. O fantasma não é mais ele mesmo, agora, ele é um Ceifador.

Assim como um Geist, enquanto o Ceifador veste a sua Máscara da Morte, o seu Corpus se distorce assumindo formas completamente inumanas, muitas vezes sequer humanoides, inchando e contorcendo-se para conter todo o poder do Submundo.

Ao contrário do Geist, a transformação em Ceifador não causa uma confusão com relação a identidade, pois a pessoa que o fantasma era é completamente obliterada daquele ponto em diante, não restando qualquer esperança de resgatá-la. Mesmo que o Ceifador retire a Máscara e seu Corpus volte ao estado original, sua mente é movida unicamente pelo objetivo de arrastar todo e qualquer fantasma no Mundo dos Vivos para as profundezas do Submundo, o que torna Ceifadores ainda mais determinados e eficientes.

Ao vestir a Máscara da Morte, o Ceifador canaliza uma quantidade absurda do poder do Submundo, rivalizando com o poder de um Geist. Os Portões Avernianos não podem prender Ceifadores, eles andam o Mundo dos Vivos e dos Mortos livremente, e quando estão no Mundo dos Vivos, o seu serviço ao Submundo os protege de sangramento de Essência, mesmo sem Âncoras para sustentá-lo.

Quando estão no mundo dos vivos, Ceifadores estão caçando fantasmas que ainda estão protegidos por uma Âncora. Ao encontrá-los, Ceifadores destroem suas Âncoras direta ou indiretamente, e, utilizando seus poderes de Engolfar, aprisionam o fantasma no interior do seu Corpus, numa perturbadora semelhança ao que o Submundo faz com fantasmas que não possuem Essência, e os levam para as Grandes Profundezas.

Ceifadores são uma ameaça não apenas para os mortos, mas suas atividades frequentemente prejudicam os vivos também, na medida em que estão dispostos a destruir, matar e arruinar qualquer pessoa viva ou morta que interfira com sua caçada, e não tem preocupação alguma com o dano colateral causado aos vivos durante a caçada de um fantasma.

O poder mais terrível de um Ceifador é a sua capacidade de arrastar áreas inteiras do mundo dos vivos para o Submundo. Às vezes quando há uma grande quantidade de fantasmas num mesmo local, ou, o Ceifador fica impaciente na caçada de um fantasma bem protegido, ele é capaz de convocar o poder do Submundo e forçar a área inteira a afundar direto para as Grandes Profundezas, a terra literalmente se abrindo e engolindo todas as pessoas vivas e mortas que habitavam aquele lugar e arrastando todos para o Submundo.

Especula-se que vários episódios da história envolvendo catástrofes naturais que apagaram do mapa civilizações ou cidades inteiras, foram resultado de grandes operações de Ceifadores que se juntaram para fortalecer o seu poder e arrastaram cidades inteiras para o Submundo.

Devorando Pecados

A maior tragédia para os fantasmas que buscam tornar-se Geists ou Ceifadores para sobreviver ao Submundo é que, embora de fato ambos libertem-se de algumas das limitações impostas a outros fantasmas, e no caso dos Geists, cheguem muito próximos de viver novamente, o preço que pagam por esta falsa liberdade é um aprisionamento ainda mais cruel ao Submundo, que deixa de ser seu mero carcereiro e passa a fazer parte da própria existência do fantasma.

Cada Geist e cada Ceifador, são em maior ou menor escala, partes do Submundo, o que apenas realça a importância da nossa responsabilidade de devorar os pecados dos mortos. Sem Devoradores de Pecado para guiar os mortos, eles estão todos condenados a serem obliterados no Submundo; transformarem-se em tiranos e abusadores para sobreviver ao Submundo, ou, abrirem mão de sua identidade para se transformarem em seres que irradiam a energia Cthônica das Grandes Profundezas.

Como nós conseguimos ver e interagir com os mortos, nós temos como saber exatamente o que eles precisam. Além disso, o poder da Barganha nos dá as ferramentas para resolver cada negócio inacabado que nos comprometemos a finalizar.

Uma vez que estes negócios são concluídos e a Âncora do fantasma é finalizada, ele ganha imunidade ao sangramento de Essência no Mundo dos Vivos, indicando que o peso da Existência não tem mais poder sobre o fantasma e não pode empurrá-lo através dos Portões Avernianos.

E para finalizar a estadia do fantasma na terra, e concedê-lo um final definitivo, nós temos o poder de realizar a Cerimônia de Passagem, na qual, um fantasma que esteja completamente resolvido consigo mesmo e esteja pronto para seguir adiante, parte deste mundo para o que quer que nos aguarde após esta Cerimônia.

O que nós concedemos a estas pessoas é paz, descanso, uma conclusão. Não é o oblívio sufocante e aterrorizante de ser engolido pelo Submundo, mas a sensação de que seu tempo na terra já passou, e você está pronto para seguir em frente desta vida.

Nós somos igualmente importantes para o nosso Geist, pois embora seja um desafio muito maior compreender o que um Geist quer e quem ele era em comparação com um fantasma, é um trabalho que ninguém mais pode fazer, nem mesmo o próprio Geist é capaz de discernir quem ele era antes de se tornar um Geist, mas nós podemos ajudá-lo e muitos de nós fazemos isso.

Ajudar um Geist a recuperar o seu senso de identidade é uma tarefa difícil, que requer uma Sinergia entre Vinculado e Geist bem consolidada, assim como um esforço genuíno do Devorador de Pecados para interpretar os fragmentos de Relembrança do Geist e estudá-los, compreendê-los e fazer o Geist compreender também.

A despeito de ser uma tarefa difícil, ajudar um Geist a se reconectar com a sua humanidade perdida é a única forma que ambos o Devorador de Pecados e seu Geist podem ter um descanso. Mesmo que o Vinculado tenha resolvido seu Fardo e feito suas pazes com o seu destino, o Geist fez a Barganha na intenção de resolver sua Relembrança também, e um não pode descansar se o outro ainda tem trabalho para fazer.

Uma vez que o Vinculado e o Geist resolvem todos seus negócios inacabados, da mesma forma que outros fantasmas, ambos o Geist e o Devorador de Pecados podem simplesmente seguir adiante, deixando seus Fardos e Relembranças para trás, reconhecendo com serenidade que seu tempo na terra terminou, e que estão prontos para abraçar o que quer que a realidade tenha guardado para ambos após.

Ou não, alguns de nós simplesmente nunca descansam. Enquanto o Submundo ainda existir e fantasmas ainda forem abusados por eles, ainda há trabalho a ser feito, e mesmo em paz com nossos Fardos e Relembranças, um Devorador de Pecados unido ao seu Geist, e organizados numa Krewe podem tentar mudar o mundo para sempre, desafiando os Deuses Cthonianos e modificando o Submundo para sempre. Todas as tentativas conhecidas falharam, mas muitos de nós se recusam a abraçar a serenidade do além, e decidem colocar a sua oportunidade de descansar em paz de uma vez por todas em risco para salvar os vivos e os mortos do mundo.

Espero leitor, que eu tenha sido capaz de te comunicar a verdade sobre os mortos, e feito você repensar a forma como a nossa cultura nos ensinou a pensar a respeito deles. Mas saiba que existem outras culturas, criadas eom conjunto com vivos, mortos e nós, Vinculados, na forma de Krewes, o tema sobre o qual conversarei com você na minha próxima postagem.

Até lá, longos dia s e belas noites.

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