Espada & Magia: O Mundo de Osia

Ano Novo… Novos Mundos!

Saudações bípedes, criaturas pensantes, detentoras de polegares opositores e formas de vida baseadas em carbono!

Quem vos fala é Stefan Costa, e como prometido, não demorei muito para voltar aqui ao Mundos Colidem, e desta vez escrevo empolgado enquanto contabilizo os lucros da dungeon passada (entendedores entenderão, kkk). Após minha última postagem que, admito, foi a mais fraca até agora, pensei em caminhar por uma nova trilha.

Como licenciado em Geografia, sou particularmente interessado em dois ecossistemas distintos, devido às suas extensas variedades: Os Desertos e as Ilhas/ Arquipélagos, o que naturalmente gera um interesse pelo mar em si.

É esse ecossistema que será o nosso tema de hoje, mas não como era de se esperar. Embalado no hype marítimo, decidi criar um mini cenário com temática submarina, adaptando diversos conceitos de fantasia e elementos da nossa querida Espada & Magia.

É isso mesmo que você leu… temática submarina, não marítima ou naval, mas sim algo no melhor estilo Aquaman e Namor. Se você achou estranho, já adianto que não é algo que se encontra com frequência; na verdade, é bastante raro. Eu mesmo só achei dois artigos que davam apoio a qualquer ideia de se aventurar ou mesmo de se estruturar uma civilização submarina.

No entanto, isso é compreensível, quer dizer, atualmente sabemos mais sobre o espaço e a superfície da lua do que sobre o fundo dos oceanos. E nesse campo, mal arranhamos a superfície da real natureza e geografia de 3⁄4 do nosso planeta. A fantasia, assim como a imaginação humana, sempre buscou um terreno desconhecido para se pautar, e nesse caso ainda temos 70% do nosso mundo a explorar.

Mas em que um cenário assim se diferencia do tema Espada & Magia? Em pouca coisa, na verdade.

Partindo do princípio de que estaremos lidando com humanos / humanóides com capacidade fisiológica para respirar embaixo d’água e resistir a grandes pressões, o resto se resolve com certa facilidade e uma boa dose de criatividade. Sei que outros cenários apresentam raças aquáticas e monstros marinhos (elfos-do-mar e afins), mas a minha proposta é trazer um destaque para este ambiente que seja mais do que uma simples nota de rodapé ou um suplemento que se lê apenas por curiosidade.

Sugestões
  • a série de documentários Planeta Azul;
  • mitos e lendas sobre a Atlântida, Lemúria ou outros povos submarinos;
  • uma pesquisa sobre o tema na Wikipedia;
  • este artigo sobre civilizações submarinas;
  • o Espada & Magia do Raphael Lima.

Contudo, este texto contém ideias de trechos de dois artigos distintos. Normalmente, eu apenas me inspiraria neles, mas como neste caso os artigos são relativamente “genéricos”, feitos para serem adaptados para o cenário que o leitor / mestre desejar — e sendo esse o caso — resolvi desenvolver um cenário completo, partindo diretamente das ideias contidas ali, mas com o meu toque pessoal.

O motivo disso, além do que foi citado acima, se deve ao fato de o mesmo apresentar ideias e conceitos que acredito que valham a pena ser creditados aos seu autor, assim como imagino que vou preservar minha originalidade ao fundir os dois artigos e modelar isso em um cenário que seja rico e interessante para os jogadores e mestres — que por acaso — fiquem empolgados com o filme do Aquaman, ou que procurem ambientes e ideais diferentes para suas partidas.

Sem mais delongas, vamos ao…

Mundo de Osia

A Origem

Em tempos ancestrais, em eras há muito esquecidas, o mundo de Osia não era muito diferente da nossa antiguidade, com impérios, reinos e cidades-estados governados por oligarquias, cada uma com suas características culturais e interesses próprios.

Mas um dia, sem nenhum aviso além de um breve sinal luminoso no céu noturno, uma “grande montanha” se chocou contra a terra, causando uma devastação que se espalhou por dezenas de nações, lançando aos céus nuvens de poeira e toxinas, que foram carregadas pelos quatro ventos e tornaram todas as terras sob inabitáveis para todo o ser vivente.

Em face da morte iminente, um conclave de poderosos mestres arcanos e místicos puseram suas diferenças de lado e juntos, por meio de um complexo ritual, conjuraram um poder primal que permitiu aos poucos humanos que restaram, sobreviver no único ambiente capaz de manter a vida — o oceano.

Do dia para a noite, todo homem e mulher ainda vivo foi transformado em uma criatura marinha, meio-homem e meio-peixe, uma nova raça… Os Aquaticus Sapien.

Com a superfície agora inabitável, os novos humanos prosperaram nas profundezas dos mares. Com sua fisiologia totalmente adaptada para o ambiente subaquático, eles agora eram os senhores dos oceanos. Os Aquaticus Sapien, inicialmente, não diferem de um ser humano como conhecemos, mas pontos importantes de sua anatomia foram alterados, tendo guelras na altura das costelas, membranas os dedos da parte anterior dos dedos dos pés e das mãos, bem como olhos revestidos por uma película que permite que enxerguem com mais nitidez na água, bem como em ambientes escuros. Sua musculatura mais densa e resistente a baixas temperaturas, também permite uma certa tolerância à pressão, mas grandes profundezas oceânicas também são mortais a eles. Preferem águas de regiões mais tropicais, embora possam se aventurar em todos os ambientes.

Quando migraram para os oceanos muito de seu conhecimento passado foi perdido em meio ao êxodo e à destruição de suas antigas cidades. Tudo isso, somado ao choque da transformação repentina, fez com que muitas etnias sucumbissem a um estado primitivo e bárbaro, fazendo com  que a civilização recomeçasse o seu caminho, mas dessa vez sob as correntezas dos oceanos.

Com o tempo, os Aquaticus Sapien aprenderam a domesticar e construir com os recursos que o novo ambiente lhes fornecia, bem como conviver com as novas raças que ali habitavam.

A Civilização

Geograficamente, o mundo subaquático guarda poucas diferenças em relação aos oceanos do nosso mundo, sendo que em Osia eles ocupam cerca de 85% da superfície do planeta, em grande parte devido aos maremotos e terremotos gerados pela queda do meteoro, além das duas luas em sua órbita, tornando os dias mais longos e as marés mais fortes.

No decorrer de milhares de anos, os Aquaticus migraram lentamente do barbarismo de volta à civilização, com grupos de cidades, vilas e comunidades, que funcionam de maneira feudal e formam uma espécie de estado, ligado política e militarmente. O líder desse estado é eleito entre as grandes famílias e denominado de Proteus.

Suas construções parecem frágeis à primeira vista, mas a sua arquitetura se baseia na água servindo de suporte para parte do peso das estruturas, assim como acontece com baleias. Além do escambo, usam pérolas como uma espécie de moeda em sua economia, embora também aceitem moedas encontradas em navios naufragados. Sua alimentação, baseada no consumo de peixes e algas, vem da agricultura e piscicultura.

Costumam montar suas comunidades em recifes e atóis, mas não é raro encontrar cidades nas profundidades do mar aberto, cada uma com suas próprias rivalidades e alianças de facções na política interna.

Em sua religião, acreditam que o céu azul é o oceano dos deuses e que o ar venenoso que os separa é obra de deuses malignos e de demônios. Chamam seu deus-pai de Poseidon e creem que ele vive cercado de nereidas, oceânidas e náiades. Acreditam que a chuva é um momento sobrenatural, onde o grande deus derrama suas bênçãos com a água celestial sobre o oceano, embora a maioria dos Aquaticus jamais tenha cogitado se aproximar da superfície.

Quanto à tecnologia os Aquaticus têm como base a domesticação de ostras gigantes, dotadas de um par de órgãos, sendo um deles elétrico, similar ao corpo de uma enguia; ligado a outro órgão gêmeo, composto de um material ferromagnético, gerando um campo magnético. Uma ostra comum filtra a água marinha para comer através do seu órgão magnético, bem como para filtrar metais da água. A concentração de ferro na água do mar é tal que cinquenta mil metros cúbicos nos dão um quilo. Em um mês, uma ostra gera uma “pérola metálica” de ferro revestido com níquel e/ou cobalto (que também são magnéticos) para resistir à corrosão.

O mesmo tipo de domesticação e criação que deu a humanos o milho, cavalos e cães é usado para criar ostras que produzem pérolas metálicas na forma de lâminas ou placas para armaduras. Tal como pérolas comuns, que possuem muitas formas e cores, as ostras menores são usadas como bainhas ou empunhaduras das lâminas, restaurando rachaduras e mantendo o fio das armas.

Tipos raros, ou exóticos de ostras teriam a capacidade de reforjar nódulos de manganês, também chamados de nódulos polimetálicos, resultado da deposição de óxidos de ferromanganês e de outros elementos no solo dos oceanos. O manganês, entre outros usos, é empregado na composição de aço, permitindo que as ostras forneçam lâminas mais resistentes e duráveis.

Na falta de combustão para gerar luz, essa civilização poderia domesticar organismos bioluminescentes como lulas e corais. A riqueza de substâncias no oceano compõe a base da alquimia e química, provendo remédios, pigmentos e o mesmo tipo de concreto usado pelos romanos, que endurece embaixo d’água. Tudo começa quando o equivalente marinho de Aristóteles propõe que os elementos fundamentais são água, ar, terra e magnetismo, combinados e recombinados para formar tudo o que existe.

A partir disso, diversos tipos de substâncias artificias puderam ser criadas como roupas e ornamentos, bem como uma espécie de papiro feito de algas, uma grande variedade de drogas, medicamentos e até mesmo bebidas alcoólicas.

As Ameaças

Apesar de serem a maior população no mundo submarino, os Aquaticus não são a única raça sapiente que habita os mares. Entre seus inimigos está uma peculiar raça de cefalópodes de tez negra capaz de expelir tinta ácida é chamada de Koa, cuja fabulosa mente é voltada para a crueldade e vilania, graças à uma religião voltada ao culto das monstruosidades que habitam as fossas abissais, onde se encontram suas maiores cidades.

Outro inimigo bem mais comum são os Qrab (pronuncia-se Kr-a-be), uma espécie de crustáceos semi-humanóides com uma belicosa cultura bárbara, sendo a mais numerosa que disputa espaço com os Aquaticus, preferindo construir suas aldeias em locais rochosos com barreiras naturais. Não são uma cultura unificada, com tribos em constantes conflitos entre si e não sendo incomum manterem relações tensas ou pactos com outros povos. Suas armas e ferramentas são feitas de coral, algas, ossos e couro.

Os Abissais são outra raça que oferece um perigo real aos reinos submarinos, até mesmo para os Koa, uma vez que consistem em uma horda de diferentes feras e seres humanoides de hábitos primitivos que atacam nas proximidades das fossas, mas em raras ocasiões, quando atiçados por forças naturais ou não. São conhecidos por suas cruzadas, conhecidas como Ondas de Sangue.

Além dos confrontos com essas e outras raças subaquáticas (insira sua sereia aqui!) Osia apresenta uma miríade de perigos para os personagens, seja na forma de fenômenos naturais, como correntes marinhas destrutivas, redemoinhos, terremotos e vulcanismos, que além de serem extremamente destrutivos, podem gerar efeitos secundários, como despertar grandes bestas marinhas ou seres pré-históricos em hibernação, além de criaturas raras e gigantescas.

Diversas bestas possuem órgãos elétricos, filtrando água marinha para respirar ou comer, além de obter ferrões metálicos e escamas em forma de placas para autodefesa ou até predação; algumas possuem dimensões gigantesco, sendo tidas como feras invencíveis para serem derrotadas por glória e metais.

No entanto nenhuma ameaça até hoje se mostrou mais mortal do que a chamada Maré Vermelha, uma grande nuvem escarlate de composição desconhecida que varre toda a forma de vida que cruze o seu caminho, deixando um rastro de corpos em seu caminho, onde reinos inteiros sucumbem da noite para o dia — embora existam casos de seres e criaturas que entraram em contato brevemente com essa nuvem e foram deformados em monstruosidades aberrantes.

Magia

A maior parte do conhecimento arcano e das religiões dos tempos da superfície foram perdidos, poucos deles relacionados ao mar e precariamente preservados ao longo de milênios, de modo que muito foi perdido, para nunca mais ser redescoberto. Deuses e pactos antigos se perderam para sempre. Nos dias de hoje, os conhecimentos alquímicos  — onde os Koa são mestres — são muito mais difundidos, embora exóticos o suficiente para serem vistos como místicos por muitos.

A magia ainda existe, mas seu conhecimento é fragmentado, seus praticantes constantemente buscam novos tipos de poder e feitiços antigos, registrando-os cuidadosamente. Do tempo da superfície restam apenas pedaços de informação que resistiram ao tempo por terem sido entalhados na rocha ou em placas de barro, que se mostravam um mistério ancestral já nos tempos antigos.

Em um mundo como Osia, a magia segue uma tradição oral, com sua esfera de conhecimento considerada marginal, em especial quando não é relacionada à religião; sendo que o culto de Poseidon é o mais difundido, tornando a magia como uma arte sutil mas poderosa, seguindo as bases da alquimia e tendo uma maior interação com o ambiente e os fenômenos que cercam seu praticante.

Conjurar criaturas, elementais, emular habilidades de criaturas marinhas, conjurar efeitos ambientais ou mesmo manipular mentes, manipular de diferentes formas a água que os envolve, bem como poderes específicos advindos de algum patrono, são alguns dos tipos de magia que se pode encontrar nos mares de Osia, embora poucos acreditem neles além das superstições. Sua força é real, e como o mar, deve ser respeitada e temida.

Em termos de jogabilidade, os componentes materiais, itens mágicos, pactos com entidades, focos arcanos e quaisquer outros tipos de mecânicas tradicionais de outros cenários também possuem seu espaço, seja como produto da mistura de biologia/alquimia ou da pura tradição arcana.

Apesar disso recomendo que o sobrenatural seja tratado de uma forma mais dúbia, favorecendo aventuras low fantasy, quer dizer…

Em tese, você está jogando com humanos submarinos, isso já não é fantástico o bastante?

Tipos de Aventura

Por nos ser tão desconhecido e ao mesmo tempo tão familiar, o oceano é um palco perfeito para criar um mundo completamente diferente do tradicional ao mesmo tempo em que ele nos é tão familiar, de modo que não consigo deixar de imaginar que, senão todos, a maioria das tramas das aventuras que ocorrem na superfície também podem ocorrer nos oceanos.

Dito isso eis alguns exemplos:

  • Investigar, a mando de um Nomarca, ruínas de alguma cidade em busca de algum artefato ou documento importante;
  • Um culto tem aterrorizado vilarejos nas proximidades de uma cidade, as autoridades oferecem uma gorda recompensa aos interessados em resolver o problema. No entanto, boatos afirmam que é comandado por um feiticeiro que consegue dominar a mente de suas vítimas;
  • Um bando de saqueadores Qrab vem aterrorizando diversas aldeias nas proximidades de uma grande floresta de algas. Os PJs são enviados, na companhia de um guia, para captura-los e trazê-los à justiça;
  • O membro de alguma gangue ou cartel criminoso que faz trabalhos sujos no submundo das cidades ou busca sua ascensão na organização contrata os PJs para ajuda-lo;
  • Um Qrab mercenário luta em favor das cidades-estados para honrar uma aliança firmada com seu povo, ainda que não seja bem visto pela população local;
  • Após uma noite de loucuras em Coralia, os PJs acabam endividados com um poderoso agiota local, sendo obrigados a completar um serviço sujo para se verem livres da dívida;
  • Um culto aos seres abissais tem vitimado nobres e mercadores importantes das cidades; os PJs são chamados para combatê-los;
  • Um príncipe Koa oferece uma aliança e um tratado de paz com a cidade de Tritonis, mas há facções que se opõem à união e há aqueles que duvidam da verdadeira intenção do monarca;
  • Um grupo se reúne para caçar uma serpente marinha cuja pele é revestida de escamas metálicas, antes que ela alcance uma grande cidade — ou em busca de glória e metais raros;
  • Uma erupção vulcânica desperta um monstruoso kraken que passa a assolar diversas aldeias, exigindo tributos para aplacar sua fúria;
  • O herdeiro de um nomarca parte em busca de uma relíquia de seus ancestrais, uma ostra-bainha capaz de produzir espadas de aço — e está contratando qualquer um que possa auxilia-lo;
  • Um mestre alquimista está sendo perseguido por um príncipe Koa que almeja suas criações e pede ajuda aos PJs.

Antagonistas

Alguns exemplos de fichas de inimigos que podem ser encontrados na maioria das aventuras.

Qrab: Territoriais bárbaros crustáceos PVs: 20, ATAQUE: Espada (dano 6) ou Garra (dano 6). VANTAGEM: Armadura Natural, Fúria DESVANTAGEM: Armas de coral e ossos. HABILIDADES ESPECIAIS: Possuem força e resistência privilegiadas

Koa: Raça de cefalópodes inteligentes com sede de poder e que cultuam estranhas entidades abissais. PVs: 20, ATAQUE: Tentáculo, impacto (dano 4), Constrição (dano 6) ou Adagas (dano 8). VANTAGEM: Conjurar magias dos abissais, maestria em alquimia, estrategista; DESVANTAGEM: Arrogância e delírios de grandeza. HABILIDADES ESPECIAIS: Expelir tinta ácida.

Abissais: Horda de seres humanoides primitivos e hostis. PVs: 20, ATAQUE: Mordida (dano 4) ou Garras (dano 6). VANTAGEM: Ataque massivo em cardume; DESVANTAGEM: Inteligência Primitiva. HABILIDADES ESPECIAIS: bioluminescência.

Conclusão

Se você se deu ao trabalho de ler alguma das referências do início desse artigo já deve ter percebido como o fundo do mar é um ambiente diversificado e rico em aventuras. Tudo que acontece no mundo dos humanos também pode ocorrer debaixo d’água. Intrigas, traições, guerras, invasões, buscas, explorações, viagens, patrulhas, romances e tragédias. O mundo submarino também tem seus monstros, vilões e perigos. Há fossas abissais, vulcões submarinos, mares glaciais, florestas de algas, naufrágios e cidades engolidas pelo mar. Leve seus jogadores para um novo ambiente, com seres diferentes.

Predadores, poluição, descobertas, migrações, mudanças climáticas, explorações. O mar é um lugar fascinante. Um mundo à parte, pronto para ser trilhado por seres curiosos e corajosos.

Os que se preocuparam em acessar os links acima vão reconhecer muitas das citações acima, mas ao expressa-las faço das palavras desses autores minhas também, pois além de concordar deve dizer que antes de mais nada fui inspirado por eles.

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