Descida às Grandes Profundezas

Olá leitoras e leitores!
Meu nome é Rosamante e estou trazendo mais um relato das minhas viagens pra vocês. Na coluna de hoje, nós faremos uma descida mais detalhada nas Grandes Profundezas do Submundo, parte integral da segunda edição de Geist: os Devoradores de Pecado, um dos jogos que compõem o cenário geral das Crônicas das Trevas.
Pros leitores que não puderam ler a minha última postagem na qual a gente falou um pouco desse cenário e do próprio Submundo, não se desesperem, pois eu farei uma breve recapitulação do que foi dito sobre o Submundo faminto.
O Submundo é o local onde todos os fantasmas, de todas as pessoas terminam quando as suas Âncoras no mundo dos Vivos são destruídas. Para ele, não importa se você foi uma pessoa boa ou má em vida.
Dentro do Submundo, fantasmas são drenados aos poucos de sua Essência, e se estes não forem espertos ou determinados o suficiente para coletar mais e sobreviver em seus corredores cthônicos, as próprias paredes, chão e teto do Submundo avançam sobre o fantasma, prendendo-o em seu interior.
Quando isso acontece, o fantasma é lentamente digerido por dias até não sobrar mais nada. Eventualmente, a pobre sombra azarada é obliterada, transformando-se literalmente na paisagem que forma o Submundo, sendo permanentemente incorporada aos seus túneis e cavernas necróticas.
O Submundo, no entanto, não é apenas um sistema sofisticado de cavernas interconectadas. Na verdade, é uma dimensão própria e vasta, habitada por fantasmas que conseguiram sobreviver por séculos, formando sua própria cultura, arquitetura e sociedade, e também por criaturas estranhas e nativas do Submundo que sequer nasceram, mas já estão mortas.
Neste relato nós daremos uma volta pelo Submundo, iniciando nossa descida pelas suas regiões principais até o seu fundo.
Pegue minha mão e não a solte.

Os Portões Avernianos

Muitas histórias que falam a respeito de um reino de pessoas mortas utilizam a metáfora de um Portão separando o mundo dos vivos do mundo dos mortos, e elas não estão erradas em fazer isso. O Submundo de fato é acessado por portões, os quais nós chamamos de Portões Avernianos, onde as histórias erram é apenas na aparência destes limiares.
Os Portões Avernianos surgem em qualquer lugar tocado pela morte. Cemitérios são os mais comuns, mas necrotérios, abatedouros, campos de batalha, cenas de crimes, todos estes locais possuem pelo menos um Portão Averniano neles.
Porém, nenhum deles é feito por metais pesados nobres, nem cravejado de pedras preciosas, ou sequer adornados com frases macabras em latim. Na verdade, eles são bem discretos, surgindo sem pompa nem glamour, tomando formas estranhas adequadas às mortes e tragédias que serviram para a sua criação.
Na verdade, estes Portões são formados do mesmo material que forma os fantasmas, e portanto são invisíveis para a maioria dos vivos como você, leitor. Mas eles estão lá, trancados na maior parte do tempo, escorrendo água salobra de suas frestas, abrindo-se apenas para receber um novo fantasma que perdeu sua Âncora no Mundo dos Vivos, numa grande onda de água marinha que o empurra para dentro… ou, excepcionalmente, abrindo-se para deixar coisas mais estranhas saírem de suas profundezas para o Mundo dos Vivos.
Cada portão possui uma chave própria que pode ser descoberta por alguém capaz de perceber o portão e estudá-lo. Algumas chaves são materiais como a água nos pulmões de uma vítima de afogamento ou as penas de um pássaro já extinto, por exemplo. Mas, algumas vezes, estas chaves são mais abstratas como um poema recitado numa língua morta ou uma dança fúnebre feita sob a lua nova.
Se você é do tipo impaciente, saiba que existem formas de arrombar os Portões Avernianos se você não conhecer a Chave dele. Ocultistas amadores realizam sacrifícios na frente do Portão, o que funciona as vezes, mas não sempre, por isso só os mais degenerados e inescrupulosos tentam isso. Explodir ou destruir o Portão também funciona, deixando ele aberto pros dois lados por um tempo antes dele deixar de existir.
Mas o truque mais esperto é enganar o Portão evocando os símbolos do lado para o qual você quer passar. Do lado dos vivos, você só precisa lamentar a morte, realizar ritos funerários ou mórbidos, sentindo luto genuíno. Evocar o simbolismo da morte desta forma, perto de um Portão Averniano no Mundo dos Vivos, irá abri-lo mesmo sem a Chave. O contrário também é verdade do outro lado, bastando celebrar genuinamente a vida no Mundo dos Mortos para abrir o caminho de volta.

O Portão Averniano para o qual nós estamos indo fica na Fortaleza dos Reis Magos, um ponto turístico famoso na cidade de Natal.
Neste Forte, algumas batalhas ocorreram no decorrer da história, como a invasão holandesa na qual quinze navios holandeses vieram de Recife com uma tropa de 800 homens, numa batalha de terra e de mar para tomar o Forte, derramando muito sangue até a eventual rendição do comandante.
Não apenas as batalhas históricas, mas muita morte ocorreu no interior do próprio forte. Questões de saúde e higiene, execuções e torturas, todos estes contextos ocorreram no interior de suas paredes de cal e pedra, e em todos eles, pessoas morreram. Nosso portão fica no meio desta escadaria à esquerda, numa salinha escura com um fosso em seu centro, onde prisioneiros eram atirados.
Na maré alta, eles morriam afogados, mas com a maré baixa, eles encontravam seu desfecho nas pedras em seu fundo. Eu sei que pode ser difícil para você enxergar os Portões, mas olhe bem para o fundo deste poço. Não percebe que as pedras formam uma espiral quase perfeita? E que o lodo em seu fundo tem um aspecto mais avermelhado que deveria ter? Não consegue ouvir um eco no vento que sopra daqui de fora para dentro do fosso, quase como um pedido de socorro?
Pois bem, eis o nosso Portão, e a Chave dele exige que um de nós reze um terço inteiro em voz alta enquanto o outro bate um sino, no ponto mais alto da maré do dia, que é precisamente agora.
Percebe a água formando um turbilhão? Tingindo-se de vermelho como sangue? Não tenha medo, esta tranca é complexa, mas estamos abrindo, apenas continue a rezar e eu continuarei a badalar o sino. Está aberto, segure minha mão com firmeza e em nenhuma circunstância a solte.

Os Alcances Superiores

O turbilhão de água marinha nos engole, e nós sentimos a pressão da existência nos empurrando para dentro do portão. Somos cuspidos num corredor de pedras irregulares entalhadas como o do restante da fortaleza.
O corredor inclina-se para baixo, sempre descendo, a água da onda que nos empurrou para dentro escorrendo e levando consigo uma quantidade surpreendente de entulhos, objetos quebrados e lixo.

Estamos nos Alcances Superiores, o espaço liminar entre o Submundo e o Mundo dos Vivos, a porção superior destas Grandes Profundezas.

Este lugar é a primeira coisa que um fantasma vê ao entrar no Submundo, olhando para o Portão pelo qual adentraram, apenas para vê-lo fechado, com a luz do Mundo dos Vivos brilhando através de suas rachaduras e fendas, junto com a água salobra escorrendo destas, formando pequenos córregos e correntes de água que escorrem para baixo através dos túneis.

Todos os túneis dos Alcances Superiores sempre levam para baixo. Alguns podem ser mais íngremes que os outros, mas todos apontam para baixo, com água salobra escorrendo através deles e pingando do teto e das paredes. Você poderia cavar e tentar abrir um buraco em linha reta na parede, mas logo perceberia que é impossível e que quanto mais você cava, mais percebe que o seu buraco também leva para baixo, nunca em frente.

Outra coisa interessante sobre estes túneis, é que eles assumem uma aparência diversa, replicando um aspecto similar ao subterrâneo do lugar onde estão. Numa metrópole moderna, estes túneis pareceriam o sistema de esgotos ou túneis de metrô; numa casa eles poderiam parecer com um porão alagado mais longo que deveria ser, numa praia eles poderiam parecer cavernas de corais com areia e água do mar fluindo mais livremente entre eles e assim por diante.

Um detalhe que também merece atenção são os objetos quebrados e estragados que a água carrega com ela, sempre para baixo. Estas bugigangas e fragmentos costumavam ser itens estimados ou preciosos para as pessoas que os detinham.

Alguns destes destroços eram carros, celulares, casas, cadernos, lugares e objetos amados por seus donos, mas que foram quebrados ou perdidos, deixando um fantasma para trás, que eventualmente desmoronou para dentro do Portão Averniano mais próximo.

Caçar estes detritos é uma das formas dos Fantasmas no Submundo coletarem Essência preciosa, devorando o óleo do motor de um carro amado por seu dono mas que voou longe do carro após uma batida violenta; mastigando o vidro de uma taça de cristal herdada por gerações, mas quebrada por uma criança durante uma visita, ou, mordendo a orelha de um ursinho de pelúcia que costumava dormir todas as noites com uma criança até que os pais o jogaram no lixo.

Andar por estes túneis pode ser extremamente desorientador para a maioria das pessoas, pois quanto mais fundo se adentra neles, mais labirínticos eles se tornam, tornando sua travessia uma tarefa de alto risco.

Pessoas astuciosas que sabem desse detalhe costumam usar métodos específicos para atravessar esses corredores enigmáticos, como por exemplo, prestando atenção na arquitetura dos túneis e deduzindo detalhes sobre ela; perguntando aos fantasmas que encontrar pelo caminho, se o viajante mantiver o autocontrole ao interagir com estas sombras perigosas e souber em quais delas pode confiar, ou, apenas confiar em seus instintos de sobrevivência, utilizando táticas comuns de travessia subterrânea, ficando atento para fontes de luz e brisa soprando, por exemplo.

Alguns métodos de travessia, no entanto, estão disponíveis apenas para pessoas que não estão exatamente vivas e nem exatamente mortas, como eu. Nós Devoradores de Pecado portamos Chaves, expressões metafísicas de um certo arquétipo da Morte que fortificam nossos poderes.

Nós podemos usá-las tanto para abrir um Portão Averniano quanto para nos deslocar através dos Alcances Superiores. Quando nós giramos a Chave para atravessar os corredores do Submundo, nós podemos localizar qualquer fantasma que tenha morrido sob o arquétipo da Chave que usamos.

No entanto, convocar os poderes do Submundo tem o seu preço, e a Ressonância mortiça das Chaves que nos concede poder também nos amaldiçoa, nos colocando sob o julgo de uma Perdição, e por isso todos nós devemos ser muito sensatos quando decidimos destrancar as Portas do Submundo.

Pois bem, vamos prosseguir na nossa descida, cuidado onde pisa. Se você observar, estes túneis parecem com os corredores da Fortaleza, as paredes feitas de pedra e cal, com água escorrendo dos buracos e rachaduras, enquanto o chão é feito de rocha de arrecifes e areia da praia, com eventuais buracos onde a água se acumula.
Devemos andar com atenção, se perder nestes túneis é muito fácil. Repare na arquitetura do local, algumas vezes os túneis replicam alguns detalhes dela no mundo dos vivos. Por exemplo, eu sei que aqui os túneis formam o mesmo padrão de estrela da Fortaleza. lá em cima, e por isso estaríamos andando em círculos se ficássemos nas rotas principais. Nós só avançaremos se formos pelos caminhos mais estranhos e improvisados aqui.
Observe como fluem as correntes de água e como elas levam os celulares perdidos, ferro velho de veículos e vestidos de casamento arruinados para o fundo. Repare como mergulham em turbilhões de passagens inundadas e como atravessam frestas estreitas nas paredes. Estes são os caminhos que devemos tomar, sempre descendo.
Este truque, no entanto, não funciona sempre. Quanto mais fundo a gente desce, se distanciando dos Alcances Superiores, mais estas arquiteturas colidem e se misturam criando fusões estranhas que não deveriam existir no Mundo dos Vivos.
Você percebeu que estamos andando em lama e não mais em areia da praia e pedra? Que a água deixou de parecer só água do mar e está repleta de matéria orgânica escura? Que árvores de folhas verdes crescem das paredes com raízes expostas, mesmo sem sol? O mangue se mistura com a Fortaleza aqui, e prestar atenção na arquitetura não nos ajudará.
Para nossa sorte, esta área parece ser mais habitada, há vários fantasmas aqui. Muitos deles são do início da colonização do Rio Grande do Norte. A maioria deles são índios da tribo Potiguara que habitavam as praias do nosso Estado muito antes dos portugueses, mas que foram dizimados pelos colonizadores.
Repare como eles construíram uma pequena aldeia aqui com os materiais trazidos pelas correntes e com os materiais do próprio mangue mortiço aqui debaixo. Você está presenciando de primeira mão, a arquitetura indígena e os hábitos originais de seu povo, intocados pelas areias do tempo ou pelas interpretações históricas dos vivos lá em cima. Algumas vezes, mesmo em meio ao sofrimento e miséria deste lugar, você pode encontrar beleza.
Bem, precisamos falar com eles e perguntar onde fica a cidade de Solstício. Não, eu não falo tupi-guarani, mas meu Geist fala, eu só preciso gastar um pouco de Plasma para acessar esta habilidade dele. Eles indicaram que seguíssemos nesta direção, mantenha o passo firme para atravessarmos este lamaçal. Ali embaixo, você vê? Uma ponte enorme erguida sobre aquele rio de sal e brilhando com luz amarela e vermelha? Ali é Solstício, uma das maiores Cidades Ribeiras do Rio Grande do Norte, nosso destino.

Os Rios dos Mortos

As incontáveis correntezas de água fluindo nos túneis dos Alcances Superiores todas deságuam em um mesmo lugar: num dos Rios dos Mortos que correm pelo Submundo.

Este símbolo de um rio fluindo nos Reinos dos Mortos também é comumente utilizada em diversas civilizações da humanidade, mas desta vez não há nada de metafórico nas suas descrições, os rios de fato são vastos e largos, e suas águas não são seguras ou comuns.

As águas dos Rios do Submundo são formadas pelos mais absurdos e diversos materiais, havendo registros de rios que correm com sangue borbulhante, escorpiões, pétalas de rosas, pus, ou, no caso do Rio Grande do Norte, sal.
Beber destas águas amaldiçoadas pode conceder grande poder tanto para os vivos quanto para os mortos, mas como as Chaves dos Devoradores de Pecado, interagir com a essência cthônica do Submundo sempre tem seu preço.

Para os vivos, cada Rio os concede um efeito sobrenatural diferente em conjunto com uma pequena maldição.
O Rio de Sangue os intoxica com uma paixão e uma fúria inigualável que apesar de conceder bônus para os seus ataques e investidas físicas, mas, em contrapartida, inebria sua mente, enfraquecendo a capacidade cognitiva, reduzindo sua faculdade de raciocinar;

O Rio dos Escorpiões requer que o vivo engula um escorpião ainda vivo, sofrendo envenenamento em seu corpo, mas garantindo visões proféticas induzidas pela peçonha;

O Rio de Pus concede proteção contra fantasmas, tornando o vivo tão repulsivo que sequer os mortos tem vontade de aproximar-se dele, porém, quaisquer feridas sofridas pela pessoa que bebe de suas águas automaticamente se inflamam e começam a vazar pus, impedindo qualquer processo curativo de ferimentos por meios naturais.
Para os mortos, os Rios não concedem pequenos benefícios sobrenaturais. Ao invés disso, beber das águas dos Rios concede poder material e quantificável para os fantasmas.

Quando um fantasma bebe do Rio dos Mortos, ele sobe o seu Posto Sobrenatural em 1 ponto permitindo que ele se diferencie e se torne mais poderoso que outros fantasmas de postos menores, assim como possa acumular e utilizar mais Essência.

No entanto, fazer isso é altamente arriscado, pois as águas dos rios são tóxicas para o fantasma, infligindo danos horrendos e dolorosos em seu corpus, de forma que nem todos os fantasmas que tentam aumentar seu poder bebendo de um rio, sobrevivem.

Embora seja uma manobra arriscada, existem fantasmas fortes e desesperados o suficiente para não apenas beber uma parte das águas dos mortos e subir de Posto, mas de se embriagar nestas águas, beber muito e beber fundo, preenchendo seu Corpus com a água do Submundo.

Estes fantasmas não sofrem apenas o dano corporal de beber das águas dos Rios, mas também um dano existencial, a medida que a água corrente leva com ela toda a personalidade e memória do fantasma, lavando tudo que restava de sua humanidade.

O restante destes fantasmas é preenchido com a própria Essência do Submundo. A forma do fantasma se modifica na de uma criatura inumana e arquetípica, ao mesmo tempo mais e menos que um fantasma comum, um Geist.
Isso mesmo, os pequenos Deuses da Morte com os quais nós Devoradores de Pecado fazemos nossas Barganhas surgiram assim, de um fantasma comum que bebeu de um rio muito mais que qualquer fantasma deveria, tornando-se uma representação pura de um tipo de Morte, uma pessoa soterrada debaixo de toneladas de veneno do Submundo.

Por fim, os rios não são apenas corpos de água metafísicas e estranhas que contém magia dos mortos. Eles também são o lar de criaturas estranhas nunca nascidas, mas, ainda assim, mortas. Os habitantes nativos do Submundo, que chamamos Cthonianos.

A despeito de partilharem algumas características em comum com outros fantasmas, como um corpo de efemeridade e poderes necróticos que se manifestam como Numes, os Cthonianos não tem nada em comum com os fantasmas imigrantes do Submundo.

Cthonianos não possuem formas humanoides, assumindo, ao invés disso, formas de imagens distorcidas da morte, putrescência e decadência. Vermes com quilômetros de cumprimento portando rostos de humanos deformados, ondas de escaravelhos colossais que devoram tudo em seu caminho, formas indefinidas voando no teto das cavernas mais altas do Submundo identificáveis apenas pelos gritos aterrorizados de centenas de pessoas, e assim por diante.

O corpo de um Cthoniano é tóxico para fantasmas, dissolvendo com seu toque qualquer efemeridade advinda do Mundo dos Vivos. Um único Cthoniano é capaz de desfazer uma Cidade Ribeira inteira se ela for formada em sua maioria por fantasmas de objetos, obliterando fantasmas de pessoas comuns que não consigam sair do seu caminho.

Ironicamente, este mesmo corpo dissolvente do Cthoniano também secreta Plasma, o produto residual da Essência de um fantasma após ser utilizada para uma Manifestação ou um Nume. Nós Devoradores de Pecado armazenamos Plasma em nossos corpos e o utilizamos para ativar nossos poderes mortiços, o que torna Plasma uma mercadoria preciosa para vender em suas cidades ribeiras. Por esta razão é comum que hajam congregações inteiras de fantasmas seguindo a trilha de um Cthoniano e coletando o Plasma secretado pelo seu corpo.

Uma curiosidade que confirma a natureza alienígena dos Cthonianos, é que eles não parecem se importar com esses fantasmas os seguindo, da mesma forma que são indiferentes à destruição que causam quando invadem uma Cidade Ribeira. Para eles, são apenas obstáculos em seu caminho, a maioria deles sequer tem capacidade de se comunicar, aqueles que possuem raramente se dão ao trabalho.

Estas congregações que seguem o Cthoniano geralmente terminam em um dos Rios do Submundo. Cthonianos são imunes à Dissolução dos Rios, e utilizam-nos para deslocar-se, e recuperar-se após longos períodos de atividade, o que nos leva a crer que eles são nativos dos Rios.

Pise com leveza agora, as margens deste rio são apenas faixas de sal cristalizado. São extremamente frágeis, correndo o risco de desmoronar com nosso peso a qualquer segundo, e eu não consigo sequer imaginar os efeitos que um mergulho total num Rio teria sobre um vivo como você.
Ignore as estátuas de sal, nas margens do rio e os montes que parecem mãos ou rostos pedindo ajuda, isso são apenas resquícios de fantasmas que tentaram a sorte bebendo as águas dos rios e não suportaram a transformação, ou que mergulharam acidentalmente após o sal desmoronar sob seus pés.
Espere, não se mova. Finja que é mais uma das estátuas e não olhe para a sombra nadando abaixo de nós. Pronto, ela seguiu o caminho dela, acho que é seguro seguirmos para Solstício, estamos quase lá, já posso ver as luzes de velas misturadas com a luminescência de luzes de emergência, sinalizadores e lampiões iluminando a cidade.

As Cidades Ribeiras

Pode ficar mais tranquilo aqui, essas estruturas improvisadas misturando pedra, argila e concreto que formam essa ponte gigantesca pode parecer precária, mas sustentam esta Necrópole a mais tempo que nossos anos de vida combinados. Ninguém irá mexer com você enquanto você estiver perto de mim.
Os fantasmas daqui são mais jovens que os que encontramos nos Alcances Superiores, a vida em algum tipo de urbe atrai os mortos recentemente, uma tendência do mundo dos vivos que se repete aqui. Porém, estas sombras mais jovens não são os poderes que comandam Solstício.
Esta cidade foi formada na época colonial, por tribos indígenas que foram mortas pelos colonizadores e apagadas da história, os fantasmas dos indígenas que fundaram a cidade pertencem a tribos que sequer aparecem nos livros de história, por isso, que se você observar, as bases da ponte são de uma estrutura que não podemos identificar no mundo dos vivos.
A maioria deles viraram Geists, inclusive o que fez a Barganha comigo veio desta cidade, mas alguns deles ainda permanecem aqui, agindo como autoridades na cidade, reinando sobre os servos dos fantasmas dos colonizadores que viram a mesa do poder girar totalmente quando morreram e foram recebidos pelas vítimas e seu processo de colonização agressivo.
A maioria dos fantasmas dos portugueses e piratas franceses foram destruídos ou canibalizados, os que restaram, hoje em dia prestam trabalho para os fantasmas destas tribos em troca da Essência para sobreviver.
Vamos descer um andar desta ponte, indo em direção ao Rio na sua base. Neste andar é o Mercado do Alecrim, nomeado pelos fantasmas mais jovens numa tentativa de refletir um pouco do mundo dos vivos aqui embaixo, sua arquitetura feita de pedra negra com musgo crescendo nos buracos, imitando uma arquitetura de um armazém holandês.
Este é provavelmente um dos mercados mais prósperos no Submundo regional, muitos Devoradores de Pecado do resto do Estado viajam até aqui para comprar curiosidades estranhas. Garrafas de plasma, Mementos curiosos e raros, armas e relíquias de outras décadas, informações e memórias de fantasmas anciões e até mesmo Assombrações.
O Mercado foi criado inicialmente por um grupo de fantasmas holandeses, mas a maioria deles foram destruídos por um Cthoniano que demoliu grande parte do Mercado séculos atrás. Hoje poucos dos comerciantes originais permanecem, mas geralmente estes são os que possuem as mercadorias mais valiosas e que já possuem uma certa fortuna em Essência.
Muitos dos fantasmas mais jovens tentam se estabelecer no Mercado, mas poucos conseguem autonomia de verdade, a maioria acaba trabalhando pros mercadores mais antigos em troca de Essência. Os poucos que conseguem se estabelecer como figuras autônomas e importantes possuem alguma negociação com alguma Krewe de Devoradores de Pecado.
Vamos prosseguir, um dia iremos parar para explorarmos melhor a cidade, mas por enquanto, devemos seguir na direção do cais da Cidade de Solstício.

As Cidades Ribeiras são grandes aglomerações de Fantasmas que se formam nas margens dos Rios dos Mortos, organizando uma área urbana construída a partir dos restos mortais de milhares de culturas esquecidas, reformadas em mosaicos culturais e históricos improvisados que formam as estruturas das cidades.

Para fantasmas que não possuem capacidade ou astúcia para sobreviver nos corredores coletando Essência, as Cidades Ribeiras oferecem uma alternativa de refúgio. Entretanto, isso não quer dizer que existir nas Cidades Ribeiras é mais simples ou mais seguro. Muitas vezes, estas cidades são governadas por leis reforçadas por fantasmas egoístas e cruéis, que exigem pesados impostos pagos em Essência pela permanência de outros fantasmas em seu território.

Às vezes, os regentes da cidade são fantasmas violentos e agressivos que governam a cidade com base na lei dos mais fortes, vivendo em total desordem fantasma em que qualquer um que tenha força e capacidade de impor sua vontade, pode fazê-lo sem limites ou freios. Estas cidades acabam implodindo muito antes de um Cthoniano atravessá-la.

Apesar das dificuldades inerentes de se viver numa sociedade faminta, violenta e destrutiva no Submundo, as Cidades Ribeiras também representam a possibilidade de contato com outros fantasmas experientes, que podem ter muito a ensinar para os mortos mais jovens e inexperientes.

Além disso, as cidades representam alguma oportunidade de ganhar Essência de alguma forma, especialmente se o fantasma necessitado possui alguma habilidade ou conhecimento útil para as sombras detentoras de grandes quantidades de Essência na cidade.

A existência na Cidade Ribeira também significa maiores chances de encontrar com outros seres que visitam as Grandes Profundezas, como Devoradores de Pecado, ou até mesmo pessoas vivas como Necromantes, que podem, de alguma forma ajudar os fantasmas a cumprir objetivos que eles estão enfraquecidos demais para cumprir.
Por fim, viver numa Cidade Ribeira, por mais que implique um risco de violência dentro da própria cidade, também protege fantasmas de perigos maiores que poderiam encontrar vagando sozinhos pelos túneis do Submundo, como algum Cthoniano agressivo, algum Ceifador misterioso ou qualquer entidade horrenda vagando pelo Submundo.

E por estas razões, as Cidades Ribeiras, a despeito de todos os seus problemas são destinos populares para fantasmas, especialmente fantasmas de pessoas que morreram recentemente e precisam de alguma orientação ou significado para suas novas existências.

Os fantasmas que governam estas cidades por sua vez, Reis Mercadores que acumulam quantidades absurdas de Essência e Influência em suas mãos mortas, são figuras formidáveis, concentrando grandes quantidades de poder e informação no Submundo.

Estes fantasmas, por estarem livres do medo constante de não ter a Essência necessária para sustentar sua existência no Submundo, possuem mais tempo disponível para aprender mais sobre sua existência e sobre o próprio Submundo, desenvolvendo Numes e poderes estranhos que servem para consolidar ainda mais seu poder sobre a cidade, assim como se tornando grandes fontes de conhecimento sobre a natureza da Morte e do próprio Submundo.

Estas lideranças fantasmas também possuem o hábito de reservar as mercadorias mais raras, excepcionais e poderosas para si mesmos, utilizando-as para exercer poder em seu território. Ao mesmo tempo, estes fantasmas mercadores fazem questão de espalhar a informação da sua propriedade de tal item pelas Sombras que visitam ou moram em suas cidades, na esperança de atrair clientes igualmente raros e poderosos.

Essa estratégia funciona em certa medida, e cedo ou tarde, os Reis Mercadores entram em contato com entidades e seres estranhos que a maioria dos fantasmas menos influentes sequer sonham em conhecer. Ceifadores os procuram para obter informações sobre Devoradores de Pecado, Krewes inteiras os procuram para negociar valores e informações preciosas, ou mesmo outras criaturas vivas como Magos são clientes mais ou menos frequentes dos Reis Mercadores.

Por fim, devido às suas grandes reservas de Essência e poderes estranhos e exóticos, os Mercadores Reis tendem a governar legiões de fantasmas dentro das Cidades Ribeiras, por meio de políticas de favor e empréstimos. Isso torna estes Fantasmas Mercadores adversários poderosos para qualquer Devorador de Pecados enfrentar, e cuja remoção imediata da sociedade de uma Necrópole pode levar a efeitos sociais imprevisíveis e destrutivos.

Chegamos ao Cais de Solstício, não dê atenção aos Barqueiros, nós não pagaremos por travessia hoje. Não, eu assumirei esse papel para você, leitor, é uma parte curiosa da minha natureza de Devorador de Pecados, o Submundo permite que nós possamos assumir este papel metafísico, o que na nossa jornada será de imensa importância, já que é impossível descer mais fundo no Submundo sem navegar pelos Rios, na direção dos Domínios Mortos.
Mas ao assumir o papel do Barqueiro, eu também me torno sujeito às regras seguidas por estas figuras, e eu não posso nos transportar sem um pagamento, pois é o tratamento que faz a nossa viagem ser segura das águas dos Rios, o seu pagamento fará com que os Cthonianos nadando no sal apenas nos observem nosso barco sem atacá-lo.
Como pagamento, eu irei te pedir algo simples, cante uma música que você ame com todo o seu coração enquanto navegamos. Você esquecerá esta música ao fim da nossa viagem, Leitor, ela será minha, mas nós chegaremos ao nosso destino seguros.
Importante eu mencionar agora, mas durante a viagem, você verá pessoas e cenas se desenrolando nas margens do Rio. Serão cenas representando histórias e cenas comumente tocadas pela Morte e pela Tragédia. Amantes morrendo por amor, soldados morrendo em guerras, a pessoa doente cercada por sua família numa cama de hospital, pessoas aparentemente saudáveis cometendo suicídios.
As narrativas sobre a Morte que vemos e reconhecemos todos os dias possuem poder, e nós vemos esse poder se materializar aqui embaixo nestas cenas, repetindo-se eternamente, até alguém assumir a responsabilidade de um dos papéis e tentar quebrá-la. Eu já fiz isso uma vez, mas requer dedicação e tempo, ambas coisas que nós não temos hoje, quem sabe numa segunda visita, não é mesmo?
Vamos, estamos quase no fim da nossa jornada, já posso ver os Portões do Teatro do Caos diante de nós.

 


Os Domínios Mortos

Às vezes nem mesmo as Cidades Ribeiras se provam alternativas viáveis para alguns fantasmas. Talvez eles cansaram de trabalhar incansavelmente para pagar os impostos de um Rei Mercador, talvez eles não possuíam nenhuma habilidade valiosa ou do interesse dos líderes das Cidades Ribeiras, talvez os seus corações mortos foram despedaçados após perder um companheiro fantasma para as águas dos Rios.

Qualquer que seja o motivo, fantasmas que não querem viver nos túneis dos Alcances Superiores nem nas Cidades Ribeiras ainda podem recorrer aos Domínios Mortos.

Os Domínios Mortos são como reinos erguendo-se acima das águas dos rios, nas Mistérios Inferiores do Submundo. Alguns destes Domínios possuem pequenas correspondências temáticas com diferentes submundos de mitologias humanas como os campos elísios gregos ou o próprio inferno cristão.

Mas na maioria das vezes, os Domínios são apenas planos mortiços alienígenas sem qualquer correspondência mitológica, como torres negras e mecânicas cercadas por campos de rosas vermelhas; ruínas de cidades de basalto negro, inundadas pelas águas dos rios; florestas tomadas por névoa vermelha com cheiro de enxofre e assim por diante.

Diferentemente das Cidades Ribeiras, e do restante do Submundo inteiro, os fantasmas que habitam os Domínios Mortos não precisam gastar um ponto de Essência diariamente para impedir o Submundo de devorá-los.

Em troca da imunidade que recebem, os fantasmas habitantes dos Domínios Mortos devem obedecer às Leis Antigas do Domínio. Todo Domínio possui uma norma que vincula todos que habitam ou visitam o seu Território de forma absoluta; não importam as circunstâncias, acontecimentos, fatos que estejam ocorrendo, as Leis Antigas não devem, em hipótese alguma, ser violadas.

Estas Leis são informadas nos Portões de cada Domínio, onde os visitantes ou imigrantes devem pagar um preço por sua entrada após ouvir o teor das Leis do Domínio. Estas Leis, por sua vez, podem ser compostas por diversas normas, desde “Nenhuma palavra deve ser falado nestes Domínios” até “Pessoas de cabelos negros devem manter os olhos fechados o tempo inteiro”. Desde que os fantasmas que habitam ou visitam o Domínio obedeçam suas Leis Antigas, sua imunidade está garantida.

Aqueles que violam as Leis Antigas, não apenas sentem a sua imunidade ser suspensa, mas também devem responder pela sua transgressão diante do Kerberos, o juiz, governante e executor do Domínio, cujas penas impostas sobre os transgressores muitas vezes envolvem destinos terríveis.

Os Kerberoi são regentes tiranos responsáveis por resguardar as Leis Antigas e governar todos fantasmas habitantes do seu Domínio. Eles são semideuses da Morte, sendo capazes de controlar toda a estrutura física do Submundo dentro do território do Domínio.

Sua autoridade e poder rivaliza com a dos Deuses Cthonianos, tendo a capacidade de sentir sempre que alguém viola uma das Leis Antigas do seu Domínio. Sua sensibilidade à transgressão é tão intensa que os Kerberoi são capazes de sentir a localização do transgressor em qualquer ponto do Submundo inteiro, não apenas no território do seu Domínio.

A aparência dos Kerberoi não possui nada de humana, mas podem conter formas humanoides adornando as suas visagens alienígenas, como numa serpente gigante formada de inúmeros esqueletos humanos, ou, um triângulo flutuante de metal formado por três formas humanoides ligadas por cordões de carne e mecanismos.

Devido às suas aparências obviamente destituídas de humanidade e a ausência de uma mentalidade vagamente humana, não se sabe até hoje se os Kerberoi foram humanos em algum ponto de sua existência.

A única coisa que é evidente sobre sua natureza é que eles estão ligados intrinsecamente aos seus Domínios, resistindo à maioria das compulsões de deixá-lo mesmo para se deslocar para outros lugares no Submundo, sendo incapazes de atravessar Portões Avernianos para o Mundo dos Vivos, e, punindo todo e qualquer transgressor de suas Leis Antigas.

Existir num Domínio pode parecer uma alternativa mais viável que nas Cidades Ribeiras, afinal, tudo que um fantasma deve fazer é pagar o preço da entrada e seguir as regras não é mesmo? Bem, não exatamente, poucos Domínios são locais agradáveis, confortáveis ou justos com seus habitantes.

Claro, eles estão protegidos da drenagem de Essência do Submundo, mas estão sujeitos a trabalhos abusivos, forçados, degradantes e até mesmo sacrificantes para manter o Domínio funcionando, sob a supervisão eterna de um Kerberos inumano e aterrorizante.

Além disso, assim como nas Cidades Ribeiras, a existência de uma Domínio dos Mortos não é garantida nem eterna, e muitas vezes, basta alguns fantasmas não desempenharem o seu papel adequadamente na manutenção do Domínio, ou o Submundo decidindo que o Domínio já cumpriu o seu propósito, e em alguns momentos o Domínio inteiro é engolido por uma enchente de um dos rios dos mortos, desmoronando pra dentro das águas levando tudo que está lá dentro com eles.

Pode ser que isso não ocorra em milhares de anos, mas eventualmente, todos Domínios decaem e o Submundo clama tudo e todos em seu território.

Um fantasma usando uma bela roupa de bailarina rasgada, suja e comida por traças, e uma máscara de uma boneca de porcelana comida pelo mofo nos espera diante de um portão de ônix preto que impede nossa passagem. Ouça bem, ele nos diz que na Pirâmide do Caos, nenhuma agressividade pode ocorrer, física ou social, apenas diversão é permitida, e todos visitantes e habitantes devem estampar um sorriso em seus rostos.
Isso é muito importante, Leitor. Não esqueça de sorrir o tempo todo enquanto termina de ler este trecho do texto, senão eu e você estaremos com um problema gravíssimo nas mãos, eu realmente não quero irritar a Kerberos deste Domínio.
Pois bem, o Porteiro também está nos cobrando um preço para entrar, ele diz que nós não podemos entrar sem um espírito elevado, e que, ao passar pelos Portões, todas nossas sensações negativas serão esquecidas, e apenas diversão e alegria dominará nossos corações. Eu não serei afetado por isso, a minha Barganha com meu Geist me garante imunidade destes efeitos, mas você será afetado, e por isso é importante que saiba, que não importa o quão divertido esteja sendo, você precisa fazer o que eu digo, e mantenha o sorriso no rosto sempre, eu farei o mesmo.
Os portões se abrem, e nosso barco chega a uma baía com diversos outros barcos coloridos e ricamente iluminados. Fogos de artifício explodem no céu cavernoso anunciando nossa chegada, e vozes animadas de alegria nos saúdam dos outros barcos.
Nós aportamos no cais diante de uma gigantesca pirâmide de ônix preto, do interior da qual se houve o som de música, conversas animadas e ópera.
Venha, devemos desembarcar, preste atenção nos fantasmas com as faces deformadas e feridas para manter um sorriso eterno, ou naqueles que usam aparelhos mecânicos estranhos e dolorosos permanentemente em seus corpus para manterem-se sorrindo.
Isso são as Penas impostas pela Diva Primadonna, a Kerberos daqui, e é o que nos espera se você não continuar sorrindo enquanto lê este trecho…não que eu ache que eu precise te lembrar, já vejo o sorriso radiante em seu rosto.
Venha, eu vou te levar através dos corredores contendo inúmeros espetáculos e performances sendo feitas por fantasmas, mas nós só viemos visitar a Diva, e o palco principal fica no topo da Pirâmide.
Lá está a Diva Primadonna, sua silhueta gigantesca, beirando quatro metros ou mais de altura, usando um longo vestido vermelho rasgado, com horrores flutuando no interior dos seus véus e tentáculos se espalhando por debaixo dele e se estendendo para o palco, o rosto formado literalmente por uma máscara de teatro, que está sempre sorrindo, até que alguém viola as Leis Antigas do Domínio, tomando a forma de uma máscara triste. Seu abdômen formado por cordas de violões e teclas de piano onde deveriam haver ossos, e duas mãos monstruosas e desproporcionais em carne viva.
Ouça bem a sua ópera, você lembrará dela para sempre, e após isso, nos encaminharemos pra última parada da nossa Descida.

O Oceano de Fragmentos

Todos os rios terminam no mar no mundo dos vivos, e no Submundo, esta regra não é diferente. Todos os rios confluem, necessariamente para o Oceano de Fragmentos, o ponto mais profundo de toda a existência, e nossa última parada, Leitor.

As águas negras e profundas do Oceano de Fragmentos escondem os segredos de toda a história da humanidade desde que as primeiras pessoas e objetos começaram a morrer.

Mas ninguém vivo, morto ou Devorador de Pecados jamais foi capaz de explorar esses segredos, pois o Oceano de Fragmentos não apenas dissolve os mortos que nele adentram, mas também consomem, em poucos momentos, a identidade, as memórias e a própria existência de todos, vivos e mortos, que nele mergulham.

As Águas do Oblívio literalmente consomem a capacidade humana de cognição, ou seus atributos físicos, gradativamente tomando sua capacidade de pensar, de sequer lembrar que existe, comendo cada músculo do seu corpo, depois cada osso, membrana e tecido, e você sequer consegue sentir dor, porque o Oceano também lava a sua capacidade instintiva de compreender o fenômeno dor, e assim segue até não restar nada.

Até mesmo outras criaturas sobrenaturais como eu não estão imunes a estes efeitos, com as águas desfazendo nossas próprias conexões com o sobrenatural. Um vampiro poderia mergulhar e deixar o Oceano lavar todos os traços do vampirismo do seu corpo, e se ele for sortudo, ele pode emergir das águas humano novamente… ou mais provavelmente, se perder tentando encontrar novamente as margens e aos poucos ser dissolvido completamente até não restar nada.

A vastidão do Oceano de Fragmentos é imensa, e a ausência de estrelas ou pontos cardeais em seu céu torna a navegação nele quase impossível, suas águas são navegadas apenas pelo Almirante e sua tripulação, uma entidade capaz de navegar as Águas do Oblívio, mas que não é famoso por permitir a volta daqueles que encontra à deriva.
Dizem que um Cthoniano colossal e ancião nada nas profundezas do Oceano, chamado de Leviatã, e todos aqueles que navegam eu seu território com exceção do Almirante arriscam atrair sua fúria, arriscando serem arrastados pras profundezas do Oceano por ele até não restar mais nada.

Se você for sortudo o suficiente para resistir aos efeitos do Oceano até Leviatã te levar ao fundo do oceano, talvez você tenha um vislumbre no princípio fundamental do oblívio antes do seu derradeiro fim.


Aqui concluímos nossa viagem, leitor! Não soltem minha mão, e os levarei de volta ao Mundo dos Vivos, mas lembrem-se do preço para que eu possa navegar de volta pelos rios, e desta vez, cobrarei como pagamento que vocês voltem para ler o meu próximo relato.

Belas noites e se cuidem!

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