Crianças Enxeridas RPG: Jogando Hilda e usando o atributo Sobrevivência

Olá, eu sou o Lima, Raphael Lima

Saudações para as 3d4-2 Crianças Enxeridas que acompanham essa coluna traquina, conhecida nesta comunidade como A Caixa do Lima. Primeiramente, gostaria de desejar a todos vocês um feliz 2020, na medida do possível que se possa ter um 2020 de felicidades no Brasil. E neste retorno aos trabalhos no Mundos Colidem neste ano que se inicia, vamos abrir a coluna falando sobre Crianças Enxeridas RPG em uma singela adaptação para o cenário do Luke Pearson, onde ele nos presenteou com uma menina enxerida de nome Hilda.

Onde mais precisamente, vamos falar sobre o atributo Sobrevivência, e como ele pode ser utilizado em sua mesa de jogo.

Os que já andam por aqui há muito tempo, conhecem o Crianças Enxeridas RPG e a sua evolução desde que era apenas um rascunho nas mesas de sábado a noite com a minha filhota Marianna, e o viram se tornar um minijogo, e posteriormente, viram o nascimento de sua versão expandida. As possibilidades de uso do atributo Sobrevivência apresentado neste artigo, surgiram da mesa de Hilda, jogada com a minha filhota neste verão.

Mas o que chegaram aqui pela primeira vez, não se desesperem — nós também pensamos em vocês, e por isso vou fazer uma apresentação do jogo.

Crianças Enxeridas RPG: Edição Expandida

A maioria das pessoas acompanhou em sua infância, desenhos animados onde um grupo de crianças investiga fatos misteriosos em seu bairro ou cidade, e em muitas dessas crianças, havia o imaginário popular do seu bairro, com lendas que os adultos contavam para manter as crianças longe de alguns locais onde não deviam ir, e evitar coisas que elas não deveriam saber. Mas muitos de nós somos Crianças Enxeridas e decidimos investigar essas lendas e viver grandes aventuras. Essa temática não está presa a apenas um grupo ou época, pois são vários desenhos animados que podemos citar ao longo dos últimos trinta ou quarenta anos, como Scooby-doo, Hilda, Gravity Falls e (por que não) Stranger Things.

Crianças Enxeridas é um jogo de autoria do coletivo Mundos Colidem, desenvolvido para ser jogado com crianças, fruto das sessões de RPG no sábado a noite com a minha filha, tendo a proposta de abordar de forma simples a temática das referências já citadas.

Mas o jogo espalhou-se e ganhou jogadores de todas as idades e locais, tanto que a sua versão minijogo já está disponível em inglês, francês, espanhol e italiano no Drive-Thru RPG. A versão em português do minijogo vocês podem encontrar gratuitamente no Dungeonist, acompanhado de materiais de suporte, como aventuras (A Lenda do Alma de Gato, Horror em Sanhauá e A Ilha do Sapo Rei) e ficha de personagens.

Sistema

O Crianças Enxeridas (CE) usa um sistema de regras desenvolvido pelo Mundos Colidem — carinhosamente apelidado de Lima System — que dá vida aos minijogos do coletivo, que podem ser encontrados no Drive-Thru RPG e no Dungeonist, no modo Pague o Quanto Quiser. O sistema de regras funciona com o uso de dois dados de vinte lados (2d20) e os jogadores podem escolher um dos quatro arquétipos existentes para os seus personagens: Esportista, Nerd, Líder e Café com Leite. Cada personagem possui cinco atributos: Corpo, Mente, Carisma, Sobrevivência e Curiosidade, onde os jogadores devem distribuir vinte e cinco pontos, podendo ter cada atributo um valor máximo de treze pontos. Em CE, o narrador não rola dados e os jogadores devem superar as dificuldades rolando o dado e somando seu resultado com o valor do atributo adequado à ação. A soma dos dois deve ser maior que o valor da dificuldade fixa, igual a quinze.

A Edição Expandida

A segunda edição do Crianças Enxeridas contém o mesmo conteúdo de regras, mas com o acréscimo de um capítulo voltado para a explicação de O que é RPG? e um outro para ajudar a narrar as suas histórias usando as regras do CE. A edição expandida foi ilustrada por Leander Moura e diagramada por Petras Furtado, ambos participantes da produção da primeira edição do minijogo Crianças Enxeridas.

Ele tem a proposta de ser um livro didático voltado para iniciantes, com apenas 50 páginas e uma diagramação nostálgica, lembrando um caderno escolar, ideal para fazer anotações nas bordas e colar adesivos.

Hilda e Amigos

Jogando Hilda

Hilda é uma animação britânica-canadense baseada em uma HQ de mesmo nome, ganhadora de vários prêmios e criada por Luke Pearson (que trabalhou na equipe de Hora da Aventura). Foi lançada no Brasil em 2017, pela Quadrinhos na Cia, enquanto a animação, produzida pela Silvergate Media e Mercury Filmworks, é exclusiva da Netflix. A série conta a história da aventureira Hilda, uma garota de cabelos azuis que, com seu corça-raposa chamado Twig (que na tradução virou Túlio), viaja por um vasto deserto mágico cheio de elfos e gigantes, voltando sempre para a agitada cidade de Trolburgo, onde ela encontra novos amigos e criaturas misteriosas.

A primeira temporada, de 13 episódios, chegou ao Brasil em 2018, apresentando histórias que envolvem criaturas mágicas da mitologia européia, onde Hilda e seus amigos Frida e David cumprem missões do grupo de escoteiros pardais. Durante suas aventuras, eles encontram várias criaturas mágicas, como o Grande Corvo (Pássaro Trovão) o Homem de Madeira, o Rei Rato, Espíritos Elementais, Dragões, Elfos e Gigantes.

A segunda temporada será lançada em 2020, e já foram divulgados os títulos dois primeiros episódios: capítulo 1: Troll Circle e capítulo 2: The Witch. Em 2019, Hilda ganhou o prêmio BAFTA de Animação.

Usando os Pontos de Sobrevivência

Durante as sessões de verão, onde o objetivo da aventura era que os escoteiros pardais descobrissem porque todas as pessoas de Trollburgo estavam agindo como zumbis, o atributo Sobrevivência foi essencial no desenrolar da trama, pois foi usado para abrir portas, encontrar escadas naturais e aproveitar elementos do cenário para escapar do Espírito do Pesadelo. Na aventura, o antagonista havia roubado a memória de todos os cidadãos e trancado todas dentro de um baú com correntes, para impedir que fosse aberto. No desenrolar da aventura, os escoteiros pardais tiveram que contar segredos para o Rei Rato em troca do local onde as memórias estavam escondidas.

Sim, a Mari joga com os quatro personagens ao mesmo tempo, e tem horas que ela começa um diálogo entre eles e me diz, “vai papai, você agora é a Frida“.

Com base na experiência desta aventura, pensei em escrever esse apontamento sobre o uso de Sobrevivência em Crianças Enxeridas, por ser um dos atributos do sistema mais usando no cenário, pois com seus pontos, os personagens são capazes de fazer intervenções na história.

O atributo Sobrevivência é a capacidade do jogador de mudar a história. Cada ponto de Sobrevivência gasto durante o jogo permite refazer uma rolagem ou acrescentar algo na história (uma pista por exemplo). Os pontos de Sobrevivência são renovados na próxima sessão de jogo.

Crianças Enxeridas RPG – Edição Expandida, pág. 22

Hilda e Twig

Os pontos de Sobrevivência, além de serem usados para re-rolar os dados em caso de resultados insatisfatórios para o jogador, também podem ser usado para acrescentar algo à história, que é o que vamos abordar.

Uma Pista

Durante uma investigação, os jogadores podem gastar um ponto de Sobrevivência para solicitar mais pistas ao narrador sobre algo que está sendo investigado. Isso inclui armadilhas, passagens secretas e qualquer outra coisa que possa estar no local.

Exemplo: Hilda está procurando a foto da família que o fantasma pediu para deixar de assombrar Trollburgo. Ela olhou pela casa inteira e não encontrou, então a jogadora decide gastar um ponto de Sobrevivência para solicitar uma pista ao narrador. Ele diz, “você observa que há um livro de cabeça para baixo na prateleira empoeirada“. Quando a personagem decide puxar o livro, ouve um clic! e uma passagem secreta se abre na sala.

Equipamento

Durante uma ação, os jogadores podem gastar um ponto de Sobrevivência para para afirmar que o personagem possui um equipamento, desde que seja algo coerente com o seu arquétipo e de fácil acesso.

Exemplo: o grupo está perdido na floresta e não consegue encontrar a direção para retornar a Trollburgo. Então a jogadora de Frida, decide gastar um ponto de sobrevivência e declarar que tem uma bússola. Como ela é uma escoteira pardal, e tem o arquétipo líder, ela pode sim ter facilmente uma bússola na sua mochila.

Elemento de Cena

Durante uma cena, os jogadores podem inserir elementos narrativos, gastando um ponto de Sobrevivência.

Exemplo: os escoteiros pardais estão presos em uma caverna, onde um troll enfurecido vem em sua direção. O jogador de David decide gastar um ponto de Sobrevivência para “colocar” ou “inserir” (como vocês acharem melhor) uma saída no teto que pode servir para fugirem do troll, “vejam, tem uma abertura no teto da caverna!” Mas como eles vão chegar até a abertura? A jogadora de Hilda decide gastar um ponto de Sobrevivência para inserir pedras salientes na parede da caverna, que podem servir como uma escada natural para alcançarem a abertura.

Manter a Ação

Os jogadores podem gastar um ponto de Sobrevivência para manter o status conseguido com uma rolagem em uma ação anterior.

Exemplo: o jogador de David está fugindo do Espírito do Pesadelo dentro da escola, então ele declara que vai tentar se esconder, e descreve sua tentativa. Logo em seguida, faz uma rolagem com o atributo apropriado para a ação e consegue sucesso. Mas o espírito ainda sente a presença de David e segue procurando. O jogador decide que não vai sair do local, e gasta um ponto de Sobrevivência para se manter escondido ao invés de fazer várias rolagens durante a busca do espírito.

Hilda Correndo

Ganchos de Aventuras

Ganchos são ótimos para começar uma aventura, ajudando o narrador com aquela crise de criatividade ou com pouco tempo para preparar sua aventura. Então, segue abaixo uma tabelinha com quatro possibilidades de aventuras, além das fichas de personagens para Hilda, Frida, Alfur e David.

Role 1d20Gancho
1-5As pessoas em Trollburgo estão agindo como zumbis, pois suas memórias foram roubadas. O Grande Corvo está com amnésia, mas ainda lembra do Rei Rato e que ele sabe todos os segredos da cidade. Na verdade, o Espírito do Pesadelo roubou as memórias e as prendeu em uma caixa mágica escondida nos esgotos.
6-10Os elfos estão desesperados. Alfur recebeu uma carta que relata que os trolls estão destruindo a suas casas. Aparentmente, uma criança troll foi sequestrada, causando toda essa confusão. Agora, os escoteiros pardais precisam ajudara desvendar o mistério, já que ninguém sabe que a criança não foi roubada — ela se escondeu.
11-15Um gato com a pelagem vermelha apareceu em Trollburgo, e está perseguindo os escoteiros pardais. Quando investigado, o gato desafia os escoteiros para um jogo que consiste em descobrir qual o maior segredo do Rei Rato. O gato vermelho quer usar o Rei Rato para descobrir os segredos de todos os moradores de Trollburgo — inclusive dos personagens.
16-20Um fantasma está assombrando Trollburgo. E para deixar de assombrar a cidade, ele pede aos escoteiros pardais que recuperem um item na casa da floresta. Mas a casa é mágica, capaz de mudar a forma de cada um de seus cômodos quando é aberto. Mas o que o fantasma quer? Uma foto de sua família.

Conclusão

Crianças Enxeridas tem a proposta de ser um RPG simples, para ser jogado com crianças ou em jogos para introdução de novos jogadores no RPG. Para saber mais sobre ele, escute o episódio no Café com Dungeon sobre o Crianças Enxeridas, que realmente vale a pena ouvir, além de assistir à sessão de jogo no Canal do Vertente Geek.

Se quiser, pode comprar a Edição Expandida em formato Digital ou Físico. Mas se preferir apenas as regras básicas, você pode baixar o minijogo gratuitamente no Pague o Quanto Quiser (Dê um trocado para o seu Lima). E se precisar de aventuras prontas, escolha uma (ou todas) das três aventuras disponíveis gratuitamente no Dungeonist: A Lenda do Alma de Gato, Horror em Sanhauá e A Ilha do Sapo Rei.

Até Breve!

😉

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