Construindo Personagens e Cenários em Crianças Enxeridas

Olá, eu sou o Lima, Raphael Lima.

Retornamos a esta caixa de ideias em sua primeira aparição deste ano, da forma como terminamos o ano passado: falando sobre jogos autorais do Mundos Colidem. E já que o papo é sobre as nossas produções, vamos logo trazendo notícias sobre um dos jogos mais esperados deste coletivo, sim, senhoritas, senhoras e senhores, estamos falando do Nova Amsterdã (NA), um cenário que traz o mythos de Lovecraft para o Nordeste brasileiro durante a dominação holandesa, usando o sistema do Fate Acelerado.

E se você ainda não sabe o que é o Nova Amsterdã e ficou curioso com a sua proposta, este é o momento para aprender mais sobre ele.

Vamos às atualizações do NA: o texto está concluído e revisado, assim como as ilustrações feitas pelas mãos do talentosíssimo Miguel Rude e de algumas ilustrações adicionais de Leander Moura (como o mapa de Nova Amsterdã) e do Daniel Júnior (O Observador). O livro encontra-se em processo final de diagramação, sob a batuta do renomado Dan Ramos, correndo o risco de ficar pronto antes deste texto chegar ao conhecimento de vocês (calma, nós vamos dar uma segurada para ele só vir depois). Assim que o arquivo digital estiver concluído e passar pela avaliação final da equipe, ele será disponibilizado nas lojas virtuais do MC.

Mas enquanto isso não acontece, vamos falando de outros jogos autorais do coletivo — e nessa postagem, vamos conversar sobre Crianças Enxeridas.

Crianças Enxeridas (CE) é um minijogo de minha autoria, que está disponível para download gratuitamente no DriveThru RPG e no Dungeonist, usando o sistema de regras Lima System (LS), que usa dois dados de vinte lados, diagramado pelo Grand Papa Smurf Petras Furtado e ilustrado por Leander Moura (sou fã desse cara). Os amantes de Bastet, frequentadores deste espaço de diálogos, já estão bem familiarizados com os nossos jogos mínimos e as suas mecânicas de regras, apresentadas de forma bem peculiar no CE, como o uso dos famosos d20, atendendo a pedidos de muitos colaboradores.

O Crianças Enxeridas é um jogo dedicado aos meus filhos Mari e Theo, com suas escolhas de design de regras feitas com base nas sessões da campanha de Hora da Aventura, narradas ao longo do ano de 2018 para a minha filhota e nas experiências em narrativas para crianças em idades escolares diversas.

No veraneio, temos o hábito de fugir um pouco da cidade e passar uns dias na praia — e nas noites quentes deste verão, começamos uma minicampanha de CE, que resultou em algumas ideias para construção de personagens e também para a construção de cenários, que pretendo apresentar a vocês nessa postagem.

Então, vamos nos aventurar?

 

Construindo Personagens

Um dos motores imóveis desta postagem foi uma pergunta que surgiu em umas das redes sociais de RPG da comunidade brasileira:

existe algum RPG que atenda as necessidade de um grupo formado por crianças de 6, 7, 8 e 9 anos?

Minha resposta foi o Crianças Enxeridas.

Nas regras para construção dos personagens, os arquétipos apresentados são Esportista, Nerd, Líder e o Café com Leite — que ajudam bastante na decisão da formação do grupo, já que o Líder será aquela criança mais velha e o Café com Leite, a criança mais nova, a caçula. As demais crianças vão escolher seus arquétipos com base nas afinidades entre as opções restantes: Nerd ou Esportista. Neste ponto, o CE aborda a diversidade etária, emulando com o conjunto de regras, através da mecânica de vantagens e desvantagens em relação ao arquétipo do jogador, o atributo onde ele recebe vantagem nas suas rolagens:

 

ArquétipoAtributo de Vantagem
EsportistaCorpo
NerdMente
LíderCarisma
Café com LeiteCuriosidade

 

Definido os arquétipos dos personagens, é hora de distribuir a pontuação dos atributos. Cada jogador tem 25 pontos para distribuir nos cinco atributos do jogo: Corpo, Mente, Carisma, Sobrevivência e Curiosidade, com a pontuação de cada atributo chegando ao máximo de 14 pontos. Uma dinâmica bem interessante que eu usei para a compreensão do que são os atributos e o que eles podem fazer, foi pedir para que Mari desenhasse crianças que se encaixassem nos arquétipos/atributos.

Para representar Corpo, ela desenhou uma criança forte ou rápida; Mente, o desenho de uma criança inteligente ou esperta; Carisma, o desenho de uma criança com muitos amigos, ou que sempre era a que tomava as decisões na hora das brincadeiras; Sobrevivência, uma criança que sempre escapa das situações complicadas com muita sorte (esse foi o desenho mais difícil para ela fazer); e Curiosidade, uma criança curiosa (ela citou até uma coleguinha da escola).

Vou ficar devendo a vocês as ilustrações da Mari, pois durante o processo de construção dos personagens e dos desenhos, surgiu a ideia de fazer uma versão do CE usando as ilustrações feitas por ela (e não, não me cobrem, porque isto ainda não tem data).

Para a distribuição da pontuação dos atributos, tendo em vista que Mari está com seis anos de idade e no primeiro ano do ensino fundamental — onde divisão ainda é um bicho de sete cabeças — optamos por usar feijõezinhos para representar a distribuição dos pontos dos atributos, e então anotar o resultado final na sua ficha.

Ficha? Os minijogos agora têm fichas? Sim, atendendo a pedidos, fizemos umas fichas do Crianças Enxeridas, que vocês podem baixar nas lojas virtuais do Mundos Colidem. E como Mari gosta de jogar com muitos personagens, sugeri a ela fazer uma ficha de cada arquétipo, com os seguintes resultados:

 

NomeIsabelaMariThalesTheo
ArquétipoNerdLíderEsportistaCafé com Leite
Corpo54111
Mente7425
Carisma61077
Sobrevivência4226
Curiosidade3536
Total25252525

Construindo Cenários

Com as fichas prontas, é hora de partir para a construção de cenários, algo que acredito que deva ser uma construção coletiva, como foi abordado em outras postagens aqui na Caixa do Lima. E um dos primeiros passos é conversar com os jogadores sobre os locais  do seu bairro que eles achem interessantes e que tenham histórias esquisitas — sejam inventadas por eles ou pelos adultos, para mante-los afastados. Após essa conversa inicial e a explicação da proposta do jogo, é chegada a hora de fazer os combinados sobre os temas sensíveis aos participantes, e que para o bom andamento o jogo, devem ser evitados na sua abordagem na narrativa — não preciso nem ressaltar o quanto isso é importante, certo?

Uma sugestão seria pedir para cada jogador escrever dois temas com os quais ele não se sente à vontade; o primeiro da lista é algo que até pode ser abordado de forma sutil na mesa, mas que já serve como um marco para o narrador saber que está entrando em uma zona perigosa. Cabe ao jogador avisar ao narrador quando ele ultrapassar o primeiro nível. O segundo tema deve ser algo que incomoda realmente o jogador, de forma que quando a narrativa chegar a esse ponto, ele deve avisar imediatamente ao narrador que chegou ao seu limite. Nesse ponto, a narrativa deve parar, dando uma pausa ao grupo para beber uma água, um refri, comer uns salgados e conversar sobre suas séries favoritas, para só então voltar à mesa e se necessário, mudar a versão dos fatos que levaram a história até aquela situação.

Ninguém é obrigado a permanecer em um jogo abusivo. O RPG é uma atividade de diversão coletiva, não permita que seus limites sejam desrespeitados.

Após estabelecer os limites da narrativa, é chegada a hora de definir com as jogadores o local onde será a “Toca de Coelho”, que é uma espécie de portal para o mundo das lendas. Ele deve ser um local do bairro ao qual as crianças têm acesso fácil e sobre o qual as crianças contam lendas, podendo ser uma árvore velha, um parquinho, uma construção abandonada ou uma casinha de brincar.

E para finalizar a construção coletiva do cenário, pegue todas as sugestões dadas pelos jogadores na conversa inicial e comece a colocar esses locais no cenário. Neste momento, use uma folha de papel — não é necessário ser um grande desenhista, apenas estabelecer com algumas figuras geométricas e palavras, os locais que os jogadores poderão explorar. Se estiver narrando para crianças, experimente distribuir uma folha de papel madeira e alguns bastões de giz de cera para que eles mesmos desenhem o mapa.

Após essas pequenas dicas, vamos ao cenário construído.

 

Cenário: Bairro Pajuçara (1995) / Rua do Visconde

História

Fundado na segunda metade da década de 1980, na zona norte da cidade do Natal, o Bairro Pajuçara foi construído sobre dunas móveis e habitado em sua totalidade por trabalhadores, que vieram para essa região pouco habitada na época de sua fundação, uma zona predominantemente rural, que acabara de ser cortada por um bairro residencial, onde os mais diversos causos ocorriam. Muitas famílias de recém casados se estabeleceram no local, que viriam a se tornar os pais das crianças que dez anos depois desbravariam os locais misteriosos do bairro, em meados da década de 1990.

Rua do Visconde

É uma rua bastante peculiar no bairro, principalmente por ser a última rua e fazer fronteira com a zona rural da cidade, além de ter vários locais de interesse da criançada. Os moradores da rua confirmam a presença — desde os primórdios do bairro — de várias entidades sobrenaturais, como a caboquinha, o batatão, o fantasma da creche e a mula-sem-cabeça, entre demais lendas do folclore local, além de encontros nada fortuitos com animais selvagens.

Locais

Creche Santa Mônica: é um local que as crianças acreditam ser amaldiçoado. Corre a lenda de que uma criança foi esquecida lá, e após uma noite chorando, desapareceu. Na verdade, é só uma lenda contada pelos adultos para assustar as crianças que insistiam em pular na creche durante a noite. É na casinha do parquinho da creche que está localizada a Toca de Coelho.

Rio Doce: saindo da rua em direção à zona rural (Leste) está o rio, muito usado para a diversão das crianças, mas há boatos que uma família de homens-jacarés habitam o local.

Floresta das Urtigas: há um caminho secreto e mais rápido para o Rio Doce, conhecido apenas pelas crianças. É uma intrincada trilha por entre a Floresta das Urtigas, habitada por cobras, aranhas e alguns seres sobrenaturais que frequentam o local ao cair da noite.

Granja das Mangueiras: No começo da rua (Sul), há uma pequena granja que dá para o lado da zona rural, com um extenso campo de mangueiras, um cachorro e uma senhora muito brava com uma espingarda sempre ao seu lado.

Casa Subterrânea: a sede da turma, localizada no quintal da casa de Mari e Theo e onde ocorrem as reuniões. É uma estrutura subterrânea precária, construída pelas crianças e totalmente invisível aos olhos dos adultos.

Casa Abandonada: No fim da rua (Norte) há uma casa que começou a ser construída, mas teve a obra abandonada, devido ao falecimento do proprietário, Jeremias. Algumas pessoas que o conheciam, acreditam que seu fantasma habita a construção. E por algum motivo, as bolas chutadas do campinho sempre teimam em cair nos arredores da casa.

Mata dos Cactos e Lagoa do Sapo: após a casa abandonada, começa a Mata dos Cactos, com suas inúmeras trilhas e animais selvagens (todo e qualquer teste de orientação nessa mata é feito com Desvantagem). Poucos adultos que adentram o local retornam. Mas ao encontrarem a Trilha das Orquídeas, os aventureiros podem chegar até a Lagoa do Sapo, de águas cristalinas e local de uma disputa milenar entre sapos e cobras. Atualmente, a lagoa é território dos sapos, dominada por um bondoso sapo chamado Zé.

Igreja e a Praça de São Simão: duas ruas acima (Oeste) está a Igreja, rodeada por uma praça pública, local de encontro da criançada no fim da tarde e também de o centro de estranhos desaparecimentos ao anoitecer. Dizem que à meia-noite, uma figura feita de trapos, conhecida como Boneca de Pano, caça as crianças fujonas para levá-las ao Mundo das Lendas.

Obra da Rede de Esgotos: nas proximidades da Mata dos Cactos e da Casa Abandonada, está o final da Obra da Rede de Esgotos para a captação de águas das chuvas. É uma imensa cratera a céu aberto, com inúmeras galerias e um labirinto subterrâneo habitado por todo tipo de criaturas — naturais e sobrenaturais.

Escola dos Sonhos: é a instituição onde as crianças enxeridas estudam, geralmente servindo como ponto de partida para todos os boatos. Uma sugestão é fazer a dinâmica de montagem com os jogadores, onde eles criam boatos e situações, passando a vez no sentido horário para os colegas complementarem a história ou solucionarem os problemas.

Ganchos de aventura
  • o Bicho Papão roubou o sinal da escola, e as pessoas que estão dentro dela estão presas em um looping infinito, pois sem o sinal para tocar e determinar a hora de ir embora, muitos estão presos ao encanto da Boneca de Pano. Mas os jogadores não são afetados, embora precisem encontrar o sinal e recolocá-lo no lugar para interromper o looping;
  • Durante as noites de férias, as crianças têm ouvidos sons estranhos vindos da creche, que sempre terminam com uivos infernais. E ao amanhecer, notam que um dos animais de estimação dos vizinhos desapareceu;
  • Uma criança está desaparecida, sua mãe espalha cartazes pelas ruas, desesperada. As crianças lembram do menino e sabem que foi visto pela última vez brincando perto das Obras da Rede de Esgoto — por mais que a mãe diga que ele não frequentava o local.

 


 

 

Esta postagem surgiu em um estalo do cotidiano, como quase todas as outras que tenho escrito nos últimos anos, mas tem um quê de especial, pois a Rua do Visconde, no Bairro Pajuçara, é o local onde cresci. Este cenário é alimentado por várias ideias e lendas que permeavam o meu cotidiano dos meus dez anos de idade, quando desbravava o local e suas lendas com meu grupo de amigos. Para nossa sorte, não existiam elementos sobrenaturais, apenas adultos querendo pregar peças em crianças enxeridas, algo que se perdeu hoje, no dia a dia da infância — o brincar na rua, o bisbilhotar e as peças pregadas pelos adultos, tudo arrebatado pelos novos tempos e as tecnologias.

Como falei há algumas linhas acima, o Crianças Enxeridas é um jogo muito especial para mim, pois ele é fruto de uma experiência entre pai e filha, observando anseios, diversões e atendendo às necessidades do nosso brincar.

Aos que se aventurarem com suas Crianças Enxeridas, desejo que esse jogo lhes proporcione muitas horas de diversão, gargalhadas e a aproximação entre pais e filhos.

 

Até Breve 😉

2 Comentários

  1. Socorro! Tem muito amor nesse texto. Acho que vou explodir!

  2. Kkkkkkkkkkkkkkkkkk

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