Contatos de primeiro grau: primeiras impressões do Tormenta20

Chegamos de volta a mais um andar da Torre do Destino, eu sou João D e espero que vocês não tenham ficado no tédio nesses dias. Minha vida vem de altos e baixos com aulas remotas e nem sempre consigo estar no ritmo de escrita. Mas, esses tempos eu comecei a jogar minha primeira mesa de Tormenta20, novo sistema oficial do cenário de Tormenta lançado em financiamento coletivo ano passado pela Jambô Editora. Sim, dessa vez estou jogando e não mestrando. Vou então apresentar as minhas primeiras impressões do sistema Tormenta20.

Eu tenho uma história pessoal com o cenário de Tormenta. Eu praticamente comecei a jogar RPG nesse cenário, ainda nos tempos de 3d&t em que os atributos eram pilhas de d6, antes de existir Força de Ataque e Força de Defesa se quer. Joguei e mestrei nesse cenário por anos nos tempos de escola. Cheguei até a ganhar a aventura “A libertação de Valkaria” de presente de um antigo professor. Parei de jogar no cenário quando conheci drogas mais pesadas.

Um mínimo do cenário

O cenário de Tormenta avançou muito do tempo que eu jogava viciadamente para hoje em dia. Romances oficiais e atualizações do sistema foram naturalmente moldando o cenário. Não sou um expert no cenário atualmente, muito menos na sua cronologia mais recente. Ainda assim, conheço bem o sentimento do mundo de Tormenta.

Facilmente o cenário se encaixa no estilo High Fantasy (Alta fantasia) onde magia, criaturas, monstros e deuses são fatores vívidos e recorrentes. Com direito a uma cidade comercial voadora, uma estátua divina no centro da capital e uma infestação alienígena protodemoníaca, eu na verdade coloco tormenta na classificação dos cenários Ultra High Fantasy. É um lugar onde sua imaginação pode ir BEM longe.

Um cenário assim pede por um sistema que faça jus a grandiosidade.

Uma terça-feira comum em Arton.

Um pouco do sistema

Em tempos não tão longínquos o Tormenta RPG trazia uma adaptação dentro do D20 com base no DnD 3ª edição e claramente personagens super poderosos. Isso ficava bem claro já na construção dos personagens, na adaptação das raças e classes. Agora o Tormenta20 continua mantendo a base no DnD, dessa vez mais voltado para a 4ª edição e a 5ª também. Minha ideia hoje é falar um pouco sobre características do sistema e como entender ou usar algumas das coisas apresentadas no livro.

Raças, classes, atributos, perícias e poderes. As seções dentro das fichas de personagens não são novidade para quem conhece DnD, mas mesmo com nomes similares algumas coisas fazem diferença. Raças, classes e atributos se mantêm bem equivalentes aos já conhecidos, com acréscimo de raças mais fantásticas, como as dhallans e os osteons, e de classes bem únicas, como o inventor e o nobre.

A grande variação do sistema mora na verdade nas perícias e nos poderes.

Perícias são importantes

Perícias são a espinha dorsal do sistema, elas servem para manter o sistema de pé e andando. Na prática todo teste do sistema acaba por ser um teste de perícia. Iniciativa, combate em corpo-a-corpo ou a distância, testes de resistências, todos estão dentro das perícias. O teste recorrente que não é perícia que consigo lembrar é só os testes de morte que usam apenas constituição.

Existe clareza em como o sistema funciona aqui: +2/+4/+6 se você for proficiente na perícia e é isto. O bônus de metade do nível eu acho pouco relevante, serve apenas para sensação de poder numérico. Outro fator interessante, e bem positivo, está na descrição e exemplos de testes usando as perícias. Facilita muito para mestres novos que possam se sentir perdido nos números do sistema. Meu maior problema aqui é com a quantidade de perícias, além do que algumas perícias não se equivalem em importância de uso nos jogos (alerta combeiro).

Poderes são divertidos

Se as perícias dão estrutura ao sistema então os poderes dão vida. Eles são responsáveis por ramificar e dinamizar tudo, sendo o coração do jogo. Uma tonelada de poderes que aparecem dentro das classes, nos poderes gerais, nos poderes de destino, poderes de magias e ainda poderes de devotos. Poderes dão uma maior liberdade para a construção do seu personagem, mesmo que num momento inicial a quantidade de poderes pode te deixar confuso, vale a pena conhecê-los e usá-los.

Assim, o sistema se mantém coeso e muito aberto para combos. Os personagens são naturalmente poderosos, o que encaixa na ideia do cenário. Com um pouco de esforço a mais em entender os poderes e você pode se sentir grandiosamente poderoso.

É interessante ver que aqui a escolha das raças na construção de personagens não está apenas ligada aos atributos iniciais dos personagens. Claro que receber um bônus de +4 em algum atributo chave para seu personagem pode ser importante, mas com a importância das perícias dentro do sistema vale muito a pena olhar para raças que tenham escolhas com poderes ou perícias (sim humanos sempre com sua versatilidade).

Um pequeno detalhe

Para não deixar despercebido vale a pena falar superficialmente sobre magias. Converter todos os custos de poderes para Pontos de Mana, diminuir os ciclos de magias para 5 e acrescentar nas magias a possibilidade de moldá-las, ao invés de deixar isso dentro de uma classe, são as principais mudanças em comparação aos DnDs. Não espere um sistema parecido com o da 5ª edição, ainda estou tentando entender como escolher bem suas magias. Afinal, escolher uma magia aqui é escolher também todas as suas variações.

Até aqui o sistema reforça bem a diversidade e grandiosidade do mundo de Tormenta.  E aí entramos no que, para as mesas que eu jogo, foi o maior problema do sistema: descansos.

Recuperações são limitantes

Personagens recuperam seu Nível (Nv) em Pontos de Vida (PVs) e Pontos de Mana (PMs) por descanso de 8 horas. Esse é o descanso padrão. Isso é bem pouco se comparado com o total de PVs e PMs que os personagens possuem. Principalmente para personagens como os Bárbaros ou Arcanistas que possuem altos multiplicadores de PVs e PMs por nível.

Como eu entendo isso? Que em Tormenta20 todo descanso é um “descanso curto” do DnD. Aquela sensação de dormir uma noite acordar com todos os recursos completos não existe por aqui. Ninguém se recupera com uma noite na taverna comum. Então, não olhem para o tempo de descanso de 8 horas e pensem nele como um descanso longo, ele não é. No fim, só existe um descanso em Tormenta20 e você precisará descansar várias vezes para se sentir completo.

Ainda tenho alguns problemas aqui, vejo que as classes com altas reservas de recursos acabam tendo mais problemas com os descansos e não vejo isso como algo positivo. Você escolhe ser um personagem duro na queda, ter mais PVs sendo um Bárbaro e ao mesmo tempo você recebe uma “punição” por isso, os descansos são menos eficientes para você. Me soa estranho que esse personagem não se recupere tão rápido como os outros, ou até mais rápido. Você deveria ser recompensado por essa escolha e não punido.

Concluindo

Até aqui eu vejo o sistema se mantendo no positivo. Com o detalhe dos descansos recomendo aventuras mais focadas em combates grandiosos do que em exploração constante de masmorras. Enfrentar um chefão aqui funciona bem, mas explorar cavernas e armadilhas pode ser super exaustivo com falta de descansos.

Para finalizar vale a pena ressaltar mais uma coisa. A regra de Aliados é bem focada em trazer para os jogadores a importância nas narrativas. Penso que a regra poderia estar melhor localizada no livro, ela está na parte do “mestre” e não na parte dos “jogadores”. Mesmo assim a regra é algo que vale a pena usar (e quem sabe combar). Não consigo desligar meu modo combeiro com o T20.

Em suma, se você pretende jogar no mundo de Tormenta o sistema é bem encaixado. Ainda vale a pena testá-lo em cenários de ultra high fantasy como o caso de World of Warcraft e DOTA. Com tantas escolhas é natural conseguir diversificar os personagens e facilitar uma adaptação desses casos. Se alguém testar o sistema fora do cenário oficial me avisem para saber como foi a experiência.

Se eu puder dar conselhos para regras alternativas eu recomendaria criar uma regra variante de descanso, para jogos com mais masmorras e explorações, ou criar uma lista variante de perícias, tentando alcançar uma estrutura mais reduzida e ainda estável.

Finalizando

Pretendo muito falar ainda sobre a parte focada para os Mestres no livro, mas ficará para uma outra postagem. Quem sabe também não falo sobre possíveis combos e personagens divertidos.

E você, conhece o cenário de Tormenta? Já leu o novo Tormenta20 ou mesmo conseguiu jogar ou mestrar? Como foi sua experiência com o novo sistema? Aproveita o espaço para comentar e abrir novas discussões.

Se você chegou até aqui aproveite para conhecer toda produção envolta do cenário de Tormenta que existe hoje em dia, romances lançados e streams de rpg que estão sempre acontecendo, basta seguir os canais da Jambô. Faça seu descanso, seja curto, longo ou apenas um descanso padrão t20. Próximos níveis me manterei em produções nacionais.

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