Consciência Negra, Representatividade e Literatura Africana (Afrofuturismo)

Olá, eu sou o Lima, Raphael Lima.

No episódio desta semana da Caixa do Lima, gostaria de fazer algumas pequenas reflexões sobre o Dia Nacional da Consciência Negra, Representatividade e Literatura Africana, em especial o Afrofuturismo, um gênero literário que na medida que ganha mais espaço na mídia literária, vai ganhando fãs por todo o mundo. Em especial aqui no Brasil, onde vemos muitas coisas boas sendo produzidas por negros e negras, utilizando como base a nossa cultura, que mesmo no século XXI ainda sofre com os projetos de invisibilidade.

Passado o Dia Nacional da Consciência Negra, onde eu e outras pessoas de origem africana, somos obrigados a ver e ouvir diversas manifestações em prol de uma “consciência humana”, quem recebeu o vídeo do Morgan Freeman levantem as mãos, especialmente por pessoas que não tem conhecimento sobre as pautas ou identificação com o movimento negro. Esse ano como professor da rede pública de ensino, mediei uma atividade com os alunos da escola onde leciono, no dia 20 de novembro, com o tema “Consciência Negra, Representatividade e Literatura Africana (Afrofuturismo)”. Esse artigo não é um fim, mas um começo para os que desejam encontrar as primeiras referências para iniciar as suas leituras nas obras de Afrofuturismo, e demais literaturas africanas.

Alguns de vocês que estão lendo esse texto, devem me conhecer, sou negro, escritor (de jogos de RPG) e professor de Ensino Religioso, com formação em Ciências da Religião e História. Anualmente na feira de ciências da instituição que leciono, desenvolvo um trabalho com as turmas do 5º ano do fundamental, que é o Censo das Religiões, onde os discentes entrevistam todos os segmentos que compõem a escola no seu cotidiano (alunos, professores e funcionários). Durante as pesquisas para o censo deste ano, notamos que houve um aumento representativo dos entrevistados que se declararam negros, em relação aos outros anos.

Em algumas conversas com os alunos, sobre cultura africana e afro-brasileira, o filme do Pantera Negra sempre vinha à tona. E é inquestionável o grande serviço que a adaptação dos quadrinhos tem feito para os povos de origem africana. Pois é a primeira vez que o negro não é retratado de acordo com os estereótipos que a nossa história convencional sempre nos passa através da grande mídia. E isso para os jovens, é mostrar uma outra África que não esteja apenas ligada a escravidão e dança. E para começar essa desconstrução, a primeira coisa a se fazer é combater os estereótipos determinados pelo senso comum, onde a história da África se remete apenas ao Egito na antiguidade. A medida que as pesquisas e os interesses crescem no continente muito se descobre sobre a África Subsaariana, e a sua história.

A cultura africana, desde sua origem é bem mais do que isso, e sempre é necessário lembrar que foram as tecnologias trazidas pelos antepassados que chegaram da África em regime de escravidão, responsáveis pelos grandes ciclos econômicos do Brasil colonial, as técnicas de agricultura em terras tropicais (cana de açúcar, café e o algodão) e a mineração (ciclo do ouro). A milênios, em várias partes do continente africano já se dominava as técnicas de cultivo, mineração e metalurgia.

O Brasil recebeu em média 40% dos escravos exportados para fora da África, em aproximadamente 300 anos de escravidão, onde ao fim dessa era não houve assistência em forma de política públicas por parte dos governos para a inserção da população de origem africana na sociedade brasileira. Ao contrário, houve na época um grande esforço da história oficial, para varrer a nossa herança escravagista para debaixo do tapete. O que contribui muito com comportamentos racistas que são reproduzidos até os dias de hoje, em nosso cotidiano, sempre carregando a justificativa: “é brincadeira”.

E um último ponto que eu gostaria de abordar, se remete ao “chão da escola”, sei que existem várias pautas no movimento negro, que poderiam ser abordadas nesse texto, mas vou me ater às atividades desenvolvidas no Dia Nacional da Consciência Negra que ocorre nas escolas, em algumas instituições, certos estereótipos do negro, moldados pelo senso comum são até repetidos e reafirmados, como fazer uma roda de capoeira, sem trabalhar a história e importância da mesma na cultura afro-brasileira, e se desenvolver algumas questões superficiais sobre a escravidão.

Consciência Negra, Representatividade e Literatura Africana (Afrofuturismo) - Alunos assistindo palestra de Raphael Lima
Consciência Negra, Representatividade e Literatura Africana (Afrofuturismo)

Literatura Africana (Afrofuturismo)

A película do Pantera Negra que estreou no início de 2018, pode ser considerado um marco na questão da expansão do debate sobre representatividade a todos os segmentos da população negra, especialmente aos que bebem diariamente os enlatados da mídia, que insiste em contar e recontar a sua narrativa de invisibilidade das pautas do movimento negro. Nesse novo cenário, crianças passam a se reconhecer como negras, e anseiam pelo conhecimento da história e da cultura dos seus antepassados, e esse movimento coloca a literatura africana nos holofotes, em especial as obras da “Nova Literatura Africana” com fortes bases no movimento Afrofuturista, onde está inserida a obra do Pantera Negra.

Mas o que é Afrofuturismo? É uma narrativa fantástica que ao invés de se basear na evolução histórica seguindo a cultura e tecnologia europeia, como parâmetros de evolutivos, tem seu alicerce na cultura africana, seus mitos, cosmologias, tecnologia, ciência e imbuídas de críticas sociais. O movimento do Afrofuturismo surgiu na década de 1960, tendo como pioneiro o compositor de jazz, poeta e filósofo Sun-Rá. E na década de 1970 com as obras literárias de Octavia Butler (Kindred). Mas se consolidando como movimento cultura na década de 1990 com a obra de Mark Dery, Black the Future, transcendendo a literatura e a música e abrangendo outros segmentos artísticos.

Nos últimos anos tem ocorrido uma demanda pelas obras do gênero no Brasil, onde já podemos encontrar alguns títulos em português: ‘Filhos de Sangue e Osso’, de Tomy Adeyemi; ‘Kindred’, ‘Despertar’ e ‘Parábolas do Semeador’ da Octavia Butler, considerada a Papisa do Afrofuturismo; ‘Quem Teme a Morte’ e ‘Bruxa Akata’, de Nnedi Okarafor (ganhadora do World Fantasy Award), que possui outras obras que são aguardadas ansiosamente em português: especialmente ‘Binti’ (ganhou o prêmio Nebula e o Hugo de 2016), Okarafor escreveu o quadrinho do Pantera Negra continuando de onde Ta-Nehisi Coates parou (‘Shuri: The Search for the Black Panther’ e ‘Wakanda Forever’).

Retornando ao Pantera Negra, citamos o Ta-Nehisi Coates, escritor negro que escreveu as séries: ‘Pantera Negra: uma nação sob nossos pés’ e ‘Pantera Negra: Os Vingadores do Novo Mundo’. E o Jesse J. Holland autor do romance ‘Quem é o Pantera Negra’. Em se falando de obras nacionais com temática Afrofuturista, temos O Caçador Cibernético da Rua 13, do Fábio Kabral lançando pela Editora Malê, uma obra que apresenta a história de João Arolê, um jovem negro, caçador de aluguel de espíritos malignos, em um cenário que apresenta todos os elementos da cultura negra em um mundo de ficção. Pesquisando a obra do Kabral, cheguei até um playlist do Spotify nomeada ‘Afrofuturismo Kabral’ e a dois podcasts que recomendo a audição: ‘O Lado Negro da Força’, ‘Lado Black’ e o episódio ‘Cultura Africana’ do ‘The Black Cast’.

Não sou um grande especialista em Afrofuturismo, só recentemente tenho conhecido mais o tema, e autoras da chamada “nova literatura africana”. Na onda do movimento, as obras de história da África começam a ser mais fáceis de encontrar nas livrarias. Mas ter representatividade, não é apenas ter um negro presente nos espaços, mas que tenha vez e voz a nossa cultura e história, e respectivamente a literatura seja contada e conhecida. Neste cenário é importante mostrar os trabalhos da literatura africana, e mostrar que existem autores africanos e de origem africana, com trabalhos literários que merecem ser citados nas conversas sobre a Consciência Negra, e não reproduzir estereótipos contados pela literatura européia sobre a história e a cultura africana.

Até breve 😉

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