Analisando suplementos de D&D – Enfrentando a metafísica filosófica

Caros leitores sejam bem-vindos de volta. Depois de um descanso mais longo do que o usual, passei por algumas tempestades pessoais, estamos de volta a nossa escalada na Torre do Destino. Ao entrarmos nesse estágio vou voltar um pouco a discussões iniciais dessa coluna. Mas, não iremos nos voltar a entraves do sistema e suas nuances matemática, vou dessa vez discutir um pouco sobre como temperar um cenário ou campanha de D&D utilizando alguns suplementos do DM’s Guild (Guilda dos mestres numa tradução pessoal). Começando com o Mindphlayers and Metaphysicians. Está curioso com o que tem no livro? Vamos lá.

O suplemento Mindplhayers and Metaphysicians (Devoradores de mentes e metafísicos) ou M&M, e está disponível na Guilda dos Mestres foi produzido pela Tragos Games e escrita pelo Ricardo Peraça Cavassane. O suplemento tem como principal objetivo a criação de personagens e narrativas com teor filosófico. Nessa premissa, o livro nos traz na introdução duas perguntas importantes pra utilização do suplemento: “O que é filosofia?” e “Por que filosofia?”.

Pra falar sobre o material devo ressaltar que já gosto muito da área de filosofia e sempre senti necessidade de utilizar melhor o conhecimento dos personagens dentro dos meus jogos. Com conhecimento me refiro a utilizar da descoberta, da busca e da investigação como modo de incrementar o jogo. Alguns anos atrás fiz uma campanha que se baseava num segredo divino escondido, onde aos poucos os jogadores iriam reconstruindo o passado como forma de entender o que estava escondido e resolver os maiores problemas da aventura. Nossa, adoraria ter conhecido esse suplemento naquele tempo, teria me ajudado muito na construção narrativa. Ainda assim, para jogos futuros será ótimo ter acesso a esse tipo de material.

Vale o lembrete, o material está todo em inglês na Guilda dos Mestres e isso pode ser um problema antes mesmo da leitura, mas o texto tenta facilitar o entendimento e com a ajuda de um tradutor automático a leitura pode ficar viável.

No início do suplemento o texto já apresenta exemplos diversos de personagens que trazem nos seus conceitos de construção a pesquisa, a descoberta e o teor de busca filosófica.  Logo depois descrições simples de como cada raça e cada classe pode se encontrar dentro de uma narrativa de descobertas. Como no caso dos clérigos:

On the other hand, sacred texts and divine revelations are often cryptic and enigmatic, and philosophy can help them better interpret and understand the commandments of their gods.

Por um lado, textos sagrados e revelações divinas são comumente codificados e enigmáticos, a filosofia pode ajudar a interpretá-los melhor e trazer entendimentos dos mandamentos divinos (Tradução livre).

Assim, podemos pensar em clérigos aventureiros do conhecimento buscando respostas corretas sobre os ensinamentos mais obscuros e indecifráveis dos deuses, ou mesmo um paladino buscando entender como justiça e violência podem estar atrelados um ao outro. Em todo caso, as descrições auxiliam a construção de personagens e tramas, mas sempre vale a criatividade dos jogadores e do mestre para interpretar cada situação.

A construção de personagens também acaba recebendo outros incrementos. Na verdade, algumas características da ficha de personagem recebem mais importância nesse estilo de jogo. Linguagens se tornam bem mais impactante, em um mundo onde várias raças têm suas próprias convenções culturais e sua própria linguagem. Entender livros passam então a ser fontes de novos conhecimentos e de novas dificuldades e desafios antes não explorados em jogos mais típicos de fantasia medieval.

Numa narrativa de novos conhecimentos algumas perícias também recebem novas roupagens e mais opções de utilização. Investigação se torna o caso mais claro. Encontrar o livro que contém a informação necessária para continuar seus estudos, ou conseguir compreender textos criptografados são novas situações onde a perícia ganha mais brilho. Além disso, a perícia Philosophy (Filosofia) é adicionada ao grupo de perícias de Inteligência. Essa perícia é utilizada para recorrer a conhecimento filosófico, como perícias de conhecimento de natureza ou história, além de ser utilizada para construir e deduzir novas ideias ou argumentações. Novos talentos também aparecem como forma de criar uma variação diversa na construção dos personagens.

Até aqui, o livro tem características bem próximas de outros suplementos com acréscimo de regras e uma compreensão de qual narrativa utilizá-las. Mas, para incrementar o conhecimento racional dentro das regras, não somente como parte estética da narrativa, o M&M apresenta uma ação nova Philosophizing (filosofando). Numa seção completa o suplemento descreve a complexidade que envolve realizar uma nova descoberta filosófica que acaba moldando o personagem. Assim, testes e ações específicas são necessárias no desenvolvimento de uma nova ideia, interpretação ou argumentação sobre algo, que envolve bônus específicos em determinadas situações como auxílio de outros personagens ou livros. Além disso, o ato de filosofar, quando deságua em lugares novos, também traz ao personagem bônus em outras ações futuras além da motivação narrativa. Isso tudo com uma diversidade própria da filosofia com variação para testes e descobertas em cada uma das sub-áreas, como na metafísica, na ética ou na estética.

Como também não poderia faltar o suplemento conta com itens mágicos novos, novas magias e interpretações delas e, que não poderia faltar, uma seção voltada para monstros e vilões filósofos. Devoradores de mentes, observadores, demônios ancestrais e deuses são todos bons antagonistas filósofos que podem sempre estar em contraponto com o grupo de jogadores, nem sempre na disputa por ferimentos e pontos de vidas, mas, às vezes, na disputa por pilares morais e atos duvidosos. Essa é a parte do livro que mais pode dar suporte ao mestre para a construção dos problemas e desafios durante a campanha.

Numa visão geral, o livro traz boas ferramentas para tratar de uma narrativa diferente do usual. O consenso entre mestre e jogadores é essencial na utilização do suplemento, uma vez que todo o conceito de superação, busca, conhecimento e desafios ganham novas roupagens e aprofundamentos, que por muitas vezes são evitados numa campanha de fantasia medieval de mais ação. Como fica o mundo após a morte de um deus? Como seria a sociedade onde todos descobrem que nunca houveram deuses? De onde surgem as magias? Quais magias são puras e quais são meros truques? Questionamentos ou situações como essas podem ser bons motores para personagens, grupos, ou mesmo aventuras inteiras e seriam negligenciadas em várias mesas.

Se todos estão empolgados com a ideia de jogar uma narrativa desse estilo, o M&M pode dar a todos bons meios de conseguir construir boas histórias. Como já falei na discussão sobre o atributo Inteligência (Analisando Inteligência ou como ser esperto em D&D 5ª edição) penso que esse tipo de narrativa pode, de certo modo, melhorar a importância desse atributo na mesa sem precisar utilizar regras como as apresentadas na postagem anterior. E como já falei, no decorrer desse andar, gosto muito de jogos com mistérios e descobertas, mesmo em mundos de fantasia medieval mais ricos e de ação. Espero encontrar jogadores interessados em jogar uma aventura simples com o M&M ainda.

E você, o que acha da ideia de utilizar narrativas fora do padrão D&Dzísticos? Já conhecia o DM’s guilds? Recomendo a busca de novos materiais que possam incrementar seus jogos.  Quais ideias de narrativas podem surgir num jogo como esse? Só eu pensei em narrar algo voltado para C’thulhu? Usem o espaço dos comentários para falar sobre suas experiências com jogos no estilo, vamos compartilhar essas descobertas!

No geral se você já chegou até aqui, aproveite os bônus de experiência por terminar o sexto nível da Torre do Destino. O nosso próximo descanso pode não ser tão longo quanto foi nesse último mês, mas aproveite-o como puder, a próxima entrada pode mudar nossas noções de tempo. Nos vemos lá.

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