Analisando Inteligência ou como ser “esperto” em D&D 5ª edição

Caros leitores, sejam bem-vindos à entrada da Torre do Destino. Eu sou João D e irei acompanhá-los na subida quase interminável da nossa torre. Em cada quinzena da nossa empreitada irei tratar sobre conteúdos diversos de RPG. Alguns tipos de sala serão recorrentes, como os laboratórios de análises ou de experimentos, mas não se preocupem, tentarei prezar pela saúde física dos meus leitores — então, sem chefões nos primeiros níveis.

Assim, deixe-me começar a falar sobre nossa sala de entrada: uma pequena análise sobre atributos do clássico Dungeons and Dragons. Há algumas semanas conversava com Leishmaniose, da coluna Lugar Nenhum, e Joka, da coluna Espaço Mítico, sobre como os atributos de D&D ajudam e confundem os jogadores a partir dos seus nomes. Desde então comecei a conversar com alguns outros jogadores e mestres do D&D 5ª edição e fui juntando peças, problemas, perguntas e soluções (ou quase).

Vou começar falando: eu adoro a 5ª edição. Foi minha primeira experiência como mestre de D&D e senti uma simplicidade muito bem-vinda quando comparado à 3.X (aviso logo que não conheço a 4ª edição do jogo). Ainda assim, não posso ignorar os problemas mecânicos existem no jogo, principalmente a Inteligência. Gosto muito de pensar sobre como as regras dos jogos de RPG tentam, e as vezes conseguem, transmitir alguma ideia da narrativa além de estudá-las para encontrar alguns combos minmax — como matemático, adoro ver as probabilidades dos sistemas.

Inteligência em D&D

Vamos ao nosso caso de estudo. Quando pensamos nos seis atributos básicos do D&D, todos eles parecem cobrir alguma característica usual dos personagens em um mundo de fantasia medieval como conhecemos. Mas, quando o assunto é a Inteligência, isso parece atualmente ficar apenas no nome.

A Inteligência, na 5ª edição, representa “precisão mental, memória e análise”. Pelo nome, deduzimos rapidamente que um personagem com alto valor em inteligência seria “esperto, criativo e estudioso”. E então entramos no buraco da inteligência. Quando passamos para testes e mecânicas, muitas dessas características de “esperteza mental” que desejamos para o personagem, durante sua construção, acabam não aparecendo no decorrer do jogo.

Normalmente, o atributo Inteligência será usado em duas situações. A primeira quando é necessário rolar um teste de resistência de Inteligência. Esse teste aparece comumente em magias de ilusões, como Phantasmal Force (página 264 do PHB) e Major Image (página 258 do PHB), mesmo assim, é um teste de resistência bem incomum. A segunda situação é quando rolamos alguma perícia que tem como base o próprio atributo, que são Arcana, História, Investigação, Natureza e Religião. Com a exceção de Investigação, todas as outras perícias seguem a ideia de fazer parte de uma área de conhecimento do mundo de fantasia medieval do D&D.

Se pararmos para separar a sopa completa que são as regras da 5ª edição, acabamos sempre nos perguntando como traduzir a ideia do nosso personagem em algum ingrediente do sistema. Aqui encontramos onde há incentivo para a construção de um personagem com alta Inteligência. Mas, fora a construção de um personagem já pensado para ter inteligência alta — como um conjurador que lança magias por Inteligência — acabamos não encontrando bons motivos para colocar pontos de Inteligência em um bardo ou um ladino, por exemplo. Atributos como Constituição e Sabedoria sempre parecem mais apetitosos como atributo secundário ou terciário no lugar da Inteligência.

Por que bardos e ladinos não sentem mais atração por altos valores de Inteligência? Minha resposta: proficiência. O conceito de proficiência na 5ª edição é, em resumo, aquilo que o personagem é treinado em fazer, um conceito que une base de ataque com graduação de perícias e até resistência das edições 3.X. Essas coisas são determinadas de acordo com as classes e assim, proficiência facilita o entendimento disso tudo. Logo, a retirada da Inteligência como atributo que antes media seu aprendizado, no conceito das graduações das perícias, deixa um vazio na relevância secundária do atributo.

Afinal, aprender algo é ter proficiência.

“Mas a ideia de medir conhecimento está nas perícias que utilizam Inteligência na 5ª edição”, alguém poderia dizer. Sim, concordo que isso reflete de certo modo a ideia de personagem inteligente, mas não é uma característica única do atributo. Como então tornar a Inteligência um atributo mais relevante como secundário ou terciário, em fichas de personagens? Como adaptar algo de regra que se enquadre na construção de “um bardo inteligente” ou mesmo “um guerreiro inteligente” (pessoalmente, gosto muito desse conceito)?

Inteligência à Moda da Casa

Abaixo trago algumas ideias de como alterar o uso da Inteligência de modo a incentivar a construção de personagens mais espertos nas suas mesas de jogo.

A Reação Rápida

A minha primeira ideia surge de um Unearthed Arcana, que trazia uma variante de subclasse de mago. Nela, a iniciativa poderia ser rolada tanto por Destreza quanto por Inteligência. Considerando que a Inteligência estaria ligada à atenção e reação do personagem, me parece bem natural considerá-la na iniciativa alternadamente com a Destreza. Até mesmo seria possível uma variante que soma os dois.

A Criatividade

Uma regra variante que também poderia ser considerada é a que cada perícia não estaria ligada obrigatoriamente a um único atributo. Assim, seria possível o teste de Perception (Int), como em uma reação de busca rápida, como um chaveiro que conhece a descrição ao entrar numa sala, ou mesmo Acrobatics (Int), na busca por um caminho mais seguro para atravessar o terreno ardiloso. Claro que outras possibilidades poderiam aparecer, como por exemplo, Intimidation (Str) ou Atletism (Con), em situações que envolveriam tanto a criatividade dos jogadores quanto do mestre. Claro que esta regra poderia ser colocada apenas em casos específicos como “toda perícia de Sabedoria pode ser lançada também por Inteligência”. Pense sobre como essa regra se refletiria no jogo e, na dúvida, faça o experimento.

Estas duas primeiras variantes tentam se aproximar de um jogo onde Inteligência está diretamente ligada à atenção, de forma que altos valores no atributo geram personagens com melhor iniciativa e menos surpresos em combate. A segunda traz apenas uma variação para os testes de perícias que muitas mesas utilizam. Ambos os casos não alteram significativamente os combates, então os níveis de desafio continuarão bem similares.

Como “armazenamento de informação”, algumas outras variações podem ser pensadas. Como aventureiros que se preocupam com estratégias de combate ou com magias, as ideias abaixo podem servir.

Aprender magias

Personagens com a habilidade spellcasting e que possuem lista de magias conhecidas, recebem uma magia conhecida a mais por modificador de Inteligência. Assim, classes como bardos e feiticeiros ou subclasses que tenham uma quantidade de magias conhecidas, podem ter benefícios com Inteligência. Inicialmente, pensei nesta variante como sendo isolada de conjuradores que preparam magias — como magos e clérigos — mas seria possível aumentar a lista de cantrips conhecidas, ou mesmo de magias preparadas por dia.

Estratégias de combate

Personagens poderiam aprender pontos isolados de feats, desconsiderando aumentos de atributos, um para cada ponto de modificador de Inteligência. Assim, um guerreiro com alto valor de Inteligência poderia ser “treinado” em “reduzir a zero a velocidade de um inimigo acertado por um ataque de oportunidade”, como no feat Sentinel, ou um clérigo poderia aprender a proficiência em armaduras pesadas. Esta variante gera personagens bem diversos, mas tome cuidado com a possibilidade de combos e outras coisas estranhas acontecendo na mesa. Recomendo uso moderado, como limitar a quantidade de pontos de feats que poderiam ser adquiridos e para campanhas mais curtas. As chances dessa regra criar buracos nas regras existem, principalmente se combinadas com muitas regras variantes.

Antes de trazer o último exemplo, que estou atualmente pondo em prática, utilizarei esse último corredor até o chefão do primeiro nível para falar sobre Inteligência x Razão. Num entendimento sobre múltiplas inteligências, o nome do atributo e aquilo que ele representa, acaba não satisfazendo. O atributo representa muito mais a memória e a inteligência lógico-matemática. A inteligência corporal, musical ou mesmo pessoal, acabam não sendo representadas. Nessa ideia, a última proposta nada mais seria do que um leve recuo para o conceito da antiga 3ª edição.

Os múltiplos conhecimentos

Essa regra variante envolve personagens mais inteligentes conhecerem mais coisas. Assim, para cada ponto de modificador de Inteligência, o personagem conheceria uma proficiência a mais, seja na forma de perícias, ferramentas ou línguas. Desta forma, um mago pode acabar treinado em Atletismo como um treinamento a mais que ele obteve durante sua vida, ou um druida pode trocar a Inteligência 10 por Inteligência 12 para ter uma perícia a mais que ele julgava ideal para o personagem. Estou aplicando esse experimento atualmente na mesa de 5ª edição que mestro e me pareceu um incentivo interessante para os jogadores pensarem sobre esse atributo como uma opção. Além do que, essa regra não influencia combates em geral, apenas cria mais possibilidades de interpretação para os jogadores.


Aproveite as ideias acima e reflita em como a sua mesa pensa sobre personagens inteligentes no jogo de vocês. Junte algumas das regras, como os múltiplos conhecimentos com as magias aprendidas, ou mesmo aproveite para tentar pensar sobre alguma regra que se encaixe no seu jogo. No geral, a diversão de todos continua sendo o objetivo principal nas mesas de RPG.

E você, o que acha dos atributos em D&D? Concorda com minha análise? Discorda totalmente? Comente sobre como você pensa sobre as regras alternativas, ou quais regras usa. Vamos aproveitar o espaço para debate — saudável e sem hates.

No geral, se você já chegou até aqui, aproveite os bônus de experiência por terminar o primeiro nível da Torre do Destino e contabilize seu loot.

Espero que aproveite seu descanso longo até chegarmos ao próximo nível.

6 Comentários

  1. Gostei muito!
    Sempre gostei de dar uma valorizada na inteligência quando mestro e até quando jogo, já fiz algumas coisas das que você disse, mas gostei especialmente da última, tô preparando um jogo de ravenloft e acho vou aplicar!
    Um chero!

  2. Damião with his intelligence 8 laugh about your intelligent fighter

  3. Matéria legal. Apesar de eu não jogar D&D 5E (então se eu falar besteira abaixo, desculpe).

    Cara… me parece que você tá mexendo num vespeiro com adição de proficiências, meio-talentos, maior número de cantrips, etc. A chance de desbalanceamento é grande.

    Me parece mais seguro investir em novas opções para personagens espertos, como especializações de classe e/ou talentos para um combatente estrategista, ou que possibilite o uso de Inteligência no lugar de outra habilidade (ou dê um bônus em jogadas) em certas situações sob certas circunstâncias.

    • João Deesays:

      Olá edu,
      Ainda espero fazer uma versão de personagens mesmo, considerando habilidade de classe para interagir melhor com inteligência. Mas por enquanto fiquei fechado no atributo em si. Concordo com o possível desbalanceamento, mas defendo a ideia de testar coisas como a iniciativa, a interação das perícias com outros atributos e até as proficiências. Estou testando nos meus ao menos xD

      Valeu pelo feedback

  4. Interessante essa relação proeficiênca x inteligência no DnD 5°

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